Dono das canções

Autor de sucessos da música popular nacional, o compositor Michael Sullivan passa hoje por Fortaleza

Michael Sullivan: de cantor na noite recifense a dono de um verdadeiro legado da música popular nacional

O que as músicas "Me dê motivo", cantada pelo imortal Tim Maia, "Whisky a go-go", popularizada pela banda Roupa Nova, e "Lua de cristal", sucesso na voz da apresentadora Xuxa em 1990, têm em comum? Todas foram compostas pela dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas. A abrangência de estilos dá pistas sobre a relevância da parceria, responsável por alguns dos maiores sucessos da música popular brasileira.

O trabalho com Massadas, porém, representa apenas uma das fases da carreira de mais de 40 anos do cantor, compositor e produtor Michael Sullivan. Ao todo, são cerca de 1.300 músicas gravadas por artistas diversos, como Gal Costa, Simone, Fagner, Roberto Carlos, Alcione, Sandra de Sá, Fafá de Belém, Rosana, Paulo Ricardo, José Augusto, entre outros.

Sullivan também destacou-se na seara da música infantil, tendo praticamente inventado no gênero no Brasil, especialmente a partir da parceria com Xuxa. Junto com Massadas, o cantor e compositor criou o grupo Trem da Alegria.

Não por acaso, sendo detentor dos direitos de inúmeros sucessos musicais no País, hoje Sullivan estará presente no seminário "Entendendo o Direito Autoral", que acontece hoje em Fortaleza, com a participação de artistas como Dorgival Dantas, Fagner e Joelma Giro.

Trajetória

Batizado Ivanilton de Souza Lima, nasceu em Recife, começou cantando na noite da capital pernambucana. Aos quinze anos, participou de alguns concursos de calouros, como Varieté, de Nilson Lins, na Rádio Jornal do Commercio.

Depois de faturar o primeiro lugar, recebeu a carteira profissional da Ordem dos Músicos do Brasil e um contrato com a TV Jornal do Commercio. Dois anos depois, assim como muitos nordestinos que buscavam sucesso artístico, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conheceu músicos e produtores como Hyldon, o guitarrista Pial e o saxofonista e arranjador Tinho (os dois últimos já haviam trabalhado com Tim Maia).

Com eles formou o grupo Os Nucleares. Na mesma época, conheceu um dos precursores da soul music brasileira, Tim Maia, que lhe ensinou a tocar violão. Passou ainda por um grupo chamado Os Selvagens antes de integrar o Renato e Seus Blue Caps como cantor e guitarrista. Sua passagem pela banda resultou em seis discos de ouro.

Concomitantemente ao trabalho no Blue Caps", Sullivan iniciou sua carreira solo, com a música My Life, que fez parte da trilha sonora da novela O Casarão, da Rede Globo. "Todo mundo estava gravando em inglês, resolvi tentar", recorda o artista. O compacto tornou-se um dos mais vendidos no País, superando a marca de um milhão de cópias.

Em 1978, Sullivan deu início à parceria com Massadas. "Depois que saí do Blue Caps para investir na carreira solo, formei uma banda para viajar. O Massadas foi tocar nessa banda e foi assim que nos conhecemos", recorda o cantor e compositor.

Mas foi apenas em 1983 que o trabalho da dupla estourou, quando Tim Maia gravou uma das composições dos rapazes, "Me dê Motivo". Sullivan e Massadas trabalharam juntos durante mais de 15 anos, até 1994; nesse período, criaram canções famosas como "Um dia de domingo" (Gal Costa e Tim Maia), "Deslizes" (Fagner) e "A vida é dura" (Demônios da Garoa e Benito de Paula). Nesse meio tempo, de 1980 a 86, o pernambucano também integrou o grupo The Fevers.

Eclético

Ao todo, Sullivan e Massadas lançaram em torno de 600 composições. Nesse balaio teve espaço para samba, romântico, sertanejo, infantil e outros gêneros. O que pode parecer falta de identidade musical o artista explica ser resultado de uma formação eclética. "Antigamente não fazíamos tanto show, e sim bailes. E na noite tocava de tudo, então você vai registrando isso na cabeça", lembra.

"Cotidianamente, também ouvia de tudo. Minha base foi com Luiz Gonzaga, Lupicínio Rodrigues, Little Richard, Steve Wonder, Beatles. São muitas vertentes, uma gama muito grande de coisas que eu gosto. Quando você junta tudo isso, compõe de tudo", observa o artista.

Tampouco Sullivan atribui uma fórmula para o sucesso de suas composições. "Ocorre que minha maneira de compor é pop, qualquer coisa que eu faço é para qualquer pessoa", justifica. Embora tenha começado como cantor, a vaidade de estar nos palcos - em vez dos bastidores da composição - não afeta o pernambucano, que se satisfaz quando ouve suas canções fazendo sucesso nas vozes de outros artistas.

"É maravilhosos, hoje ainda componho quase todos os dias. Tenho orgulho e fico feliz de ouvir uma canção minha. Como nessa última novela, por exemplo, ´Cheias de Charme´", orgulha-se Sullivan, em referência à música "Marias Brasileiras", escrita em parceria com Carlos Colla.

Nicho

Nessa trajetória, chama atenção a produção de Sullivan voltada ao público infantil. Junto com Massadas, ele praticamente inventou o gênero dentro do mercado fonográfico brasileiro. Além das mais de 300 músicas compostas, a dupla criou o grupo Trem da Alegria, um dos primeiros do tipo à época, a partir da experiência bem sucedida da gravadora RCA com o disco Clube da Criança.

O álbum, gravado em 1983, reuniu dois futuros integrantes do Trem, Luciano e Patrícia (revelados no 1º Festival internacional da Criança, do SBT), a apresentadora Xuxa (à época à frente do programa Clube da Criança, na TV Manchete) e o palhaço Carequinha. O disco contou ainda com participações especiais de outros artistas da gravadora e foi um sucesso de vendas.

"Conversando com Massadas, percebemos o potencial do formato de alguns grupos infantis que estavam surgindo em outros países, como Itália e Espanha, e nos quais a então recém-criada Turma do Balão Mágico era inspirada. Então decidimos formar o Trem da Alegria", recorda Sullivan.

Segundo o compositor, até então o que existia em termos de música para criança era direcionado para aquelas bem pequenas, de dois, três anos. Também de acordo com ele, outro diferencial de grupos como o Trem da Alegria era não gravar versões de músicas já existentes, e sim composições elaboradas especialmente para aquele público.

"O importante era a letra, havia a preocupação de nunca fazer uma música totalmente infantil, no sentido de os arranjos terem os mesmos cuidados de qualquer outro tipo de música. Os integrantes também cantavam como adultos. Só a letra que mudava. A melodia também era um pouco mais inspirada em um clima de felicidade, de esperança. Era uma brincadeira, mas séria", resume Sullivan.

Nessa seara, destaca-se a parceria de Sullivan e Massadas com a apresentadora e cantora Xuxa, com quem lançaram vários sucessos - "Lua de Cristal", "Brincar de Índio", "Parabéns da Xuxa", "Arco-íris", "É de chocolate", "Apolo", "Bobeou", entre outros.

Entre meados dos anos 1990 até os anos 2000, Sullivan lançou alguns discos autorais (inclusive nos EUA, onde morou por algum tempo), além de ter investido no mercado da música gospel (atualmente Sullivan é evangélico). O projeto mais recente é o DVD/CD duplo Sullivan Ao Vivo - Na Linha do Tempo, com participação de vários artistas.

ADRIANA MARTINS
REPÓRTER