Arte Cearense

Escutura de Ascal
Sem título

Dedica-se à pintura, à escultura e atua também como gravador. Sua pintura é marcada, sobretudo, pela presença da textura e do cromatismo bastante singulares. . Sua escultura se apresenta geralmente em formas geometrizadas, através de metais, pedras, madeiras e resinas

Poemas de Cláudio Martins

Aleluia

Ouço o trinar de pássaro canoro

Saudando esta manhã esplendorosa

E sinto o odor suave duma rosa,

A perfumar-me o instante, enquanto oro.

A multidão das coisas que eu adoro,

Valorizada por manhã formosa,

Enche de esplendor a radiosa

Euforia que amo e rememoro.

E, ao rememorar, me rejubilo

E sem pensar no mal, sigo tranquilo,

Fomentando querença e harmonia.

E que Deus me ajuda a pôr de lado

Os tormentos e dores do passado,

Me apascentando a mente em alegria.

Confesso minha inveja...

Confesso minha inveja ao que acredita

Numa vida futura, sem maldade,

Vida pura, escudada na bondade,

Imune às frustrações e à desdita.

Invejo o que aceita o sofrimento

Como fato normal ou provação,

Teste, mas necessário, condição

Para junto aos eleitos ter assento.

Sofrer, e fazer disso o instrumento

Da própria salvação, é desejável;

Portanto, sinto inveja e me lamento,

Pois que, em nada disso acreditando,

Acresço a desventura inelutável

Que esta descrença cruel vai agravando.

Lamento

Por que me queixo eu e me atormento

Por não sentir-me amado, amando tanto?...

Qual a razão de ser do desencanto

Que me transforma a vida em desalento?

Fazer-me uma exceção às vezes tento

E, cego e surdo, insisto na procura

Da irreal perfeição, uma aventura

Que mais e mais aumenta meu tormento.

Se a dúvida incomoda, o desalento,

Quem sabe, insegurança, me amargura,

Gerando a inquietude em que, sedento,

Vou-me engolfando. Porém, só tortura

Rende-me a busca vã, pois meu tormento

Persiste, recrudesce e não tem cura

Rimas presas

Serei poeta, acaso, ou eu me engano

Ao adentrar domínio de Petrarca?

Os versos que perpetro deixam marca

Ou são só frutos pecos de um profano?

Decerto, sendo eu um ser humano

Enteado da sorte, a velha Parca

Não me revelaria o raro arcano

Guardado por Camena em doce arca.

Mas no meu poetar vale o perigo

Pois, na verdade, muito pouco ligo

Ao preço que me cobra a vaidade.

E não me atinge um duro julgamento.

Liberto de censura e fingimento,

Hei de fazer somente o que me agrade.

Sobre o autor

Pertenceu ao grupo Clã e à Academia Cearense de Letras. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais - UFC