Leitura de O Grito, de Munch, e os múltiplos vasos comunicantes

Edvard Munch, ao pintar O Grito, mostrou, antes de tudo, que a arte é uma representação da realidade

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Ao artista norueguês Edvard Munch (1863 / 1944) é atribuída a seguinte reflexão acerca da concepção do quadro O Grito, de 1893, com o qual ele se tornou- célebre mundialmente: (Texto I)

A narrativa descreve o estado emocional que dominou o pintor inspirando-o à criação da obra. Mais de um século após, "O Grito" foi a leilão e arrematado por US$ 119,9 milhões, tornando-se o quadro de maior valor de mercado da atualidade.

Plasticamente a imagem ganha forma pela junção de contrastes. As linhas retas da ponte em contraposição à representação sinuosa do céu e da água; as cores quentes na parte superior da pintura contra as cores frias na parte inferior; a placidez dos dois homens contra a sensação de horror da figura; e, por fim, o grito ensurdecedor que sai da mesma contra o silêncio que chega ao observador.

O eu e o cotidiano

Desse modo, aparentemente, Edvard Munch vivenciou este momento de forte emoção e posteriormente o interpretou em pintura e palavras. Um contato com a biografia do artista induz o curioso leitor a conclusões sobre seu impulso criativo. Uma vida atravessada desde cedo pela morte, doenças que acompanharam toda sua existência, muitos amores, e sem "finais felizes", ciúmes, solidão. Assim, é quase natural perceber em "O Grito" a forte carga de subjetividade do artista. Mas será o grito somente do artista? Consta que da apresentação artística de Munch a imagem foi rejeitada de início pela crítica. No entanto, a reação do público evoluiu para a aceitação e até desejo de posse, pois o artista na época já utilizava o recurso de gravação para reproduzir e comercializar as obras. O fato por si dá indícios de um elo existente entre a imagem apresentada e o público. Podemos atribuir uma identificação de sentimentos contidos no artista e parte de observadores, como também pensaríamos no reconhecimento de uma imagem comum à humanidade, caracterizando uma obra universal. Grita o artista, mas grita o mundo também.

Das volições

Medo, angústia, dor, horror são sentimentos que perpassam qualquer indivíduo na sua trajetória de vida e que estão impregnados em "O Grito". Por outro lado, reproduzimos aqui a pergunta levantada por Jung: "a que imagem primordial do inconsciente coletivo pode ser reduzida a imagem desenvolvida na obra de arte?" (1991: 68) À cena originária aludida por Freud, ao "espaço vazio deixado pelo enigma"(CARVALHO: 1994: 08) ou à ciência sobre a consciência? Quem sabe? Se atribuirmos o grito ao artista, mas também à humanidade, uma outra questão surge. Que grito soa mais alto, se é o grito do indivíduo ou o da coletividade. Pelo alcance da imagem que extrapolou muito o campo cultural, a obra superou a subjetividade artística. Tornou-se um símbolo impregnado na mente coletiva. Símbolo este em que se pode acessar a qualquer momento para representar situações cotidianas. Tornou-se um hit, não temporário, mas permanente. "O Grito", muito antes de sua estrondosa venda por valor surpreendente, já tinha status de uma imagem que ganhou o mundo, ao menos o mundo da arte ocidental. Sua disseminação foi tão alargada ao longo dos anos que poderíamos até pensá-la como fruto de uma arte pop, concebida e produzida para comercialização e consumo da indústria cultural.

Evidentemente não se trata disso. Remeto a questão apenas para buscar compreender como uma obra de arte tão identificada com a vida do próprio artista pode também significar tanto para a coletividade. Aqui vale uma ligeira reflexão sobre signo e sua fenomenologia. Estudiosa em semiótica, a cientista das linguagens, Lúcia Santaella afirma, incisiva, que: (Texto II)

Trechos

TEXTO I

Caminhava eu com dois amigos pela estrada, então o sol pôs-se; de repente, o céu tornou-se vermelho como o sangue. Parei, apoiei-me no muro, inexplicavelmente cansado. Línguas de fogo e sangue estendiam-se sobre o fiorde preto azulado. Os meus amigos continuaram a andar, enquanto eu ficava para trás tremendo de medo e senti o grito enorme, infinito, da natureza.

TEXTO II

De todas as aparências sensíveis, o homem - na sua inquieta indagação para a compreensão dos fenômenos - desvela significações. É no homem e pelo homem que se opera o processo de alteração dos sinais (qualquer estímulo emitido pelos objetos do mundo) em signos ou linguagens (produtos da consciência). (1983: 12 - 13)

FIQUE POR DENTRO

A obra de arte e o enquadramento estético

Sob a perspectiva da História da Arte ocidental, o quadro se alinha ao Expressionismo. Um movimento artístico que surgiu na virada do século XX, refletindo o mundo conturbado por revoluções, pelo desenvolvimento científico e industrial e ainda pelo surgimento da teoria psicanalítica. Na arte, já não havia mais preocupação em retratar o mundo da forma que se via. A subjetividade tornava-se mais intensamente o combustível dos artistas, envolvidos agora por suas emoções. Uma figura aparentemente humana, de olhos arregalados, que parece gritar de horror é o foco central de "O Grito". Ao fundo, sobre a mesma estrada/ponte em que se encontra a figura, dois homens passeiam tranquilamente, tendo como paisagem um céu vermelho fogo caindo sobre a água de azul enegrecido.

Liliane Coelho Gurgel e Carlos Velásquez

Especial para o Ler

Do Centro de Humanidades da Unifor