Duo de mestres

Mestres em seus instrumentos, os cearenses Adelson Viana e Nonato Luiz preparam um disco unindo a sanfona ao violão clássico. O Caderno 3 conferiu em estúdio uma prévia do novo trabalho

Fim de tarde, na estreita rua de calçamento, das poucas que escapam ao calor do asfalto na Aldeota. Entre os bares, restaurantes e pequenos estabelecimentos na Norvinda Pires, a atmosfera oferece um quase-disfarce, em meio à correria da cidade. Bastaria dar poucos passos para chegar ao movimento das aceleradas ruas vizinhas. Ou esperar um pouco mais, até que os fregueses habituais chegassem com a sede da boca da noite para molhar a palavra.

Perto da esquina, a edificação baixa, de fachada em estilizados tijolos aparentes e detalhes em blocos de vidro, em nada deixa pressupor a rotina em alto e bom som do interior. Nenhuma placa ou letreiro, mas quem é do meio costuma saber o caminho. Passando-se pela porta gradeada, chega-se ao Vila Estúdio, um dos principais pontos da produção musical cearense da atualidade, de onde já saíram discos de artistas como Kátia Freitas, Marimbanda, Idilva Germano, Fausto Nilo. Na ante-sala dos estúdios de gravação, encontramos Alberto Jackson, cantor que se dedica a reverenciar nos palcos a memória de Jackson do Pandeiro. E a contar causos e piadas sem a menor inibição, para risos de Adriana, administradora do local.

Água, cafezinho e o olhar a correr pelas fotos dispostas na parede. Artistas que já gravaram no estúdio, ou que dividiram o palco com seu idealizador, farto em andanças Brasil adentro, mundo afora. Chico Buarque, Fagner, Zeca Baleiro, Hermeto Pascoal, Toninho Horta, João Lyra... Cenas de uma vida dedicada à música, que costuma render novas imagens ao mural, entre as muitas viagens do anfitrião.

Ele se chama Adelson Viana. Aos 37 anos, natural de Fortaleza, uma inteligente unanimidade no cenário da música cearense, com seu virtuosismo ao piano e ao acordeom, sua habilidade nos arranjos, sua fala serena e seu espírito gregário a superar uma certa timidez, em nome da multiplicação de colegas, parceiros, amigos. Como Nonato Luiz, 55, cearense de Mangabeira, violonista internacionalmente reconhecido, cuja discografia soma 27 títulos -em sua maioria, trabalhos autorais, com peças que provam o imenso equívoco em que incorrem os que reclamam mais novidades na música brasileira.

´Nem sei direito quantas músicas tenho, mas fica entre 600 e 700. Procuro registrar sempre, porque um bom instrumentista pode ser formado, com a técnica, com o estudo. Mas a obra é o que fica´, vaticina Nonato, de sorriso fácil e conhecido pelo hábito de chamar os mais próximos pelo diminutivo do nome. A informalidade dá o tom da conversa, enquanto Adelson carrega no computador os arquivos do disco que constitui a inédita parceria da dupla. Um álbum praticamente terminado quanto aos trabalhos em estúdio e de resultado compartilhado, em primeira mão, pelos mestres com o Caderno 3.

Talento em dobro

Atualmente partindo para a fase de mixagem, o disco deverá se chamar ´Dobrado´ e concretiza uma parceria de há muito aguardada. ´Tocamos juntos em discos de vários artistas e em shows. Agora, resolvemos fazer este disco, com o nosso trabalho autoral´, conta Adelson, relatando que o pontapé inicial dos trabalhos se deu com a entrega de seu disco, ´Acordeom brasileiro´, a Nonato Luiz. ´Quando fui ver, ele já veio me dizer que tinha passado várias músicas pra violão, já veio com os arranjos. Eu nem acreditava! São arranjos maravilhosos´, complementa o acordeonista, cujo disco próprio será relançado em breve pela Biscoito Fino. A satisfação com o encontro se estende ao parceiro: ´Esse disco, de violão e sanfona, eu periguei fazer várias vezes. Periguei fazer com o Oswaldinho, toquei com o Waldonys no disco ´Filhos do Solo´, com o Dominguinhos no meu disco ´Baião Erudito´. Mas tinha que ser agora, e com o Adelson´, ressalta Nonato.

Assim, o repertório foi sendo escolhido de forma descontraída, a partir do mote inicial de arranjar para sanfona as peças de violão, e vice-versa. O resultado é um passeio por clássicos de Nonato Luiz, como o ´Baião cigano´ e o ´Choro acadêmico´, que ganham novas cores na junção, ora em uníssono, ora em improviso, de violão e sanfona - alternando-se em camas harmônicas e em caminhos melódicos um para o outro. Um duo de mestres, de encher os ouvidos à primeira audição.

"DOBRADO"

FAIXA A FAIXA

Baião cigano


Na nova gravação deste clássico da música cearense, Nonato Luiz deixa a melodia para o acordeom de Adelson e lança seu violão em outros caminhos. Sintetiza bem a proposta do disco, no diálogo entre os instrumentos.

Choro acadêmico

Outra jóia do repertório de Nonato, que aqui cria novos solos e dobra violão e sanfona. ´O final é pro Teatro Municipal´, brinca o violonista. ´Ele gosta de terminar em grande estilo´, confirma Adelson.

Da cidade ao sertão

Delicioso xote de Adelson, de melodia contagiante à primeira audição e harmonia explorada para improvisos de Nonato.

Oração

Parceria dos dois, feita especialmente para o disco. A sanfona se derrama em várias vozes, enquanto o violão apresenta o tema.

Sonata ao luar

Uma das peças mais conhecidas de Beethoven é o momento solo do violão de Nonato no disco.

Quinta Sinfonia

O primeiro movimento da sinfonia, de difícil execução, é o solo de Adelson.

Dobrado

Composta em 1930 por José Viana, tio-avô de Adelson. ´Ela tem aquele saudosismo dos dobrados, das bandas de música´, diz o acordeonista.

Disfarçado

´Tem esse nome porque começa simples, mas depois se encrenca´, diz Adelson.

Mucuripe

Com piano e acordeom, o clássico de Fagner e Belchior reforça seus ecos sinfônicos.

Frevereiro 3

Composta por Nonato para esse projeto, aponta um lado diferenciado do compositor.

DALWTON MOURA
Repórter