Leite derramado

Produzido por Rick Bonadio, ´Sacos Plásticos´ mostra os Titãs procurando se encontrar

No fundo, a ambição de todo músico que lança um novo disco é bem maior que agradar seus admiradores. Se desagradar os fãs é o mesmo que dar um tiro no pé, se restringir a eles é correr o risco de morrer de inanição. Conquistar, novos fãs, novos territórios, é o nobre objetivo que guia jovens e veteranos na música.

E eis que chegamos à “Sacos Plásticos”, 14° álbum de estúdios do grupo de rock paulista Titãs. A ambição do atual quinteto esbarra num resultado irônico: a combinação do tal “tiro no pé”, combinado com a incapacidade de se renovar para a apreciação do público neófito. A despeito da insistência em fazer referências a vários momentos da trajetória titânica, o disco pouco se parece com a banda. Afinal, o projeto estético do grupo sempre esteve mais ligado a certa postura, mutante, de reinvenção, do que a sonoridades específicas.

“Amor por dinheiro” abre o disco, com disposição de ser sua síntese. O riff da guitarra de Tony Bellotto se funde às programações eletrônicas, executadas pelo produtor do disco, Rick Bonadio. A letra, cantada por Sérgio Britto, vai na linha da banda, dos jogos de palavras e a crítica dos costumes: “Amor verdadeiro/ Dinheiro, amor por dinheiro!”.

A tentativa de síntese é frustrada, já que a música não consegue incorporar os bons momentos do disco. É um cartão de visitas em que estão contidas apenas as más referências do álbum. O sonzinho eletrônico evidencia duas coisas: a busca pelo passado e as limitações de Bonadio como produtor.

Do release enviado pela assessoria de imprensa da banda à entrevista com Branco Mello (ver ao lado), a referência aos discos “Jesus não tem dentes no País dos Banguelas” (1987) e “Õ Blésq Blom” (1989) é uma constante. Nestes discos, as bandas introduziram batidas eletrônicas, sintetizadores e outras novidades da época. O resultado, no entanto, foi harmonioso e rendeu clássicos como “Miséria” e “O pulso”.

No novo disco, falta esta harmonização. “Amor por dinheiro” e a faixa-título mais parecem canções remixadas - e falo daquela ordem de remix que pegam canções que não se encaixam como as batidas frenéticas (vide os assassinatos que já cometeram com canções de Adriana Calcanhoto, Maria Rita e afins, para levá-las às pistas).

Esta volta ao passado pode ser vista como a estratégia da banda se sair de um impasse. Desde o disco “Acústico MTV”, estrondoso sucesso de 1997, a banda não conseguiu se encontrar. De lá para cá, só lançaram disco medianos, ainda que chegando às paradas. O sucesso radiofônico não é necessariamente um termômetro de qualidade das canções, considerando as babas “Epitáfio” e “Enquanto houver Sol”. Para piorar a situação da banda, uma fatalidade levou o guitarrista Marcelo Fromer, há oito anos; e o baixista e cantor Nando Reis deixou a banda para investir numa carreira solo.

Era esse o cenário que cercava a banda, quando ela decidiu entrar em estúdio para compor seu novo disco. A aposta da vez estava na escolha do produtor: Rick Bonadio. Há alguns anos, se diria facilmente que o quinteto havia subido a bordo de um barco furado. O que o cara que já produziu “coisas” como Rouge, Tiazinha e Dogão (?) teria a oferecer aos autores de clássico do rock brasileiro, como o disco “Cabeça Dinossauro”? Para os fãs de rock mais tradicional, Bonadio é um verdadeiro demônio, mentor de bandas de apelo teen, caso de Charlie Brown Jr. e NX Zero.

A aposta dos Titãs só era de todo absurda porque Rick Bonadio assinou a produção da pérola roqueira “Invisível DJ” (2007), último disco do Ira! e um dos melhores da carreira da banda. A equação era similar: veteranos, da mesma geração dos Titãs, em busca de renovar seu fôlego, a partir das mesmas fontes musicais que os fizeram famosos.

“Na verdade, há muito tempo ele demonstrava que tinha interesse em trabalhar com os Titãs, porque é um fã da banda. A gente também gostava de trabalhos que ele tinha feito, como os Mamonas Assassinas. Quando acabou nosso contrato com uma grande gravadora, ele fez o convite”, conta Branco Mello, um dos vocalistas e atual baixista dos Titãs. Antes disso, Bonadio já havia se aproximado do grupo, ao produzir a “Vou tirar você desse lugar”, canção gravada por Paulo Miklos para um tributo a Odair José. Com Miklos, usou a mesma fórmula que havia utilizado no disco do Ira!: gravar um rock mais cru e dá-lo acentos pop.

Com os cinco Titãs, preferiu outro caminho: modernizar. A intenção não é o problema. Esse reside na idéia que Bonadio tem de modernidade. Pensá-la como um revestimento de efeitos e ruídos eletrônicos não só representam uma caricatura do que é moderno (neste caso, “futurista”), como já virou sinônimo de embalagem de produtos vulgares. O não é esta a fórmula que Wanessa Camargo e Britney Spears usam em seus discos?

Repetição

De novo, o disco tem muito pouco. “Porque eu sei que é amor”, por exemplo, é mais uma das derivadas de “Epitáfio”. A fórmula é a mesma: balada romântica ao violão, com letra pautadas em frases feitas (“Eu sei que é pra sempre/ enquanto durar”).

Mas há bons momentos no disco. “A estrada” e “Deixa eu entrar” são dois rocks cantados por Branco Mello e evocam os bons momentos dos Titãs com as guitarras. São canções para funcionar ainda melhor ao vivo, como “AA UU”. “Antes de você”, primeiro single do disco e tema da novela “Caras & Bocas” (Rede Globo), é uma balada arrumadinha, que não faz feio em meio as demais.

Acertos a parte, é muito pouco para uma banda com a história dos Titãs.

ENTREVISTA / BRANCO MELLO*

"O disco ´Sacos Plásticos´ tem um pouco de tudo que sempre fomos"

Lembro que nos anos 80, os Titãs retratavam bem as mudanças do cenário musical. Foram iê-iê-iê, depois mais roqueiros, eletrônicos, grunge,... “Sacos Plásticos” tem essa preocupação de dialogar com o tempo presente?

Eu acho que as músicas são sempre um reflexo da gente. Não fazemos assim: ‘pessoal, agora vamos comentar este momento da música’. Também nunca fomos de uma onda. A coisa partia de nós mesmos. No começo dos anos 80, nosso barato era fazer TV, tocar no Brasil inteiro e, ainda assim, ser uma banda de rock. Depois a banda foi mudando porque a vida da gente foi mudando. O “Cabeça dinossauro”, que é um disco meio pesado, foi feito depois da prisão do Arnaldo e do Bellotto (em 1986, eles foram presos por porte de heroína). O disco era uma fotografia daquele momento, assim como esse é do nosso presente. “Sacos plásticos” tem várias novidades. O Paulo (Miklos) tá tocando guitarra, eu tô no baixo, depois de muitos anos eu fiz uma música com ele (a faixa-título), a capa do CD foi pensada pelo Sérgio Britto, que já tinha feito aquela do “Go Back”, estamos trabalhando de novo com programação. Ao mesmo tempo, ele é um retrato da nossa própria história. Tem um pouco de tudo que sempre fomos.

Com a saída do Nando Reis, você herdou a função de baixista. Como tem sido esta experiência?

Aconteceu uma transição. A verdade é que eu já tocava baixo. No começo dos anos 90, toquei baixo num disco de uma banda chamada Kleiderman, que era formada por mim e pelo Sérgio Britto, tocando um som bem pesado. A gente fez só 6 mil cópias do disco e hoje ele é uma raridade. Tô até pensando em relançar, colocar no site, coisa assim. O Paulo também toca há algum tempo. Nesse disco, nos sentimos maduros para assumir os instrumentos. Há uns 5 anos, temos um momento no show que só ficamos nós cinco no palco. No estúdio, estávamos muito afinados. Há uma certa volta as origens, porque no comecinho dos Titãs existia um certo revezamento. Assim como há um rodízio de cantores, havia um com os músicos. E vamos fazer esta brincadeira no novo show. Ninguém quer perder a liberdade de cantar um pouco sozinho, como crooner.

Com 27 anos de estrada, dezenas de canções memoráveis, o que a banda espera de um disco novo?

Acho que essa de “não precisa provar mais nada a ninguém” é uma coisa pros outros. Pra gente, tem sempre o desafio, de tocar o show novo, de colocar esse disco no palco. Antigamente, com o LP e o CD, tinha aquela coisa de aguardar o álbum, com as músicas novas: a gente ainda é especialista nisso. Poderíamos lançar só um single, mas queríamos fazer um álbum, com um conceito. A expectativa é a mesmo e o barato de estar no palco ao vivo é o mesmo. A gente tem mais de 150 músicas no repertório. Podemos fazer cinco shows diferentes. Temos que levar essas músicas em frente e levar gente no show que queira ouvir não apenas os clássicos.

* Músico e vocalista dos Titãs

DELLANO RIOS
Repórter