De olho no acervo

O Museu do Ceará recebe vigilância eletrônica até o fim do ano. A instalação dos equipamentos será financiada pelo Ministério da Cultura

A segurança no Museu do Ceará, localizado no Centro da cidade, mostrou-se ineficaz no início de janeiro deste ano, quando foi furtado, do lugar, os óculos de Frei Tito de Alencar, uma relíquia histórica. Ninguém sabe, ninguém viu e nada dos óculos do homem que entrou para a história como um símbolo da resistência contra a ditadura militar brasileira. Se o Museu do Ceará contasse com sistema de vigilância eletrônica, o desdobramento, certamente, teria sido outro: ou os óculos ainda estariam no seu devido lugar - o Memorial Frei Tito, cuja sala funciona no museu situado na Rua São Paulo - ou o ladrão já teria sido identificado.

Este cenário deve mudar até o fim do ano, com a implantação de um sistema de segurança eletrônica. No total, serão investidos 23 mil reais. O dinheiro é fruto de um edital nacional do Ministério da Cultura. “Nós concorremos com um projeto específico de vigilância, que figurou entre os contemplados pelo edital”, informa a diretora do Museu, Cristina Holanda. Os recursos, segundo ela, devem chegar aos cofres da instituição em, no máximo, seis meses. “Até o final do ano, o sistema deve estar funcionando”, avisa.

Acervo inestimável

A vigilância eletrônica supre uma das maiores deficiências do Museu do Ceará. A segurança do lugar é feita por um guarda - do efetivo do batalhão patrimonial da PM - no período da manhã e outro durante a noite. Eles têm a responsabilidade de proteger um rico acervo de valor simbólico inestimável. O acervo do Museu reúne cerca de 15 mil peças, resultado de compras e doações públicas e de particulares - que incluem moedas, medalhas, quadros, móveis, peças arqueológicas, artefatos indígenas, bandeiras e armas.

Uma parte representativa do acervo fica em exposição permanente. A peça mais conhecida, certamente, é o bode Ioiô, símbolo da irreverência do cearense. O animal, empalhado em 1931, faz parte do acervo do Museu desde a sua fundação, em 1933. Outro destaque é o quadro “Fortaleza Liberta”, de 1884, que retrata a sessão histórica que pôs fim à escravidão - o Ceará foi o primeiro Estado a abolir a escravatura, em 25 de março de 1884. Há também peças de “arte popular” e uma coleção com 950 cordéis publicados entre 1940 e 2000.

O visitante também se depara com as coleções “Lítico Polido” e “Lítico Lascado”, que reúnem ferramentas em pedra utilizadas na pré-história cearense ou na história que antecede a chegada dos europeus ao Estado. O roteiro de visita também contempla a sala sobre o Caldeirão, um dos mais significativos movimentos sociais do Ceará; o Memorial Frei Tito; e a sala “Fortaleza, imagens da cidade”. O acervo ainda é composto de mobiliários e das mais diversas peças alusivas a fatos importantes do Estado ou objetos que foram companheiros de vultos de nossa história.

Algumas peças só podem ser contempladas em breves períodos, quando compõem as exposições temporárias. Neste momento, quem visita o Museu do Ceará tem a oportunidade de contemplar fotos raras da capital cearense, na mostra “Fortaleza em cartões postais”, em cartaz até o mês de maio. “A idéia é apresentar as mudanças na paisagem urbana e observar o que as pessoas elegem como cartão postal em cada época. O que a gente percebe é que, nos últimos cem anos, a Praça do Ferreira é único espaço que continua como cartão postal da cidade”. Uma demonstração de que o Museu do Ceará continua preocupado em revelar sua identificação com a cidade e ainda com sua memória na contemporaneidade.

Problema antigo

Sem uma segurança eficiente, toda a riqueza do acervo do Museu do Ceará fica ameaçada. O furto dos óculos de Frei Tito é a face mais recente do problema, a última baixa no Museu, mas não é de hoje que o local é vítima de larápios. Nos anos 50, o então diretor Raimundo Girão já se queixava da falta de segurança no local e dava conta do sumiço de várias peças, principalmente na coleção de numismática. “Desapareceram muitas moedas. Os jornais da época registravam estes acontecimentos. São notícias, porém, que não gostaríamos de voltar a ler nos jornais”, diz a atual diretora.

Reserva valiosa

A maior parte do acervo do Museu do Ceará não está à vista do público e compõe o que se denomina de reserva técnica. A reserva técnica, no entanto, não é um depósito aleatório, mas um espaço com peças acomodadas de maneira criteriosa, catalogadas, que recebem um tratamento especial. As peças da reserva técnica ocupam duas salas no térreo do Museu do Ceará e são acessíveis a pesquisadores e outros interessados na cultura material. Elas também costumam sair do ´depósito´ para compor exposições temporárias ou são utilizadas na renovação das exposições permanentes, levando a uma maior rotatividade de objetos na ´vitrine´ do Museu.

A renovação das peças, conforme a diretora Cristina Holanda, é interessante, principalmente nas exposições de longa duração. ´No contato permanente com o visitante, vem a necessidade de se realizar a troca de algumas peças. A repetição excessiva gera um cansaço visual e uma sobre-exposição de informação que prejudica o trabalho pedagógico do Museu. Então, a gente procura expor menos para comunicar mais. A quantidade de objetos em exposição não é o alvo. O mais importante é o discurso”, sentencia.

Mais de 90 por cento dos maiores objetos do acervo, como mobiliários, fazem parte das exposições permanentes. Por outro lado, a maior parte das moedas e dos objetos líticos, como machadinhos, encontra-se na reserva técnica do Museu. “Ela comporta todos os objetos, não cogita-se mudanças”. Entre os destaques deste acervo, está uma coleção de animais taxidermizados, que pertenceram ao Museu Rocha, criado pelo professor cearense Dias da Rocha. “Esta coleção está sendo restaurada e, em breve, pode ser exposta ao público”, informa a diretora.

Exposições temáticas e a nova museologia

Até o início dos anos 60, predominava uma visão enciclopédica, de que todo o acervo de um museu deveria ficar em exposição. A partir daquela década, começaram a surgir os espaços destinados às reservas técnicas, hoje praticamente um atributo obrigatório em qualquer instituição museológica. Assim, passaram a predominar as exposições temáticas, em que as ´vitrines´ dos museus são tomadas apenas pelos objetos relacionados ao tema da mostra. Este é o caminho seguido pelo Museu do Ceará, que divide suas obras de exposição permanente em temas como Paleontologia, Arqueologia/Antropologia Indígena e Mobiliário.

DÉLIO ROCHA
Repórter