João Clímaco Bezerra: processos narrativos

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Caracteriza-se por ser um narrador espontâneo, utilizando, frequentemente, a temática regionalista em seus livros

Adota, na maioria das vezes, uma linguagem repetitiva, apelando para o uso de orações miúdas, crivadas de pontos, o que revela um discurso literário fragmentado - as lacunas sendo preenchidas pela atuação de sua memória e por associações estabelecidas entre momentos do passado com o presente da narração, que lhe aponta com rigor para os desvios da trajetória moral de seus protagonistas. Como consequência da fragilidade da dimensão humana, de imediato um sentimento de culpa se instala, sem cessar, no universo diegético de suas obras, através das dores que flagelam as personagens.

Temática recorrente

Se João Clímaco tinha um temperamento extrovertido e alegre (mas se dizia triste) é na ficção que a dor assume o papel de protagonista que escava fundo as entranhas do Ser, passando o homem a viver mais para dentro do que para fora, tornando-se solitário, silencioso e extremamente sensível e vulnerável. A morte passa a constituir uma ideia fixa, com vários desdobramentos temáticos e estilísticos, em sua ficção, o que vamos, então, comentar a seguir.

Duas fontes

Baseamos nossa apreciação especialmente em um romance - A vinha dos esquecidos - e uma novela - Longa é a noite. Obras de enredos diferentes têm, porém, em comum, o motivo condutor da morte e o campo semântico que envolve essa situação, figurado em momentos de dor, de insônia, de tristeza e de medo. O que, então, rumina no interior dessas personagens, impedindo-lhes de viver?

A novela Longa é a noite inaugura, na ficção de João Clímaco, um estilo de diário. Pequenos textos narram um dia ou outro que marcam impressões de um doente em estado terminal, estabelecendo um monólogo interior em 1ª. pessoa, através do fluxo da consciência. Um rapaz bem situado profissionalmente, que estudou muito e tem uma boa situação financeira e, por ironia do destino, recebe o diagnóstico de uma doença incurável. Nunca se casou (situação comum aos outros protagonistas das duas obras citadas),mas guarda a lembrança de uma moça em particular: "Penso em Margarida com obstinação e ternura". (CLÃ nº 11, p. 10).

Planos temporais

Os vários planos temporais são dosados, com equilíbrio e experiência, por parte do escritor. Por isso, sua obra não carece de unidade, comunicando, assim, ao leitor a exata dimensão dos tipos que cria. O clima opressivo decorre da iminência da morte e das idas e vindas da memória em torno de situações lúcidas ou ambíguas do passado que não foram esquecidas pela personagem: (Texto I)

As antíteses solidão versus amigos, claro versus escuro, alegria versus tristeza, sono versus insônia, como variantes de Vida versus Morte, Eros versus Thanatos dão o tom: "Impossível escrever ou ler. Não há luz. A energia elétrica termina às onze horas. E então deixo-me ficar em plena solidão, esperando que o sono venha fechar-me os olhos. Ou talvez a morte, que é o sono mais longo". (CLÃ 11, p. 13).

O que fazer quando falta "luz elétrica", impedindo as únicas atividades que o rapaz poderia fazer nesse estado: ler e escrever? Não existe misericórdia ou concessões para o doente. A situação me traz à lembrança irônicas palavras de Manuel Bandeira diante de um laudo médico, a respeito de uma grave tuberculose que poderia matar o poeta: nada a fazer. Cabe ao poeta responder: talvez fosse melhor dançar um tango argentino. Ironicamente se estabelece o non-sense ou o paradoxo diante de uma situação irreversível. O poeta Carlos Drummond de Andrade, com sua poética da negação, fala de outra situação irreversível, quando o José, tão aniquilado, não tinha ao menos uma parede nua para se encostar. Na culminância da ironia, ele já nem poderia cuspir. É essa extrema dimensão inferior dos excluídos da sorte que João Clímaco Bezerra tenta passar a seu leitor, propondo-lhe uma leitura crítica e humana do universo desse homem invisível. No romance A Vinha dos Esquecidos, as primeiras palavras soam como uma continuação da obra anterior: "Acordou sufocado. Uma sensação esquisita de que duas mãos em garras apertavam-lhe o pescoço, como tenazes. O suor escorria pelo peito e a sede o atormentava" (2005, p. 5).

Tramas paralelas

O autor encadeia, nessa obra, duas narrativas paralelas. À medida que os enredos vão-se desenrolando, as histórias alternam-se, passando de um universo fictício a outro. Uma paróquia, num lugar ermo do interior, comandada pelo Padre Anselmo - eis aí um dos núcleos narrativos. Zacarias, um moleque negro daquela região, que vivia com a mãe e trabalhava numa pequena fábrica cujo dono era o Sr. Leandro, um bom patrão - o outro núcleo narrativo. O padre tinha pesadelos à noite, pelos crimes cometidos na infância: estrangulava gatos, passarinhos, cachorros, pequenos animais. Sentia enorme compulsão a esses atos e prazer em ver de perto a dor, as reações dos gatinhos se debatendo, a morte chegando. Adulto, já padre com seus paroquianos, essas lembranças estavam sempre se interpondo entre ele e o altar, causando-lhe enorme aflição.

Mas o pior era que exultava interiormente quando algum de seus paroquianos agonizava e ele era chamado, com urgência, para a extrema unção. O prazer da infância retornava e renovava-se diante da cena mortífera. Suas conversas com Deus eram sempre questionamentos dessa situação e de ele haver sido escolhido para esse papel. A culpa atravessa a narrativa de ponta a ponta, tirando o sono da personagem e o dos leitores pela intensidade do sofrimento vivido: (Texto II)

FIQUE POR DENTRO

Um breve retrato do ficcionista e de sua intrigante obra literária

João Clímaco Bezerra nasceu em Lavras da Mangabeira, nas vizinhanças do Cariri, descendente de uma família de agricultores e de negociantes. Desde cedo, sentiu fascinação pelo comércio, mas a escolha final pendeu para o bacharelado em Direito, passando a exercer um cargo no funcionalismo público. Tinha um temperamento extrovertido, muito risonho e conversador, embora se proclamasse um homem perdidamente triste. Escrevia pouco e bem devagar, atormentado pela forma - que corrigia obstinadamente - enquanto durasse a fase de criação literária. Pertenceu ao grupo CLÃ - sigla de "Clube de Literatura e Arte Moderna"- considerado como a mais importante agremiação literária do modernismo cearense.

Publicou os romances Não há estrelas no céu (1948) e Sol posto (1952), no Rio de Janeiro, pela Editora José Olympio; a novela "Longa é a noite" (1952), em Fortaleza, na Revista ClÃ; os livros de crônicas O homem e seu cachorro (1959), pelo MEC/ Departamento de Imprensa Nacional e O Semeador de ausências (1967), no Rio de Janeiro, pela Editora Record; o romance A vinha dos esquecidos, em 1980, no Rio de Janeiro, pela Editora José Olympio em parceria com o Instituto Nacional do Livro/MEC.

Trechos

TEXTO I

A insônia apavora-me. O vento sibila nas palmeiras do quintal e tenho a impressão de que os uivos sinistros povoam a noite. Percebo os mínimos ruídos. Um cachorro que ladra ao longe, o pio de uma ave noturna e agoureira... Joana ronca. E sua respiração estertorosa também martela minha cabeça. Rebolo na cama sem poder conciliar o sono. Recordo velhos amigos que deixei ao longe, pedaços da infância inutilmente amada. Nunca me julguei tão só; e dizer que sempre aspirei à solidão! Quem me dera ouvir vozes amigas, pilhérias dos diletos companheiros do café.
(CLÃ nº 11, p. 13).

TEXTO II

E o sonho da noite anterior veio instalar-se-lhe na mente: padre Pierre e os gatinhos. Por que tivera respeito humano de confessar-se ao padre Pierre? Por que não lhe contara o prazer, sim, o prazer, que sentia ao contemplar os moribundos no seu leito de morte? Por quê? Quantas vezes não lhe viera o desejo de apertar o pescoço do pobre homem ou da pobre mulher como fazia com os gatinhos, nos tempos de menino? Por quê? Ele, sim, Anselmo, velho, alquebrado, doente, é que era o pecador maior, quem merecia as chamas do inferno. (2005, p. 113).

VERA MORAES*
COLABORADORA

*Ensaísta e poetisa