Especulações em torno de uma escritura

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O topos da infância, do romantismo ao modernismo, tem sido caro aos poetas em geral; mas se, por exemplo, em Manuel Bandeira, rastrear tal território implica, sobretudo, um ato epifânico, com delimitação de seres, de tempo e de espaço, porque pura iluminação, em Ivan Junqueira o mundo infantil se evola, de modo bem original, por meio de um contraste entre concretos elementos do presente da maturidade e um possível outro quadro, só apreendido por elipses mentais, consoante os versos de "Elegia fulminante": (Texto IV)

Leitura do poema

Estabelece-se aí uma oposição entre os "olhos fatigados" do homem maduro e a "criança" que ele fora. A imagem da "catedral" como um "espasmo de pedra" é símbolo de um mundo despido dos presumidamente verdes campos da infância.

Mais uma vez, o espaço da metrópole surge como a expressão do abjeto e do deprimente. A "catedral" - imagem fundadora da urbe - é representada tão-somente por sua "torre", estando, pois, sem os índices de poder, tais como: a imponência da arquitetura, o reluzir dos vitrais, as madeiras de lei, o mármore dos caminhos até a ara.

O eu lírico a contempla, daí a sensação impressionista de que ela, a catedral, "se arremessa" - mas não sobre ele, pois o que "despedaça" é "o tédio secular do infinito". Assim, o cenário metropolitano é envolto por um spleen, não circunscrito apenas na própria esfera do eu, encetando corrosão e desencanto, componentes de uma atmosfera cerzida por estados de emoção sombrios, que, inexoravelmente, desembocam em desconsolada solidão; tudo, em verdade, derrama-se numa melancolia cósmica: "o tédio secular do infinito". O ritmo, alicerçado em aliterações, pelas aproximações sonoras, acaba nos chamando a atenção para uma sequência - ainda que acidental - de rimas toantes, principalmente em /a/ e /e/, produzindo, o efeito dos destroços.

A segunda estrofe advém como uma pausa à destruição inicial, pois esta assoma, agora, substituída por uma sensação de súbita paz, fruto da música que se desprende da natureza, em dois elementos de intensa carga simbólica: o vento e o mar. O ritmo caudaloso imprime uma sensação de infinitude, impressa, sobretudo, pela aliteração. A metáfora "crinas de espuma" desperta, no leitor, seres primordiais.

O devaneio

Leiam-se, agora, os versos do poema "Sonho", em que Ivan Junqueira lança o leitor em direção a caminhos incontáveis, repletos de indagações perplexas; do ponto de vista formal, o autor optou pelo emprego do verso livre e da rima branca: (Texto V)

Nesse poema, o primeiro verso, constituído por um único vocábulo, "Sonho", não só reitera o título como, também, diz de sua postura individualista. Assim isolado, o termo sugere um estado permanente e inalterado, pois está empregado em termos absolutos; o que, naturalmente, leva o leitor a interessar-se pela natureza desse sonhar: sonhar o quê?; sonhar com quê? Os três últimos versos da primeira estrofe, no entanto, ao especificar esse "Sonho", em vez de singularizá-lo aos olhos do leitor, impõe a este mais um enigma: trata-se, sim, de "um sonho antigo onde se movem / imagens de outro sonho que o desdobra / num córrego de vozes e horas mortas". Tal atmosfera reconstrói, através do recurso da intertextualidade, uma outra, antes vivenciada por Drummond em "Sonho de um sonho", cuja primeira estrofe assim se anuncia :Sonhei que estava sonhando / e que no meu sonho havia / um outro sonho esculpido. Os três sonhos superpostos / dir-se-iam apenas elos / de uma infindável cadeia / de mitos organizados / em derredor de um pobre eu." Da mesma forma, entrelaçados, estão lá, no texto de Ivan Junqueira, também, três sonhos, que, embora não definidos de todo, implicam "um córrego de vozes e horas mortas", demarcando um território de onde emanam perdas e tormentos.

O segundo movimento

Já na segunda estrofe, desfazem-se as especulações, a partir da confissão incisiva: "Sonho e cobro ao tempo a sua história". Assim, o eu lírico se despe ante o leitor e, por meio de uma metáfora, verdadeira "lavra de ouro", reconhece-se um "pássaro de cinza", isto é, a síntese da decomposição absoluta; e "as rotas apagadas do mapa da infância" aponta a impossibilidade de qualquer vôo, daí a "carne" entregue a uma inexaurível agonia.

A palavra poética outra coisa não diz a não ser aquilo "que não pode ser dito senão por essa mesma palavra. O que ela é só existe depois da vida nela inclusa" Por isso mesmo, aquele "pássaro de cinza", da primeira estrofe, será a imagem-condutora do discurso, seja sob a forma de um vocativo. Sendo assim, o primeiro verso da quarta estrofe "Sonho e me abandono à tua música"o tem, como referente, basta que o leitor o considere implícito. Portanto, ao "pássaro de cinza" corresponde o pronome adjetivo "tua", modificador de "música" e de "harmonia". Se, abruptamente, "um golpe / de vento" o "dissolve", é porque o tempo aí surge em sua função remediadora.

Considerações finais

Dissolvido o "pássaro de cinza", converte-se, agora, em "lembrança"; e, estando "na concha de uma onda" - uma forma efêmera, abstrata - confirma a devastação como um fenômeno interior, da ordem da subjetividade. Por fim, o eu lírico, no presente, liberta-se, para sempre, das "rotas" desbotadas no "mapa da infância"; e a "solidão", antes espaço de dor e de desolação, transmuda-se em território da criação, abrigo do mítico. Com isso, o poeta entrega-se, plenamente, à poesia, independentemente das consequências imprevisíveis que esta exerce sobre o destino humano, sobre o que é perene na efemeridade do ser. (C. A. V.)

Trechos

TEXTO IV

Ante meus olhos fatigados, a torre / da catedral se arremessa / espasmo de pedra / e despedaça / o tédio secular do infinito /// Ao longe o vento inventa polifonias / e o mar agita suas crinas de espuma /// Súbito em chamas / explode o espaço /// Além do templo um anjo contempla / os destroços da criança que eu fui (p.36)

TEXTO V

Sonho. / Sonho um sonho antigo onde se movem / imagens de outro sonho que o desdobra / num córrego de vozes e horas mortas. /// Sonho e cobro ao tempo a sua história: / pássaro de cinza, tua carne agoniza / nos braços escorregadios da noite, / enquanto lentamente teus passos percorrem / as rotas apagadas do mapa da infância. /// (Retine a espora acesa de um menino / sob o flanco adormecido das colinas.) /// Sonho e me abandono à tua música, / à tua harmonia úmida. Mas um golpe / de vento logo te dissolve. / Rápido, semeio tua lembranças na concha de uma onda, / onde a contemplo sob as águas em colóquio / e onde, liberto de fórmulas e palavras, / fecundo a solidão com o pólen de meu júbilo. (p.33)

SAIBA MAIS

JUNQUEIRA, I. Ivan Junqueira: melhores poemas. São Paulo: Global, 2003. Seleção de Ricardo Thomé

LOURENÇO, E. Tempo e poesia. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1987

OLSEN, S. A estrutura do entendimento literário. Rio de Janerio: Zahar Editores, 1979