Arte Cearense

Pintura de José Guedes

Reminiscências

José Guedes é, antes de tudo, um artista preocupado com a permanente renovação de sua arte, de tal sorte que, a cada exposição, aponta novas possibilidades de criação; desse modo, a inquietude é a singularidade de suas composições, numa harmonia entre cores e traços

Contos de Antônio Luciano Bonfim

Correndo Entre Mundos

O suor escorregava pela testa, enquanto andava pela avenida para voltar para casa. Chinelos desgastados pela força de seus pés, a roupa velha tinha cheiro fétido de suas antigas histórias e sua consciência se encontrava em outras paragens. Suava e seu suor era um conforto de vida.

Deixava sua visão se estender pela longa avenida...

O sol imponente abrasava seu corpo, despertando-lhe um agradável desconforto. Firmando a vista, começou a pisar cada vez mais forte e veloz até correr cortando o ar. Parecia que corria por entre épocas, do seu mundo e dos mundos além, correndo entre o verdejante cretáceo, entre os pelotões de conquistadores, testemunhando, com uma olhadela, a queda de deuses e pisando onde brotava um enorme cogumelo.

Corria em uma floresta metálica, depois corria no vácuo negro e em outras paragens que estão além das palavras, além do sonhar, ao correr sobre o olho do princípio, para finalmente, respirando fundo e pesado, voltar para casa.

Obsessão

Ele estava lá, sentado e esnobe, revelando em cada gesto uma sombra que cobria tudo ao redor. Ria, bebia e resmungava freneticamente.

Gostava de seduzir com as palavras, brotar sensações naquelas pessoas ao seu redor, entretendo-os com suas palavras.

Sua aparência de munhecas fracas escondia algo compacto e implacável, que lhe escapava em um brilho sutil dos seus olhos.

Havia algo de errado nele, não saberia dizer se era paranoia ou instinto. Será esqueci os remédios? Não... Não deve ser isso... Os seus olhos me mastigavam, devagar... Saboreando o momento...

Tenho que pegá-lo primeiro antes que ele me pegue... Monstro! Tenho certeza! Será hoje! Hoje fecho as suas bocas. Ele não pode escapar ou estarei condenado.

[...]

Por que estão chorando? Todos estão loucos? Eu não sou um monstro! Eu o matei! Arrebentei a cabeça daquela criatura no meio fio da calçada. Por que esse ódio?

Monstros não tÊm família, não tem ninguém. Por que as armas apontadas para mim?Fiz o que tinha de ser feito. Eu tinha que matá-lo... Eu tinha que matá-lo... E u tinha que matá-lo...

Os Filhos de Diomedes

Diomedes e seus filhos sempre caçavam à noite, na montaria dos seus cavalos, armados apenas com lanças e facões. O pai lhes ensinou que aquilo que se mata deve comer e aquilo que pisa nas suas terras deve morrer. A morte não deve ser sentida à distância, deve penetrá-la na carne de sua presa com as suas mãos, fazer sentir sua vida se esvair.

Seus filhos nunca foram além daquele matagal, pois era tabu. Matar e devorar eram o essencial, solver o sangue era a glória do caçador. O pai lhes ensinou bem e lhes ensinou os seus devidos lugares nas coleiras, assobios e gritos bastavam entre o pai e seus filhos. Nada escapa dos filhos de Diomedes, nem a menor das crianças.

Sobre o autor

Antônio Luciano Bonfim cultiva a ficção, a poesia, bem como dedica-se ao gênero ensaio