Compositor talhado em festivais

Com o sucesso nos festivais, Luiz Sérgio passou a fazer alguns shows. Em 1979 se apresentou novamente na Faculdade de Direito e na Concha Acústica da UFC, além de participar do Encontro Nacional de Música e Teatro Amador, na Paraíba. Em 1980, veio o segundo lugar no Festival da Credimus, com ´Flor da Idade´

O irmão Ozanan lembra do Festival da Credimus como ´um evento muito grande, com muita gente boa concorrendo e com um júri da pesada, com Fagner, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Abel Silva...´. ´Foi muito disputado, mas ouvimos uma história de que Sérgio só perdeu o primeiro lugar porque teria entrado uma flauta desafinada com a música dele. Na hora que ouviu a flauta, o Alceu tirou o headphone e deu zero pra música, que acabou ficando a um ponto de diferença do Quinteto Agreste, que ganhou o festival´, afirma. ´Mas o Abel Silva, por exemplo, não se conformava. O Fagner também, dizia que a melhor música era ´Flor da Idade´´.

Em 1981, Luiz Sérgio tem sua primeira música gravada. ´Rio Coração´ ganhou registro da cantora Teresinha de Jesus, com arranjo do grande mago Sivuca. O contato se deu por meio de um amigo em comum: o consagrado compositor Maurício Tapajós, que dois anos mais tarde faria show no Theatro José de Alencar em dupla com Luiz Sérgio. De volta a 81, o cearense tornou a se apresentar na Faculdade de Direito e obteve o quinto lugar no Festival de Música do O Povo, realizado no anfiteatro da Volta da Jurema e vencido pelo compositor Dílson Pinheiro.

Pouco para quem vinha de premiações mais expressivas? Não se for levado em conta que, através das fitas do festival enviadas para diversas emissoras de TV, Luiz Sérgio seria convidado para participar, no ano seguinte, do programa Som Brasil, então apresentado por Rolando Boldrin. Ali mostrou, com calma e naturalidade ´de artista profissional´, como assinalam os irmãos, uma de suas criações mais espirituosas: ´Saúde de ferro´, xote bem humorado composto em socorro ao irmão Joaquim. ´Eu tava hospitalizado e botei na cabeça que ia morrer, não aceitava alta, nada, achei que tava muito ruim mesmo. Acabei sendo a inspiração pra essa música genial, que ele mostrou ainda no hospital´, testemunha Joaquim Morais. ´Foi uma coisa incrível a felicidade de todo mundo com ele cantando pro Brasil todo. Em Várzea Alegre então...´, emenda Ozanan.

Em 1982, Sérgio volta ao festival do O Povo, com ´Baião de cem´, espécie de metacanção, abordando as desventuras do processo criativo em música popular. Assim como ´Saúde de ferro´, a faixa foi gravada pelo cantor e compositor Rogério Franco, já na década de 90. ´Era uma coisa incrível o talento do Luiz Sérgio. Ele era mais velho que a gente, mas conversava numa boa, mostrava as músicas dele. Lembro de encontrar com ele e de ficar encantado com essas duas músicas em particular´, conta Rogério, frisando: ´Ele tocava violão muito bem, o que gerava um conjunto até certo ponto estranho com a voz dele. Mas nunca se importou com isso. Gostava de cantar, e se metia mesmo no meio dos músicos, era muito querido. Outra coisa que nunca esqueci foi ele mostrando ´Baião de cem´ no violão: quando a letra da música falava em si menor e dó sustenido, ele dava essas notas na harmonia. Sempre achei aquilo fantástico´.

Várzea Alegre e o Takaká

Em 1983, pausa para um breve retorno a Várzea Alegre, onde o músico gostava de aprontar todas durante o carnaval. Desta vez, porém, o reencontro com a cidade-natal se deu na semana do município, comemorada com uma feira cultural, também conhecida por ´show da terra´. Para a ocasião, Luiz Sérgio, a grande atração como o vencedor de festivais na capital, leva para acompanhá-lo em um show na cidade músicos de Fortaleza, como Aroldo Araújo, Carlinhos Patriolino, Carlinhos Ferreira, Dílson Pinheiro e Luizinho Duarte. Um registro de jovens músicos que viriam a formar no primeiro time de instrumentistas cearenses.

´Todos conviveram muito com ele. Ele realmente tinha essa coisa: apesar de não ser profissional, não viver só de música, transitava entre os instrumentistas sempre muito à vontade´, acentua o parceiro Paulo Viana. Ozanan demarca que a relação de Sérgio era mais intensa com a produção musical que com a vertente geralmente boêmia do coletivo de músicos. ´Ele não tinha muito de esticar, viver na noite. Gostava muito de música, mas não tinha aquela irresponsabilidade do artista. Uma vez ficamos até de manhã eu, ele, Rodger Rogério e Cassundé, ali no Takaká, onde hoje é o Pirata, na Praia de Iracema, mas não era muito freqüente´, conta, para Paulo tabelar: ´O Takaká era nosso reduto, enquanto outro grupo ficava no Estoril´. E Joaquim completa: ´Muita gente dizia: ´Antes do galo cantar, eu tenho que chegar no Takaká´´.

Segundo os irmãos, a produção musical de Luiz Sérgio vai escasseando no fim dos anos 80. Vieram o casamento, com Cleire, que daria ao compositor sua única filha, Luciana, e crescentes obrigações profissionais. Entre as exceções, o show no BNB Clube, no projeto Xique-Chique, produzido em 1987 por Amaro Penna, parceiro de Sérgio em ´Caminho do sol´, que deu nome a disco lançado pela cantora Amelinha em 1984. E a composição, ao lado de Cassundé, da trilha original para a peça de teatro ´O Robô que Queria ser Gente´, de Paulo Viana, montada pelo grupo Balaio em 1989.

´A gente se conheceu em 82, no festival, e se tornou muito amigo. Começamos a compor, a ir muito na casa um do outro, e fizemos ´Caminho do Sol´, que deu nome ao disco da Amelinha. O Luiz pegou a fita caseira dele com a música e deu pro Fagner, que na época tava produzindo o disco da Amelinha e mostrou a ela´, detalha Amaro Penna, sobre ´Rio Coração´. ´Foi uma gravação que nos deu uma enorme alegria. Depois fizemos mais umas músicas, mas meio inacabadas. O Luiz tinha harmonias maravilhosas e ótimas letras´.

Trilha para teatro

Já sobre a trilha para a peça infantil, o autor do texto, Paulo Viana, lembra com orgulho os prêmios ganhos pela produção - incluindo melhor trilha sonora. Alento para um Luiz Sérgio que teria músicas gravadas por intérpretes como Késia e Marcus Britto, mas que andava cada vez mais distante da música, segundo os familiares. ´Em 91 foi um ano em que praticamente ele assumiu um cargo de direção no Conselho de Contas dos Municípios, e simplesmente sumiu desse meio (musical). Ainda fez uns shows no Bar Academia, com o Wladislau, tecladista, mas o ritmo de composição foi bem menor´, diz Ozanan, acrescendo: ´Mesmo assim, fez algumas músicas nessa última fase, como ´Sonho bom´. Gravou ainda algumas músicas com Tony Maranhão e Petrúcio Maia, que permanecem inéditas. Mas à medida que o trabalho foi crescendo na vida dele, acho que chegou um momento em que ele teve que optar´.

Em 10 de outubro de 1991, o susto: Luiz Sérgio morre, em sua residência, em decorrência de disparo com arma de fogo na cabeça. Recorte de jornal da época, guardado pela família, destaca que ´Acidente mata técnico do CCM que se preparava para viagem´ e ´aproveitaria para praticar esportes de caça e pesca´, dos quais ´era adepto´. Segundo a matéria, ´por volta das 5h da manhã, em seu apartamento na Aldeota, quando preparava as armas que levaria na viagem, Morais foi atingido na região próxima à orelha direita por um disparo de uma espingarda calibre 36´. As versões para a morte de Luiz Sérgio, conforme relatos de familiares e colegas músicos, variam de acidente a suicídio. De acordo com a família, o compositor deixa cerca de 60 canções - em sua maioria, inéditas - que ainda deverão ser registradas em um projeto especial. Nada mais justo para o talento de Luiz Sérgio. (DM)

O QUE ELES PENSAM

Lembranças do ´Pato Rouco´ - Conheci Luiz Sérgio em 1982, já tinha um tempo que a gente conhecia músicas um do outro e queria se encontrar. Passamos a ter uma relação muito próxima, começamos a compor, fizemos ´Caminho do sol´, que a Amelinha gravou e deu nome ao disco dela. Depois fizemos mais umas músicas, mas que ficaram meio inacabadas. A gente tinha muita facilidade juntos, e ele sabia tudo, fazia música e letra. E cantava, era afinado, apesar do timbre esquisito, porque era rouco, né? Daí o apelido, ´Pato rouco´, que acho que deve ser coisa de infância. Ele sempre gostou de gravar em um equipamento que ele tinha em casa. A gente se encontrava às sextas-feiras, ele passava lá em casa umas seis horas da tarde e a gente ia tomar um chope, comer uma pizza ali pela Oswaldo Cruz, ele sempre trazia fitas com músicas novas. Também produzi um show do Luiz Sérgio no BNB Clube, no Projeto Xique-Chique. A morte dele deixou todo mundo surpreso, porque jamais se esperava. Ninguém acreditou, até hoje ninguém sabe direito o motivo. Estive com ele uma semana antes, e ele aparentava estar bem. Acho muito importante que a gente consiga ainda produzir um CD com a obra dele, chamar pessoas que eram mais próximas, porque é necessário que se registre isso.  - Amaro Penna, Cantor e compositor

Música de pai pra filha - Eu era muito novinha, tinha uns quatro anos, quando ele morreu. Mas sei que era aquele pai divertido, gostava de me levar pra todo canto, de me exibir pros amigos, festejar a coisa de ser pai. Ele gostava muito de criança, e aí a filha dele era o brinquedo dele também. Tem muita imagem dele comigo, ele filmava tudo, era coruja. Tem tudo: eu aprendendo a andar, os aniversários, as viagens que a gente fazia. As músicas dele, minha mãe sempre guardou tudo, sempre deixou ele bem presente na minha vida, nunca omitiu nada. E eu tenho lá em casa uma agenda com todas as letras dele, com muita foto, se não me engano alguns troféus de concursos que ele ganhou aqui. E tem os violões, na casa da minha mãe em Várzea Alegre, que ela tem o maior ciúme , não deixa ninguém mexer. E eu fiquei conhecendo as músicas, porque os meus tios, a maioria toca violão, e tinha sempre alguém tocando. Tinha música que eles tocavam, e eu sabia que era dele. A música que ele fez pra minha mãe, acho que é a mais bonita. Sempre me interessei, busquei conhecer, e tem muitos amigos dele que chegam pra tocar uma história. E o mais engraçado, pra mim, que todo mundo fala, é a gente só ter convivido quatro anos, e o meu jeito ser exatamente igual ao dele: eu sou palhaça, chego brincando aonde eu vou, e ele era assim. Em Várzea Alegre, eu sou até hoje ´a filha do Sérgio´. Até já tentei aprender a tocar violão, mas é difícil. Por ser filha dele, talvez tivesse uma certa cobrança. - Luciana Morais, filha de Luiz Sérgio

O parceiro de ´Boas-vindas´ - Luiz Sérgio era como se fosse da minha família. Minha irmã é casada com o Ozanan, irmão dele. E ele foi um grande parceiro, uma pessoa de uma musicalidade fantástica, que foi embora muito cedo, poderia estar aí criando bastante. Era um cara muito despojado e de um grande bom humor. Uma pessoa que se dedicava muito, fazia música com muito carinho. As letras dele eram de grande emoção e de muita inventividade, muita perspicácia. Ele gostava muito do Chico Buarque, e era muito criativo, fazia sambas, canções, ia pra uns caminhos muito interessantes nas harmonias. Uma época a gente se encontrou muito no Rio de Janeiro, quando ele ia trabalhar e ficava na minha casa. Foi lá que em 86, 87, nós fizemos ´Boas-vindas´. Ele levou a letra pronta, e eu fiz a música lá, de uma vez, na mesma hora. Nós chegamos a fazer uma outra música, um xote, mas ele ia fazer a letra, terminou que não deu tempo. Às vezes eu vinha do Rio pra Fortaleza, e ele mostrava as músicas que tava fazendo. E eu dizia: ´Luiz Sérgio, tu tem que gravar isso, é muito bonito´. Ele ria... E o lance da voz meio rouca, muita gente brincava, mas ele não se incomodava não. Tanto que todo mundo conhecia ele pelo apelido. Pra mim, um disco com a obra dele, hoje em dia, seria fantástico.  - Nonato Luiz, Violonista e compositor

Reverência ao compositor - Conheci Luiz Sérgio, junto com o cantor e compositor Gilmar Nunes, fazendo o exame da Ordem dos Músicos, no colégio Juvenal de Carvalho, no início dos anos 80. Ele tava fazendo o exame também, e a partir daí a gente teve alguns breves contatos. Eu pude ouvir o Luiz Sérgio tocando, por exemplo, ´Baião de cem´, e me apaixonar pela música. Disse pra ele que no dia que eu fosse gravar um disco, ia gravar essa música. Depois gravei também ´Saúde de ferro´. Luiz Sérgio era muito bom violonista, chamava atenção. E as pessoas esperavam que ele também cantasse muito bem. Aí ele abria a boca e era uma surpresa, porque era rouco demais, contrastava. Você ficava meio hipnotizado pelo cara, tocando tão bem e cantando dessa forma que chegava a ser engraçada, porque ele era engraçado, não tava nem aí, era muito espontâneo. Lembro de músicas influenciadas pelo Chico Buarque, outras de carnaval... Ele tinha um equipamento em casa, que conseguia gravar bem as coisas, em cassete. Ele mandava pra várias pessoas essas fitas. Era uma pessoa que não vivia sem a música, demonstrava estar feliz só quando estava com o violão. Todo mundo gostava de ver o Luiz Sérgio cantando. Bastava ouvir metade de uma música, pra já gostar. A morte dele foi uma tristeza muito profunda. Acho que, das pessoas que nos deixaram, o Luiz Sérgio foi quem mais abalou mesmo a todos nós, músicos, porque tinha uma ligação realmente muito forte com todo mundo. - Rogério Franco, Cantor e compositor

A voz de ´Caminho do sol´ - Não cheguei a ter o prazer de conhecer o Luiz Sérgio. Ouvi a música dele através do Peninha (Amaro Penna), parceiro em ´Caminho do sol´. Gostei muito da música, e a mim me surpreendeu muito o destino que ele tomou. Quando ele morreu, deixei um pouco de lado essa música, porque me fazia recordar. Depois superei isso, e sinto uma música muito alegre. Sinto isso quando canto essa música, e ainda canto. Sou amiga do Peninha de muito tempo, e achei que a música ficaria bem como o nome do disco, porque falava da cidade toda, do nosso clima. Era uma viagem, um farol, dava uma visibilidade. Hoje, com o turismo, se fala mais do Nordeste, mas naquela época não se falava tanto. E aí eu vi naquela música uma possibilidade bacana de falar em várias regiões ao mesmo tempo. E ´Caminho do sol´ foi o nome do disco também porque foi um momento de mudança na minha vida. Eu tinha acabado de fazer o ´Água e luz´, e tava vendo como é que ia ser dali em diante. Era um divisor, como se eu tivesse saindo daquela roda vida, da parceria muito enriquecedora mas muito absorvente com Zé Ramalho, e me voltando mais pras coisas do ponto de vista cearense. Amelinha, Cantora

O samba que ele queria - Sérgio era uma grande figura. Lembro muito de ´Valsinha pra Célia´, música dele e do Paulo Viana, que cantei no Festival Universitário de 1978, no auditório da Faculdade de Direito da UFC. Nós somos conterrâneos, e a primeira composição do Sérgio é parceria comigo, fizemos uma música antes de ele fazer o ´Samba pra esbanjar´. Era um samba também, que começava: ´Fiz o samba que você queria / Nele é fácil saber que você não vai ver muita filosofia...´. Era ´O samba que você queria´. A letra é minha e eu tive uma participação na melodia, mas é a primeira composição do Luiz Sérgio. E isso chegou a ser gravado. Lembro que o Ozanan, irmão dele, ensinou ele a tocar violão, e o cara era inteligente e pegou tudo sozinho. Luiz Sérgio tinha uma grande musicalidade e uma tendência poética também muito boa. E por ele me ver compor, cantar, se entusiasmou. Aí aprendeu a tocar violão sozinho e de repente estava lá, um compositor. E ele tinha o compromisso e a obrigação de ser um dos maiores compositores dessa terra. Mas o que está aí da obra dele prova que ele era excelente, que precisa ter a sua obra resgatada. Porque Sérgio é uma referência cultural.  - Raimundo Cassundé, Compositor e professor

LETRA EM DESTAQUE: ´Viajar´ (Luiz Sérgio)

Viajar, correr o mundo afora, ao deus-dará
A alma em festa e o corpo no ar
E sonhar, deitar, brincar na areia ouvindo o mar
Um canto longe, longe, sereia

Cruzar as matas, provar dos frutos
Beber da fonte na própria mão
Correr perigos, subir montanhas
Vencer abismos de solidão

Viajar, correr o mundo afora, ao deus-dará
A alma em festa e o corpo no ar
E sonhar, deitar, brincar na areia ouvindo o mar
Um canto longe, longe, sereia

Pisar mais terras, ver outra gente
Beber auroras, quase manhã
Ouvir as aves, ver os rebanhos brilhando ao sol
Festa da lã

E chegar, ver o teu corpo lindo
Feito um maná que cai do céu
E aí, então, se embriagar e sonhar, viajar