Dilúvio do Orós

João Luís

Uma história de luta, medo e esperança marca a construção do açude Orós. Relatos que percorrem “O Despertar da Memória”, livro de Erotilde Honório, que será lançado, hoje, na Unifor

A construção do açude Orós alimentava o sonho de um oásis no meio da aridez do sertão cearense. Esperança de dias melhores para um povo mergulhado na escassez da caatinga, acostumado a mirar o céu e visionar a chuva. A história do açude é feita de sonhos, aspirações positivas. Mas o caminho das águas também abrigou pesadelos. Por um lado, a água farta representava um alento para o sertanejo. Por outro, havia o risco das terras do Vale do Jaguaribe serem engolidas por um dilúvio do Orós. Um pesadelo que se tornou mais presente para os moradores do distrito de Guassussê.

Em “O Despertar da Memória”, Erotilde Honório percorre os caminhos desse povo, atingido pela construção da barragem do açude. Também filha de Guassussê, ela relata os dramas, as teimosias, as lutas e esperanças de velhos moradores do lugar. “Na aspiração de narrar uma história, não me ocorria melhor inspiração nem tema mais oportuno do que a saga vivida pelos habitantes de Guassussê, meus conterrâneos, transformados que foram em retirantes, desta feita, expulsos não pela tradicional seca nordestina, mas pelas águas do Rio Jaguaribe, represadas pela construção da barragem do Orós, em 1960”, explica a autora.

As páginas de “O Despertar da Memória” conduzem o leitor por muitos relatos que ficaram de fora da história oficial do Orós, açude que, por quatro décadas, figurou como o maior do Nordeste. O livro recria o cenário “pré-chegada das águas”, em que a população de Guassussê vivencia momentos dramáticos, pois não havia, por parte do governo, um projeto de remanejamento dos habitantes do lugar para outra região, mais segura, livre da ameaça de inundação. “Foi, portanto, uma população deixada à sua própria sorte”, sentencia.

Isso talvez explique o surgimento da expressão “Arrombou-se Orós”, usada quando a situação está difícil. O termo consta do “Dicionário do Nordeste” (Editora Estação Liberdade, 378 páginas, 2004). Mas o arrombamento da barragem do açude, em 1960, acabou impedindo um desastre maior. Segundo os topógrafos, o Orós só atingiria sua capacidade máxima em três anos, tempo que os moradores deveriam permanecer no local. “Avaliação inconseqüente de acordo com os registros da história, cujo resultado provocou uma catástrofe logo em janeiro de 1960, quando a barragem, felizmente ainda não concluída, foi arrastada pelo turbilhão de águas do Jaguaribe, num período chuvoso inesperado e sem precedentes”.

O livro de Erotilde denuncia que não houve preocupação com os habitantes atingidos pelas águas da represa do Jaguaribe nem com o destino deles. “Em todo o decorrer da construção da obra e mesmo após o desastre, a discussão não contemplava o problema a ser enfrentado pela população, a desagregação cultural que o fato causaria e as conseqüências ambientais, com a destruição da fauna e flora locais”. Conforme a autora, os aspectos sociais negativos sofridos pela população de Guassussê e moradores dos sítios às margens do rio não foram notícia nos meios de comunicação da capital, nem faziam parte do projeto de responsabilidade do Dnocs.

O grupo de moradores de Guassussê e de outras regiões do Vale do Rio Jaguaribe, sem ajuda, contou com as próprias forças para reconstruir a vida. Só dois anos depois, como esclarece a autora, o Dnocs providenciou indenizações de forma aleatória, fazendo anotações de última hora, para compor os processos de pagamento aos pequenos proprietários, alegando haver sido extraviado o levantamento feito pelos topógrafos encarregados de medir as terras e contar as benfeitorias. “Vivi o desolamento da destruição do povoado e amarguei com eles, solidarizando-me com a tristeza e o desamparo dos excluídos. Nestes últimos 40 anos, tenho acompanhado, à distância, as mudanças do povoado. Com eles, apazigüei meu coração ao perceber que poderia devolver parte do que havia recebido por meio de uma troca”.

Narrativa afetiva e social

Para o coordenador de Políticas do Livro da Secult, Fabiano dos Santos, a autora e os moradores de Guassussê compuseram, juntos, uma narrativa afetiva e social. “Teceram o tempo do passado, pensando nos desafios do presente encontrados na comunidade. Além da pesquisa, projetos sociais, culturais e artísticos foram sendo construídos, relacionando uma abordagem acadêmica com os olhares vivenciais dos moradores de Guassussê”, diz. Segundo ele, este trabalho faz o leitor refletir sobre a função da memória na construção cultural e histórica do cearense e sobre o papel social do pesquisador na produção do conhecimento.

Para o professor e antropólogo Ismael Pordeus Júnior, o livro de Erotilde Honório torna visível o cotidiano de pessoas que estavam fadadas ao esquecimento. “Memória dos velhos, memória transmitida aos jovens, memória de uma cidade engolida pelo dilúvio do Orós, memória da autora”, diz, na apresentação da obra. Nenhuma memória social, conforme o professor, pode existir sem referência a um grupo específico. “Memorizar é arrumar lembranças em espaços definidos, como ensinava o poeta Simonide, na Grécia”.

“O Despertar da Memória” faz parte da Série Pensamento, da Coleção Nossa Cultura. Insere-se em uma linha editorial voltada para a difusão de pesquisas acadêmicas sobre estudos da cultura cearense. Dissertações e teses foram selecionadas para publicação, como esta pesquisapara o doutorado em Sociologia da professora Erotilde Honório.

Serviço:

Lançamento de ´O Despertar da Memória´, hoje, às 19h, no Auditório A4 (Bloco A), da Unifor. Informações: (85) 3279-2400.

DÉLIO ROCHA
Repórter