Elementos-chave da expressão literária de Milton Dias

A crônica, gênero, essencialmente, híbrido, habita a fronteira que se estende entre o conto e a poesia

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A escritura de Milton Dias envolve a produção de ensaios, de contos, mas a sua consagração enquanto criador se deu no gênero crônica. Implicando sempre a visão pessoal, subjetiva, ante um fato qualquer do cotidiano, a crônica estimula a veia poética do prosador; ou dá margem a que este revele seus dotes de contador de histórias. No primeiro caso, pode resultar num autêntico poema em prosa; no segundo, num conto. Inscreve-se na fronteira entre a literatura e o jornalismo, mas supera - quando literária - a efemeridade deste.

Os historiadores da literatura, bem como os ensaístas da prosa, são unânimes em afirmar que a "Carta de Pero Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel é o marco inicial da crônica em nossa terra, pois, pela vez primeira, a paisagem brasileira desperta o olhar de um cronista, pois ele recria, com sensibilidade e arte tudo o que deparou no primeiro contato dos portugueses com os nativos, dando relevo até a coisas insignificantes.

A natureza do gênero

A maior singularidade da crônica reside em sua natural simplicidade - e disto advém a grandeza do escritor por deixar em relevo suas artimanhas artísticas. Escrita, antes de tudo, para a publicação em jornal, herda a efemeridade deste, que, sua vez, é vencida pela literariedade, migrando para a forma de livro. É aí que leitor depara o olhar agudo com que o cronista capta instantes banais, espelhando, por tal caminho, complexidades, como em "Os golinhas": (Trecho I)

Os dois parágrafos iniciais

A expressão inicial "Não sei se vocês já viram um golinha..." (1º§) aponta bem a natureza do gênero crônica: o texto mais se aproxima de uma conversa do que de um texto escrito de modo burilado, daí a sua aproximação da oralidade; mas o coloquialismo não é a pura frase ouvida na conversa popular, mas uma recriação, uma elaboração de um diálogo entre o cronista e o leitor - e o dialogismo é meio por que se inscreve o equilíbrio entre o coloquial e o literário, "permitindo que o lado espontâneo e sensível permaneça como elemento provocador de outras visões do tema e subtemas que estão sendo tratados numa determinada crônica". Na descrição do pássaro, para atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos, o cronista recorre ao caráter polissêmico das palavras, à inusitadas alianças: "pássaro criança"; "miniatura de bico de papagaio". A construção literária de Milton Dias se deixa tocar, constantemente, pelo poético, pelo despojamento; as palavras fluem com extrema naturalidade, consoante aponta o segundo parágrafo da crônica "Os golinhas": (Trecho II)

No 2º§, o termo inaugural "Sei," retoma o diálogo fictício com o leitor; depois, a passagem "porque um tempo destes aportou um aqui em casa..." apresenta um dos mais sagrados espaços de um cronista: "a casa".

A casa é o abrigo da linhagem: a casa de hoje sempre estabelece uma ponte com a casa de ontem, é, pois, o canteiro da memória, aí se projeta o espaço interior do homem: reconhece um "golinha", na casa de hoje, porque, antes, já o vira, na casa de ontem, na paisagem do sertão da infância.

Ressalte-se, ainda, a valorização do que, sendo extremamente banal, tem a força de emocionar; não se trata da simples descrição, como uma fotografia, da entrada de um golinha numa gaiola, mas a recriação artística desse instante: "ele mesmo se ofereceu para ficar"; "entrou na gaiola... Feito menino vadio que fura pano de circo"; "não criou problema com a anfitriã".

Trechos

TRECHO I

Não sei se vocês já viram um golinha - mas é a coisa mais bonita, mais frágil e mais inquieta deste mundo, um pássaro criança, pequeno, alegre, de bons costumes, caseiro, comunicativo, cantador. Pode viver o tempo que viver, não passa daquele tamanho de beija-flor. A plumagem é cinza, o papo branco, com uma gola preta e o bico amarelo é ver miniatura de bico de papagaio.

TRECHO II

Sei, porque um tempo destes aportou um aqui em casa, veio por conta própria, sozinho, espontaneamente e ele mesmo se ofereceu para ficar, entrou na gaiola de uma das graúnas, que era a que tinha as grades mais abertas, passou entre os arames sem nenhuma dificuldade, feito menino vadio que fura pano de circo. Sem dúvida estava acostumado à vida doméstica e sendo, como ficou entendido, de fácil convivência, não criou problema com a anfitriã...

Fique por dentro

Notas acerca do autor e de sua escritura

Milton Dias nasceu na cidade de Ipu - CE, em 1919, e faleceu em Fortaleza em 1983. Após iniciar os estudos na cidade de sua infância, Massapê, vem para o Colégio Castelo Branco em regime de internato. A experiência da infância em meio à paisagem sertaneja, seus mitos e ritos, lendas e cantorias, foi fundamental para a formação de sua sensibilidade criadora, uma vez que despertaria, no futuro cronista, a inclinação para o poético, para o lirismo. No Colégio Cearense, onde realizou os estudos secundários, descobriu, em definitivo, a vocação da escritura. Fundou os jornais "O Ideal"; e "Alvorada". Graduou-se em Letras Neolatinas na Faculdade de Filosofia; em Paris, cursou os Estudos Superiores Modernos de Língua Francesa e Literatura Francesa. O Governo francês o condecorou com a Ordem das Palmas Acadêmicas. Foi professor de Língua e Literatura Francesa no Curso de Letras da UFC. Ocupou, na Academia Cearense de Letras, a Cadeira nº 4. Integrou o Grupo Clã.

Carlos Augusto Viana
Editor