É pão? É bolo? Não, é waffle!

Eles foram criados na Bélgica, conquistaram a Europa e foram adotados pelos norte-americanos. De lá para cá, espalharam-se pelo mundo. Afinal, simples e deliciosos, os waffles são impossíveis de recusar

Escreve-se waffle, pronuncia-se “uófol”. Abra bem a boca e entregue-se: “uóóóófol”. Vale cada letra. Assim como os milkshakes, smoothies e sorbets da semana passada, os waffles fazem parte de uma pequena, mas deliciosa família gastronômica, que inclui ainda panquecas e crepes.

Na verdade, as três massas são compostas basicamente de farinha, açúcar, fermento, sal, leite e óleo (manteiga, por favor) - ovos são opcionais. A diferença está na quantidade de ingredientes, no modo de preparo e em segredinhos de cada cozinheiro. Das diferentes combinações de regras surgem massa finas ou mais grossas, crocantes ou mais fofas.

No caso, para se chamar “waffle”, a massa precisa ser assada em uma chapa específica, cheia de “dentes” (e não lisa). O resultado é um pãozinho com jeito de biscoito, com aquela superfície “esburacada”, ideal para receber as coberturas mais indecentes. Seja no café da manhã, no lanchinho da tarde ou na sobremesa, difícil negar.

De origem belga, o waffle não tardou a se popularizar por toda a Europa. Com a mesma rapidez, tornou-se símbolo de café da manhã nos EUA - especialistas em gordas e deliciosas refeições matinais. Por isso uma das versões mais conhecidas do quitute chama-se “American Waffle”. Inventado em Nova Iorque, foi primeiramente batizado de “Belgian Waffle”, muito embora não seja comum entre os belgas. Com o tempo, a massa ganhou receitas diferentes e conquistou paladares no mundo inteiro.

Hoje existem versões doces e salgadas, consumidas puras ou com inúmeros acompanhamentos. Os salgados vão bem com ovos e frios (por cima ou como recheio, tal qual um sanduíche). A massa pode ser feita com queijos amarelos, queijo ricota e até batata. Já a massa dos waffles doces é tradicionalmente mais neutra, por isso vai bem tanto com acompanhamentos doces (calda de chocolate, calda de frutas e frutas frescas, geléias, mel, sorvete...aiai) quanto salgados, especialmente manteiga ou requeijão cremoso.

Esse tipo mais neutro é preferido no Brasil (onde também se pronuncia “uêifel”). Com a popularização dos aparelhos domésticos específicos para seu preparo, os waffles invadiram milhares de casas brasileiras. Embora relativamente simples de preparar, a massa exige cuidados que, se ignorados, podem render desastres na cozinha.

A começar pela máquina: procure marcas de boa qualidade, com fendas nas bordas da grelha para evitar vasamento da massa. Revestimento anti-aderente é importante e previne que o waffle grude no aparelho (chateação que faz as pessoas desistirem de waffles em casa). De qualquer forma, untar a grelha com um pouquinho de manteiga ou óleo é fundamental - e nem pense em eliminar a gordura da receita, porque aí o grude vai ser inevitável. Por fim, sempre, sempre, sempre aqueça a grelha e deixe-a bem quente antes de despejar a massa - fundamental para que o waffle saia com facilidade e asse de maneira correta. Tire-o da máquina com um pegador de silicone (ou um garfo, mas sem encostar na grelha para não arranhar), levantando aos poucos as bordas (veja mais dicas aí do lado).

Dicas

Fora de casa o waffle também ganhou seu lugar. Em alguns estados brasileiros já existem casas especializadas no quitute. No exterior a massa é popular especialmente em feiras livres e barraquinhas de rua. Na Bélgica, uma versão bastante popular chama-se Liège (nome de uma cidade do país). De cor amarelo-ouro, tem textura mais densa e é consumido com açúcar queimado. É vendido por ambulantes e devorado por crianças e adultos.

Algumas massas de waffle podem ser preparadas à noite e assadas na manhã seguinte (de preferência para aquele café da manhã preguiçoso de domingo). Outras requerem apenas uma hora de descanso. De qualquer forma, o fermento precisa de tempo para agir.

Tendo em vista que muitas receitas são traduzidas ou adaptadas de língua inglesa, valem algumas observações. Designer por formação e mestre-cuca autodidata, Ana Elisa Granziera, autora do excelente blog “La Cucinetta”, dá a dica: se as instruções pedem “dry yeast”, entenda “fermento biológico seco”, que é diferente de “baking powder” (fermento químico, mais comum por aqui). Ocorre que o fermento biológico mais fácil de encontrar no Brasil é, na verdade, instantâneo (“instant dry yeast”), que deve ser utilizado na proporção de 35% da quantidade de fermento biológico fresco (ou seco) pedido na receita. Caso contrário, seu waffle ficará com um gosto meio azedo.

Outra dica preciosa é substituir o leite da receita por um ingrediente chamado “buttermilk” (um resíduo da fabricação da manteiga, chamado no Brasil de “leitelho”). Embora não tenha versão industrial no país, pode ser feito em casa. A dica é novamente de Granziera: misture uma colher (de sopa) de suco de limão ou de vinagre a uma xícara de leite desnatado e deixe descansar em temperatura ambiente por cerca de 10 minutos, até que talhe. O “buttermilk” caseiro é líquido e levemente ácido (diferente do industrializado importado, que é espesso e azedo).

Por fim, não esqueça: se a receita pedir baunilha, o ideal é usar a natural (corte a fava no sentido do comprimento, raspe as sementes e adicione-as no leite). Mas esse é um ingrediente caro e difícil de encontrar, então vale usar extrato de baunilha. Na falta dos dois, apele para a essência. Ela fica bem atrás do extrato em termos de sabor, então pelo menos procure uma de boa qualidade, com menor quantidade de aditivos possível.

Tudo pronto, sirva seus waffles com orgulho, esqueça a dieta por um dia e entregue-se a gula sem culpa - vale a pena. Se no final, porém, nada der certo, esfrie a cabeça e asse um pãozinho na sua máquina de waffles. Ela funciona como boa torradeira de pães!

FIQUE POR DENTRO

A famosa árvore de seiva doce

Sabe quando você vê em filmes americanos as pessoas derramarem uma calda semelhante ao mel sobre uma pilha de panquecas? Pois é o tal do Maple Syrup, um xarope doce bastante popular entre os gringos (´xarope de bordo´, em português). Maple é o nome da árvore bastante comum na América do Norte (a folhinha dela é aquela que estampa a bandeira do Canadá). Existem diferentes tipos de Maple, a variedade da qual se extrai a seiva para fazer o xarope é a Sugar Maple.


ADRIANA MARTINS
Repórter 

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