Arte Cearense

Pintura de Antônio Bandeira

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Antônio Bandeira nasceu em Fortaleza, aos 26 de maio de 1922 e morreu em Paris, aos 6 de outubro de 1967. Dedicou-se, com a mesma intensidade, à pintura e ao desenho. Suas obras estão presentes nas maiores coleções particulares em museus do Brasil e do mundo

Poemas de Jáder de Carvalho

Terra de Sol - I

Dói na alma ver a seca no sertão:
Toda a caatinga tem a cor da cinza;
A água do rio esconde-se na areia;
Mugem as vacas dolorosamente.
As moças e os meninos (tão magrinhos!)
Estão catando os últimos capulhos
Do algodoal. Ele florara em junho,
Mesmo com a rara chuva que o molhou.
Verdes, apenas os mandacarus,
Os xiquexiques e os ásperos juazeiros:
Verdes, mas defendidos por espinhos!
Por sua vez, o homem também protege,
Com a pouca fala e o rosto duro, a abelha
Que lhe fabrica o mel no coração...

Alma

Alma de viajor de mil viagens,
Sigo, num sonho, naves andarilhas
Que se esfumam nas líricas paisagens
De angras azuis e solitárias ilhas.
São-me errantes e tristes as imagens...
À lembrança das velas e das quilhas,
Formam golfos e idílicas paisagens
E enchem-me os olhos de asas e de milhas:
Asas - quem sabe? - para as minhas ânsias;
Milhas para eu sentir o Inalcançado,
No meu roteiro feito de distâncias,
Mas onde eu cante sob um céu mirífico
E sonhe um porto virgem, mergulhado
Numa doçura de ilha do Pacífico...

Terra de sol - II

Abro a janela. A terra está feliz:
Toda molhada, trêmula de frio.
Mas a cidade é muda nas calçadas:
Ó meninos, já não gostais da chuva?
Minha terra se molha como a gente.
Quer dizer: na mais íntima alegria.
Ela mata saudades. Era tempo.
Como eu gosto das árvores na chuva!
Chuva não é somente o sono bom,
A música macia no telhado:
É o pão-nosso, também, de cada dia.
Feito as mulheres grávidas, a terra
Vai ficar terna, vai ter olhos úmidos,
Vai fechá-los, com medo dos relâmpagos...

Serra do Estevão - I

Não tem nenhuma fonte a minha serra:
A água que ali bebemos vem das nuvens
Por isso, a terra é nua e de homens tristes,
Mais tristes que as mulheres, muito mais.
As mulheres não cantam nos crepúsculos,
Não cantam mesmo quando a lua é cheia.
E os meninos, com frio, como pensam,
Maduros no sofrer e no chorar!
Mas o clima da serra... Ó pobres tísicos,
Procurai esse clima, sem demora!
E vós, doentes do espírito, também!
Oh, minha serra, que é daqueles frades,
Que eram sábios, artistas, professores?
E as andorinhas? Onde as andorinhas?

Sobre o autor

Jáder de Carvalho nasceu em Quixadá em 1901.Ficcionista e poeta, de natureza engajada, ocupou a cadeira 14 da Academia Cearense de Letras. Foi um dos jornalistas mais influentes de seu tempo