Cruz e Sousa: o lírico e o ser

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No poema em prosa "Emparedado",há tristeza, a revolta e desesperação de um eu lírico angustiado

O livro de poemas em prosa "Evocações", de Cruz e Sousa, foi elaborado em torno de 1896, mas só chegou a ser publicado em 1900, após a morte do poeta em 1898. A obra contém 40 poemas e foi composta em um período de muito desencanto e tristeza. Ao lado de "Faróis", de 1898, "Evocações" representa um segundo momento da poesia do simbolista, quando ele abandona o esteticismo de suas primeiras obras, "Missal" e "Broquéis", para experimentar uma poesia de angústia, morbidez e desesperação.

A inspiração

São essas as temáticas de "Emparedado", último texto da coletânea e ícone inconteste do Simbolismo, tanto pela plasticidade do emprego da língua quanto pelo conteúdo - o interior agitado e revolto do eu lírico, que nesse caso, praticamente se funde com a figura do poeta, dado o tom confessional e autobiográfico do poema. O poema, então, se inicia com um chamamento pela noite: (Texto I)

O início do poema se relaciona imediatamente com o título da obra, "Evocações". O eu lírico chama noite para ressuscitar a matéria de sua poesia - as esperanças, as ilusões e as saudades do passado. O trecho já apresenta algumas características formais de todo o poema, entre elas: a inicial maiúscula de palavras no meio do período (palavras estas que podem ser consideradas as essências que tanto buscam os simbolistas, fugindo da superficialidade), alta adjetivação (os substantivos são quase sempre qualificados por um ou mais adjetivos) e a recorrência de metáforas (simbolização para os estados da alma e as verdades momentâneas). A poesia simbolista é marcada, ainda, pela busca do desconhecido, do misterioso, do inconsciente e do sonho, através do emprego da linguagem que visa à sugestão e evocação, que transcendem a realidade concreta.

 Impressionismo

Uma verdadeira pintura impressionista pode ser visualizada através das próximas imagens, que descrevem o fim da tarde, o domínio da noite e o princípio das aflições do eu lírico: (Texto II)

Depois de tons violáceos, vermelhos e fulvos que inspiram a melancolia do eu lírico, vêm as sombras da noite, o branco das estrelas, e com elas, as sensações, os desejos e o "ritmo fugidio de momentos" que serão objeto da expressão do interior do eu lírico. O uso da primeira pessoa de forma explícita, "Eu ficara", reforça o caráter lírico do texto e, chegada a "hora infinita da Esperança", acompanhamos uma reflexão existencialista, uma postura de existir no mundo inteiramente subjetiva e, pertencente ou da ordem, ainda, do eu poemático. Um detalhe: ainda que escrito sob a forma de prosa, sucedem-se ritmos em decassílabos; além disso, assoma, a cada instante, a presença da extrema musicalidade, fruto de assonâncias, aliterações, bem como o uso de rimas internas. Percebe-se, nitidamente, que se trata de uma realidade captada de dentro para fora, uma vez que a verdade do impressionista é a verdade de um determinado momento.

Quanto à exploração dos recursos expressivos, ganha relevo o emprego das impressões sensoriais, e destas muitas desembocam no recurso da sinestesia, isto é, a metáfora dos sentidos, pois, constantemente, fundem-se as sensações das mais variadas ordens. Outro aspecto do estilo a ser destacada é o cultivo de neologismos, ou seja, de palavras inventadas - e tal recurso vai ao encontro do desejo de exotismo que tomava conta da alma dos simbolistas.

FIQUE POR DENTRO

Notas acerca da concepção do gênero lírico

O vocábulo "lírico" surge do latim lyricus, e está associado à lira, instrumento musical utilizado pelos gregos no período clássico. Durante vários séculos a música e os textos foram indissociáveis, e por isso os escritos compostos em verso para as canções emitiam "lirismo". A partir do século XV, iniciou-se um afastamento do som lírico e da palavra poética, que passaria à escrita como prática da leitura (declamação). Assim, o "eu" que fala nos textos poéticos é "lírico", ou seja, é a expressão de um "eu" distinto do "eu" do autor. Essa distinção foi desenvolvida durante o movimento romântico, no qual a individualidade do autor expressaria naturalmente a sua personalidade.

Trechos

TEXTO I


Ah! Noite! Feiticeira Noite! Ó Noite misericordiosa, coroada no trono das Constelações pela tiara de prata e diamantes do Luar, Tu, que ressuscitas dos sepulcros solenes do Passado tantas Esperanças, tantas Ilusões, tantas e tamanhas Saudades, ó Noite! Melancólica! Soturna! Voz triste, recordativamente triste, de tudo o que está morto, acabado, perdido nas correntes eternas dos abismos bramantes do Nada, ó Noite meditativa! Fecunda-me, penetra-me dos fluidos magnéticos do grande Sonho das tuas Solidões panteístas e assinaladas, dá-me as tuas brumas paradisíacas, dá-me os teus cismares de Monja, dá-me as tuas asas reveladoras, dá-me as tuas auréolas tenebrosas, a eloquência de ouro das tuas Estrelas, a profundidade misteriosa dos teus sugestionadores fantasmas, todos os surdos soluços que rugem e rasgam o majestoso Mediterrâneo dos teus evocativos e pacificadores Silêncios!

TEXTO II

Uma tristeza fina e incoercível errava nos tons violáceos vivos daquele fim suntuoso de tarde aceso ainda nos vermelhos sanguíneos, cuja cor cantava-me nos olhos, quente, inflamada, na linha longe dos horizontes em largas faixas rutilantes.

O fulvo e voluptuoso Rajá celeste derramara além os fugitivos esplendores da sua

magnificência astral e rendilhara d´alto e de leve as nuvens da delicadeza arquitetural, decorativa, dos estilos manuelinos.

Mas as ardentes formas da luz pouco a pouco quebravam-se, velavam-se e os tons violáceos vivos, destacados, mais

agora flagrantemente crepusculavam a tarde, que expirava anelante, num anseio indefinido, vago, dolorido, de inquieta aspiração e de

inquieto sonho...

STÊNIO GARDEL MAIA

COLABORADOR