Arte Cearense

Pintura de Siegbert Franklin

Sem Título

Siegbert Franklin nasceu em Fortaleza, em 1957; dedicou-se, além da pintura, à ilustração; uma de suas singularidades reside na busca incessante de luminosidade, obtida esta pelo contraste entre as cores e os traços, elementos-chave para a criação de um universo onírico

Poemas de João Gomes da Silveira

Algo Indizível

O meu senso perdiz o que não falha:

Ele esbanja do afeto as clarinadas

E, por ti, singra léguas nas estradas,

Mas no amor, afinal, é onde malha.

Mas fascínio por ti não tem palavras;

Faz fronteiras nos marcos do intangível

E, por tantas, calar foi-me impossível,

Pois cogito albergar-te à minha lavra.

Impossível manter-me o bem oculto:

Já expô-lo, a granel, me põe tumulto,

E o ruim é não dar-lhe um norte certo.

Do que passo e passei, algo indizível,

Sei senti-lo, talvez nem seja crível,

Diz-se amor e se esconde num deserto.

O ipê e a Macróbia

Frondoso ipê floria sempre, e a rua,

Aos nossos olhos muito se enfeitava:

E, ao passo que nos fios ele dava,

Abateram-no, por maldade crua.

Às tardes, a casinha - que abrigava

O ipê - ficou bem triste e muito nua.

O sol banhava em fogo, não a rua,

Mas toda a casinhola se crestava.

A última vivente do casebre,

Macróbia já com seus talvez noventa,

A sós, sem ar e sombra, cai com febre.

Um mês, após, ao ver-se o ipê cortado,

Graças à solidária gente, atenta,

Um pobre esquife era sepultado.

Bucolismo

Contigo, permanente e de passagem,

Quero estar em lugar muito arredio,

Num sítio de bucólica paisagem,

Melhor vendo a correr sereno um rio.

Lá para além do urbano desvario,

Apenas tu e eu, sem nenhum pajem,

Curtindo os naturais calor e frio,

Mas sempre na maior camaradagem.

Reclusos, voluntários confinados,

Da vida social já num distante,

Dois entes mui demais enamorados.

E, na contemplação do isolamento,

Que o nosso amor idílico nos cante

Febril felicidade, aos sons do vento.

A Ausência

A ausência (ainda quando breve) dói,

Na gente, feito a ponta de uma pua

A se enterrar na nossa carne crua,

Mormente se a saudade nos corrói.

Por que não confessar, bancar o herói,

Que me fincou no peito a ausência tua,

Tal um formão, com dor, lá onde estua

O sangue d'alma, quente, e que me rói?

Hás de tornar com toda a brevidade,

E hei de sonhar-te a cada vão segundo,

À espera tua, a só cantar saudade.

Ah, quando vieres, meu amor, teremos,

(sem pôr nem nos faltar) cabal o mundo

Em cujas teias nós nos encantemos.

Sobre o autor

Pós-graduado em Língua Portuguesa, cultiva, além de trovas e raicais, crônicas e artigos