Arte Cearense

Arte de Sérvulo Esmeraldo

Sem Título

Sérvulo Esmeraldo nasceu na cidade do Crato, no ano de 1919. Cultiva a escultura, a ilustração e a pintura. Em tempos mais remotos, dedicou-se à xilogravura. A partir de 1947, em Fortaleza, passa a frequentar a Sociedade Cearense de Artes Plásticas - SCAP e mantém contato com Inimá de Paula (1918 - 1999), Antonio Bandeira (1922 - 1967) e Aldemir Martins (1922 - 2006). Seus trabalhos podem ser vistos em muitos espaços públicos como a Beira-Mar.
 

Poemas de Jorge Tufic

Soneto arqueológico

Babilônio sutil, meu queixo fino
Sobrevive às catástrofes; num vaso
Posto a secar, meus olhos comparecem
Entre os botões da noite milenária.
Sombras do Tigre, mágicas do Eufrates,
Algo resta de nós. E disto apenas
Tudo volta a crescer, tudo se extingue
Feito o barro dos códigos severos.
Quem me decifra além dessas batalhas?
Quem me vê nos coleios da serpente?
Quem me furta do sono e me atropela?
Babilônio sutil, no auge da messe
Cozinho para os reis pedras e telhas.
Nas horas vagas sou pastor de ovelhas.

Ao deserto selvagem

Árida a língua desse cão, deserto
Do próprio osso, túnel que se deixa
Passar à fúria da mais doce ameixa
Rumo ao sono de pétalas coberto.
Assim a fera, lâmpago do incerto,
Se lança à jugular; nenhuma queixa
Da presa dócil que, sem ódio ou reixa,
Nutre o verde do campo descoberto.
Não é só do deserto, mas de tudo
Sobe um ar indescrito, este algo acima
Do vôo do abutre, lá, silente e mudo.
Nos vegetais, nos ferros, no quintal,
Onde cresta a papoula e nasce a rima,
Tudo que é frágil sofre desse mal.

A noite

A noite além do véo da noite além
'steve diante de mim. Seu corpo frio
Era compacto e denso como um rio
Que desce, eterno, donde a paz se vem.
Vi a noite fluídica. E ninguém
Por testemunha: a noite, o desafio
Das profundezas cósmicas, vazio,
Sendo ela própria a nuvem que a sustém.
Qual, enfim, seu tamanho? A noite vista
Da pequena janela da aeronave
Sobre o mar antes verde ou de ametista.
Cobra Grande, mas logo evanescente,
Enquanto se distrai muda-se em ave,
Traz a manhã nos olhos de serpente.

Soneto para E. M. Cioran

É uma exceção a vida, é uma exceção
Nossa dor de vazio e turbulência:
Sair do nada quando tudo é ausência
Da matéria que ilude o coração.
Vede o universo, o trágico arrastão
Dos corpos duros, luminosa essência
Que não tem húmus para a quintessência
De nossa humana decomposição.
Daí, talvez, a falta, essa rotina
De estarmos sós, tão sós que até nos cansa
A mofa, o planetário, a serpentina.
Nada além do que simples fantasia.
Qualquer estágio nutre uma esperança.
De qualquer solidão brota a poesia