Elementos-chave da construção do poético

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O formalista russo Roman Jakobson definiu, com propriedade, a natureza do objeto da teoria da literatura, ao afirmar, de forma judiciosa, que não se debruça sobre o conjunto das obras consideradas literárias, por serem integrantes de uma produção escrita ou mesmo de certas expressões orais, cuja essência reside numa elaboração especial de linguagem; mas, sim, por trazerem em si propriedades específicas: a literariedade; implicando esta, sobretudo, a expressão da linguagem enquanto desvio, quando fatos lexicais e sintáticos estabelecem entre si vasos comunicantes, de que resultam estranhas alianças, decorrendo disso um efeito de diferença e de novidade.

Da poesia

De natureza essencialmente verbal, o discurso literário é, naturalmente, tocado, mais intensamente, pelo fenômeno da polissemia - fator de enriquecimento semântico. Sendo assim, a escritura poética alicerça-se, por excelência, no uso reiterado da linguagem figurada, em seus dois grandes pilares: a metáfora, associação; e a metonímia, substituição: (texto III)

Regine Limaverde - e esta é uma das singularidades de sua escritura - explora, amiúde, as possibilidades da metáfora, inclusive em suas principais extensões: o símile (a comparação explícita, a partir da presença de uma conjunção) e a sinestesia (a fusão dos sentidos ou a aplicação de um sentido sensorial a um termo abstrato). Na composição "Pomar", a metáfora assoma, então, em toda a sua expressividade: (Texto IV)

Do poema

No primeiro verso, "Mastigo tuas palavras.", a metáfora se inscreve na forma verbal que, como marca do lirismo, expressa-se na primeira pessoa do presente do indicativo: "Mastigo"; decorre, daí, um desvio, pois, a uma ação concreta, - o ato de mastigar - associa-se uma abstração: "palavras". Ainda que o acento tônico recaia sobre a 2ª, a 4ª e a 6ª sílabas, numa simulação do próprio ato de uma trituração, esta, porém, somente se realiza na atmosfera pastosa da subjetividade do eu lírico, aludindo àquela aspiração do poema de abertura, "Premonição": "eu o desejo assim: poesia dentro de mim" (p.27).

A passagem "São frutos doces / ao meu paladar" (v.2 e 3) aponta uma metáfora sedimentada na comparação implícita: "palavras" - "frutos doces"; assim, ocorre uma metamorfose de sentido em cada um dos termos, para que, então, decorra um sentido novo, advindo da totalidade do enunciado. A seguir, em "Ao falares, / de tua boca poderiam escapar:" (v. 4 e 5), a metonímia incrustada no vocábulo "boca" (v.5) abre caminho para mais um desvio de linguagem, com ares de suspense, construído este, de modo mais específico, pelo sinal de pontuação, colado à metáfora "escapar" (v.5).

Sucedem-se, então, as frutas, postas num cesto metafórico: "romãs, morangos, ciriguelas, / tangerinas e uvas"; (v. 6 e 7) incitam o leitor leques de especulações; enumeradas, as frutas fundem, simbolicamente, o sagrado e o profano: a primeira e a última - "romãs" e "uvas" estão entre as sete citadas no Antigo Testamento, representando, respectivamente, as ideias de "fertilidade" e de "pacto e aliança"; em meio a elas "morango, ciriguelas, / tangerinas" (v. 6 e 7), cujas sugestões fundem, de maneira mais intensa, as diversas zonas dos sentidos, numa presença mais próxima de sensações à flor da pele. Encerra-se a composição com um verso em estrofe única: "Boa noite, meu pomar!" (v.8) Neste caso, o isolamento desta passagem se justifica pelo fato de que, com ele, surge um novo movimento, mais uma vez configurado pela metáfora: "Pomar", erigindo, com tal expediente, a subjetividade de sua compleição. Desta vez, na mesma direção, mas em sentido contrário, é Sulamita, e não Salomão, quem desce ao "jardim das nogueiras": (texto V)

Considerações finais

O livro "Canção do amor inesperado", de Regine Limaverde, divide-se em quatro partes: "Promessa"; "Dúvida"; "Certeza"; e "Via sacra do amor"; desse modo, cada movimento desenha, gradativamente, a postura do eu lírico diante da oferta amorosa; o último impõe-se como uma narrativa lírica, em quatorze poemas - "Passos" -, frequentemente próximos do epigrama, por conta da brevidade, da delicadeza, do engenho com que são conformados; nessas composição, de modo mais reiterado, a metáfora se abre à sinestesia ou às impressões sensoriais, conforme a leitura do poema "V Passo": (Texto VI)

Observa-se que o advérbio "Depois" (v.1) diz de uma ação anterior; entanto, lido isoladamente, sem a isso remeter, delineia um tempo e espaço que podem, muito bem, ser reconstruídos, por elipses mentais, na imaginação do leitor; mais ainda, com o auxílio dos jogos metafóricos sensoriais que brotam da "umidade de suas grotas" (v.2) e do "húmus de suas terras". (v.3) Ressalte-se, também, como nota desse poema, o ritmo caudaloso, prolongado de seus versos, numa sugestiva melodia em "u" - uma chuva simbólica que fertiliza o campo das volições.

Trechos

TEXTO III
Importa ressaltar que a metáfora, por ser empregada de modo direto e imediato, parece exclusiva da poesia. Com efeito, a concisão ambígua, ou paradoxal, ou irônica, assinalada pelos novos críticos norte-americanos como peculiar ao tecido poético, resulta justamente do uso maciço e sistemático da metáfora. Apesar de haver poemas menos metafóricos que outros, a tendência é para privilegiar a metáfora como a expressão mais adequada à poesia.
(MOISÉS, 1999, p.333)

TEXTO IV
Mastigo tuas palavras. / São frutos doces / ao meu paladar. / Ao falares, / de tua boca poderiam escapar: / romãs, morangos, ciriguelas, / tangerinas e uvas. /
Boa noite, meu pomar! (p. 69)

TEXTO V
Eu desci ao jardim das nogueiras / para ver a nova vegetação dos vales, / e para ver se a minha crescia / E se as romãzeiras estavam em flor. (Ct 6,II)

TEXTO VI
Depois, / provou da umidade
De suas grotas e / pisou no húmus
De suas terras. (p.83)

SAIBA MAIS:
LIMAVERDE, Regine. Canção do amor inesperado. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2014
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo:
Cultrix, 1999
POUD, Ezra. O que é literatura. In: Ensaios críticos de literatura. BEAVER, Harold. (Org.).
São Paulo: Lidador, 1959

(C. A. V.)