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Os rastreadores de chuva

A história pontua sua tragétória com a existência do inusitado dos profetas. São pessoas que rompendo com a história, como relato de algo passado, constroem a saga do que ainda vai acontecer. São farejadores que em verdadeiros flashs forward navegam na realidade prevista. São os profetas, aqueles que vão muito além do aqui e do agora. Os nossos profetas populares de forma empírica, farejando o futuro, vão decifrando um porvir e principalmente prevendo se os invernos serão chuvosos, apenas verdes ou secos.

Para conhecer os nossos profetas sertanejos é importante ler a pesquisa organizada pela professora doutora Karla Patrícia Holanda Martins, docente do curso de Publicidade e Propaganda, da Universidade de Fortaleza. O título é Os profetas da chuva. A primeira parte é um conjunto de fragmentos narrativos de profetas populares. É importante essa parte porque os narradores derivam do real para o irreal. Fantasiam suas narrativas de tal forma que fica difícil estabelecer limite onde termina a realidade e começa o ficcional. O leitor se delicia muito mais quando a subjetividade se instaura, pois é nesse momento que ele entra em deriva.

A segunda parte é como uma deglutição do que foi adquirido na primeira. Do empírico colhido entre aqueles sábios populares, passa-se à ruminação dos saberes, à análise mais racional do colhido. É aqui que entram historiadores, antropólogos, sociológos, psicanalistas, poetas e professores que vão submeter essas falas aos crivos da cientificidade, através da análise. É evidente que entre esses dois mundos, o da experiência e o da ciência analítica, ergue-se a proposta do trabalho da professora Karla, que é trafegar entre o fazer, o ser e o dizer, principalmente marcados por essa capacidade que nós temos de nos iludir.

Gostoso é ver a dedução dos profetas de que o corpo é a página escrita da natureza. Lembro-me de meu pai, prevendo à tardinha, a chuva que viria à noite. Era apenas através da obstrução nasal que os riachos com certeza transbordariam. Outra experiência corporal é o mormaço, o calor úmido, o suor pesado, a falta de brisa. O corpo prenunciando a chegada de chuva.

O depoimento do profeta João Ferreira é um verdadeiro achado em termos de empirismo. Seu corpo é um continente onde toda a natureza de alguma forma se aninha. Se essa natureza está prenhe de sugestões é o homem que vai parir sua melhor leitura. Foi uma leitura desse tipo que levou Noé a construir sua arca e salvar-se do dilúvio. Se o joão de barro faz sua casa com a boca para o poente é sinal de grande inverno, se faz para o nascente é seca na certa. O joão de barro é um Noé, que constrói sua arca em todos os invernos.

Esses fragmentos narrados pelos profetas e analisados pelos pesquisadores convergiram para a escolha do livro para publicação no II Edital de Incentivo às Artes no Ceará (2004/2005). Essa pesquisa contempla um evento que há dez anos coloca o município de Quixadá no mapa mundi da cultura popular ao reunir os profetas dali e dalhures para vaticinarem as possibilidades hibernais. Nesses encontros anuais, além dos profetas, comparecem técnicos da Funceme, meteorologistas, estudiosos e curiosos que se orientam para a efetivação do futuro plantio.

Esses encontros peoporcionam uma certa visibilidade a esses personagens que saem do ostracismo para, através da mídia, chegarem à história. Suas existências locais extrapolam o regional e agigantam-se por esse mundo afora. O que está escrito nas estrelas e desenhado nos animais inspira suas premonições, que fazem para os mesmos o diferencial. O discurso do profeta da chuva é um ponto de tensão que se estabelece entre o vate e o grupo social. Por serem predestinados, eles trazem saberes que os diferenciam dos circunstantes. Eles trafegam entre as camadas sociais como possuidores de um dom divino, de um privilégio exclusivo.

Além de Karla Patrícia e dos profetas com suas falas, há outros discursos que compõem o livro como é o caso dos textos elucidativos de Solange Rebuzzi, de Gilmar de Carvalho em torno das profecias no Cordel, e da professora Kênia Rios, tratando cientificamente o mundo das profecias. Karen Pennesi apresenta os aspectos lingüísticos do discurso dos profetas, José Clerton de Oliveira Martins trata do tempo e do trabalho para o profeta da chuva, Renzo Taddei traz uma abordagem sobre mídia, economia e identidade dos profetas, Daniel Kupermann dá um tratamento psicanalítico à secreta sabedoria dos profetas, Osvaldo Costa Martins também faz uma ponte entre a Psicanálise e o trabalho de previsão de chuvas, e Alexandre Abranches Jordão trata dos elementos psicanalíticos que contribuem para a busca que o profeta empreende pelo conhecimento e seu emprego antecipatório. Henrique Figueiredo Carneiro valoriza a subjetividade ao pregar que nem tudo pode ser desvelado, valorizando a fantasia, profundidade sem limite da criação narrativa, e, usando como pré-texto o que há de visionário em Dom Quixote, além do escuro do outro lado do Gênesis, tudo em confronto com a visão de mundo dos profetas da chuva. Leônia Cavalcante Teixeira, cavalgando as teorias benjaminianas, ingressa no mundo narrativo dos profetas da chuva como a quebrar a pedra bonita onde o encantado fundador do quinto império traz a chuva da significação para decifrar tantos símbolos. Ana Kiffer, com seu texto “Profecias Poéticas”, transita entre os eixos “do corpo e da escrita poética” e “da literatura e da fome”.

São esses múltiplos olhares sobre o fenômeno das profecias das chuvas que dão luz a saberes antes ignorados pela mídia e pelos intelectuais das ciências. A atuação dos profetas é milenar. Combatidos em alguns momentos, venerados em outros, eles sempre povoaram as mentes das pessoas com seus saberes. A falta de avatares para seus seguidores, fê-los depositários de esperança e confiança. O que faltava era o confronto com a ciência, e este livro é uma porta aberta para que outros empreendimentos ocorram em torno dos “Profetas da chuva”. Sua metáfora é a do dilúvio, onde Noé teve a sabedoria suficiente para vislumbrar a enchente que viria, a ponto de construir sua arca carregada de animais como uma cuia carregada de sementes para o plantador de hoje. Assim, tanto Noé como o profeta de hoje constroem seu porto de partida, cabendo ao leitor completar essa metáfora, ao construir seu porto de chegada.

jbatista@unifor.br