Epopeia marciana

Livro de estreia de Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan, "Uma princesa de marte" é um marco da ficção científica e da literatura pulp. Obra acaba de ganhar sua primeira tradução no Brasil

Edgar Rice Burroughs (1875 - 1950) precisa de um revival. O escritor norte-americano criou um dos mais famosos heróis da cultura pop, o homem-macaco Tarzan, que teve longa vida na literatura (com mais de 30 livros escritos pelo autor), nas histórias em quadrinhos e no cinema. Não é segredo que a criatura superou o criador e que Burroughs nem sempre teve seu mérito reconhecido. Uma pena, pois, mais que o criador sortudo de um personagem popular, ele foi um escritor habilidoso, de imaginação fértil e com domínio das técnicas da ficção e da sedução de leitores. Mostra disso é sua segunda criação mais famosa, o personagem John Carter. "Uma princesa de Marte", deste, é uma oportunidade ainda rara de descobrir o material original de Edgar Rice Burroughs.

Lançado aqui pela editora Aleph (que tem prestado bons serviços à ficção científica e gêneros vizinhos), o título é hoje o único livro do autor em catálogo no Brasil. Romance de estreia de Burroughs, foi publicado em 1912 e nunca havia sido lançado no País - ainda que nerds dos últimos 100 anos tenham ouvido falar sobre a obra e o personagem, que teve algumas aventuras em quadrinhos publicadas em revistas de Tarzan, nos anos 70, pela extinta editora Ebal. Com tradução do jornalista, roteirista e um dos criadores da Mojo Books, Ricardo Giassetti, o livro traz a aventura inaugural de John Carter. Ex-veterano da Guerra Civil Americana (pelo lado sulista, derrotado no embate), o personagem se aventura em busca de ouro no Oeste selvagem, mas é surpreendido por índios. Perseguido, se esconde numa misteriosa caverna, que o faz desfalecer e, aparentemente, morrer. A "morte" lhe garante o transporte para Marte, planeta vermelho conhecido por seus habitantes como Barsoon. Lá, a gravidade diferente lhe confere poderes extraordinários, como maior força e agilidade. Capturado por uma raça guerreira de seis membros, os Tharks, John Carter torna-se aliado das criaturas. Pelo menos até se apaixonar pela princesa humanóide Dejah Thoris, prisioneira dos Tharks.

Contradições explícitas

Edgar Rice Burroughs é autor de um tipo de fantasia incomum, ainda que possa ser visto como um escritor bastante reacionário. Seu herói, um soldado do século XIX, tem as características dos guerreiros nobres da Idade Média, movidos pelo amor, pela honra e devoção aos aliados. Há até a princesa indefesa, à espera de seu príncipe salvador.

A superfície de conto de fadas vê sua paz ameaçada pelas entrelinhas. John Carter tem ganância suficiente para participar da corrida do ouro. Não é escondido que, colocando-se como um ser superior, nobre até, é um tanto desleixado para com aqueles que estão abaixo dele, como no ataque aos índios que o perseguiram. Truculento, o herói de Burroughs se atualiza, talvez involuntariamente, transformando-se em alguns momentos em anti-herói. E anti-heroísmo ainda cai como uma luva aos justiceiros da cultura pop dos EUA. Vestígios de um fascismo recente que a euforia por Barack Obama ainda não conseguiu eliminar.

Romance
Uma Princesa de Marte
Edgar Rice Burroughs

ALEPH
2010
272 PÁGINAS
R$ 39,90

TRADUÇÃO: Carlos Angelo


DELLANO RIOS
REPÓRTER