Arte Cearense

Pintura de Francisco Vidal Júnior

Sem Título

Francisco Vidal Júnior é natural da cidade de Fortaleza; dedica-se, além da pintura, ao desenho e à escultura. Revela harmonia entre o jogo cromático e as linhas da composição

Poemas de Sérgio Macedo

Cansaço

Não estou cansado da vida
Estou exausto da morte,
Das pessoas que chegam
Pensamos tê-las ,
Ou ser pertencidos a elas
E se vão
Os amores, pensados elementos eternos,
Assentados,
E partem e nos dividem e morrem
Morrem como as pessoas que se foram
Não na distância somente,
Bem mais nos sentimentos,
No desabar de seus cadáveres
Até então, ocultos,
Na singeleza de um cotidiano descontinuo,
Morrem nossas coleções ilusionistas
Nossas formações de fantasias ,
Morre nossa cavalaria de aventuras
E a cavalariça fica museu sem graça
Morrem nossas viagens ao transcendente
Quando nos decepcionamos com o palpável, somos frágeis.
Morrem os nossos vinhos
Quando se quebram as taças de ânsia
Ânsia boa da boa espera, do bom projeto,
Da noite que vem, sem jaça
Morre o sorriso espontâneo
Em nossas faces que apresentam
Mesmo sem ter, o cansaço das mortes havidas
Nessa imensa jazida de espanto,
A tal da vida

Cansado da morte do universo
Antes que o aprenda
Morte da ciência que não apreendo
Da verdade incompreensível,
Durável da existência e seu sentido
A morte entendida do ser.

As excelências de nossas vidas

A velocidade em envelhecer é grande,
Maior do que a da esperança,
A velocidade do futuro,
Passa-se do futuro, da esperança,
Quando a solidão, solidária a si mesma
Invade e contamina o espírito,
O torna liquido estéril,
Rico antes e vítima das mutações
Que o roubo da energia vital provê,
O ladrão do cotidiano,
O vilão das noites, dos ventos
Também tortos,
Procura-se ventos doces e diretos
A serem servidos em porcelana fina
Mas há tempestades remotas
Vindas em pacotes,
Servidas em latas vazias de doce
Doce consumido por estranhos:
Que se coma agora com as mãos
Se as lave depois com lama corrente,
Pois só resta o desidratado vazio
Depois do futuro, da esperança.

Sobre o autor

Sérgio Macedo é médico e escritor. A marca de seu discurso é o intenso lirismo, em temas eternos