Fim da guerra santa

Padre Cícero está a um passo da reabilitação. Até o último de seus dias, Cícero desejou morrer reconciliado com a Igreja que o renegou. O jornalista e escritor Lira Neto, autor de "Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão", fala nesta entrevista do seu livro, um dos lançamentos mais importantes de 2009, e da real possibilidade da reabilitação de Padre Cícero Romão Batista

A partir do subtítulo - "Poder, Fé e Guerra no Sertão" -, você parece deixar claro que não poupa padre Cícero das muitas críticas negativas atiradas contra ele pelos detratores

É evidente que não. Não escrevi o livro para poupar Cícero do que quer que seja. Fiz uma pesquisa rigorosa, procurando contextualizar o biografado em suas circunstâncias históricas. Não coloquei panos mornos, não tergiversei, não furtei ao leitor o direito de conhecer as nuances e as contradições de um personagem tão polêmico como Cícero. Procurei traçar um retrato de corpo inteiro, o mais fiel possível, deste homem profundamente enigmático e controverso. Há passagens da obra que, por certo, oferecem munição pesada para os eternos detratores do padre. Mas também há outras que explicitam o fato de que Cícero foi alvo, à época, de um inquérito eclesiástico que hoje nos parece etnocêntrico e tendencioso. A história, como sempre, é bem mais complicada do que, à primeira vista, aparenta. Mas de que "barbaridades", exatamente, você fala?

Por exemplo, na relação de Cícero com Floro Bartolomeu durante a sedição de Juazeiro, praticamente o padre foi poupado no seu livro.

Não concordo, em absoluto, com tal ponto de vista. Ao contrário. É impossível negar a responsabilidade de Cícero na chamada sedição de Juazeiro, por mais que ele próprio sempre tenha afirmado o contrário. Basta dizer que seria impraticável, para Floro e para os demais chefetes daquele movimento armado, arregimentar tamanho "exército" de sertanejos sem a bênção explícita de Padre Cícero Romão Batista. Os documentos citados no livro, com todas as letras, mostram que o padre se comunicava ativamente com a vanguarda da sedição. Se Floro era o líder material da revolta, Cícero era o mentor espiritual dela. Contudo, os documentos também comprovam que a ação de Floro e de Cícero estava "legitimada" por uma articulação de bastidores com o governo federal, que queria depor um adversário político, o então governante do Ceará, Franco Rabelo. Mais uma vez, qualquer tentativa de interpretação maniqueísta do episódio tende a cair por terra. É um exercício inútil buscar vilões e mocinhos nesta biografia de Cícero.

Você quer dizer que Cícero, junto a Floro Bartolomeu, envolveu o então presidente Hermes da Fonseca e o poderoso senador Pinheiro Machado para derrubar Franco Rabelo e restabelecer a oligarquia acyolina?

A questão estaria mais bem colocada na ordem contrária. O sinal dessa questão está invertido. A deposição de Rabelo foi tramada no Rio de Janeiro, no Morro da Graça, na casa de Pinheiro Machado, então a eminência parda da República, o homem mais poderoso do Brasil à época. Reduzir a sedição a um episódio provinciano é um erro atroz. O Palácio do Catete, então sede do governo federal, aproveitou-se das instabilidades políticas do cenário regional e utilizou-se da influência de Padre Cícero para derrubar o opositor que ocupava a cadeira de governante do Ceará. Uma mão lavou a outra. Floro viajou ao Rio para acertar pessoalmente com Pinheiro Machado os detalhes do movimento, enquanto os dois bebericavam licores em taças de cristal. Num lance rocambolesco, a correspondência entre os conspiradores de Juazeiro e os de Fortaleza foi interceptada pela polícia e trocada por envelopes com papéis em branco. A trama estava descoberta. Floro Bartolomeu não viu outra saída senão antecipar-se à repressão que viria, deflagrando a revolta por conta própria e antes da hora.

Quando formou o exército de jagunços para derrubar Franco Rabelo, Cícero já não deveria saber que seria impossível controlar tamanha tropa de bandoleiros e cangaceiros?

O "exército" arregimentado por Floro era composto por sertanejos das mais variadas procedências. Havia agricultores e beatos entre eles, mas também notórios jagunços e cangaceiros. Gente que não pensou duas vezes antes de pegar no rifle e no bacamarte para defender Juazeiro, que parecia condenada a se tornar uma nova e trágica Canudos, pois tropas estaduais foram enviadas ao sertão com o objetivo de destruir a cidade. São célebres os mandamentos de Cícero aos combatentes: não atirar por trás, não matar quem estivesse fugindo, não saquear as cidades, não violar as mulheres. Mas, numa guerra, no fogo cerrado, a primeira vítima logicamente é a racionalidade. Os conselhos do padre foram ignorados. Valeu a máxima de que não se faz uma revolução sem os incendiários; mas também é impossível governar com eles. De fato, após a vitória dos homens de Floro, o governo federal decretou a intervenção e não permitiu que Juazeiro nomeasse nenhum membro efetivo do governo na nova ordem estabelecida.

Mas por que, afinal, Cícero colocou tanto poder nas mãos de um homem irascível e difícil como Floro?

Já houve quem classificasse Floro como uma espécie de alter-ego de Cícero. Não faltou até quem quisesse adivinhar uma relação platônica inconfessada entre aqueles homens aparentemente tão desiguais. Prefiro dizer que, naquele momento, um tornou-se útil ao outro. Em pouco tempo, eram indispensáveis entre si. O livro mostra as raízes da relação. Exponho de forma minuciosa as motivações de ambos. Floro, médico, rábula e garimpeiro, era um aventureiro em busca de fortuna e de poder. Por seu turno, Cícero, já proscrito pela Igreja, reconheceu na astúcia de Floro Bartolomeu a oportunidade de se reinventar no território escorregadio da política cearense.

JOSÉ ANDERSON SANDES
EDITOR DO CADERNO 3