Arte Cearense

Pintura de Carlos Costa

Sem Título

Arquiteto, pintor, desenhista e técnico em Planejamento Urbano, o artista plástico Carlos Costa está sempre em busca de novas expressões, visando a uma perfeita harmonia entre a escola dos traços e o jogo cromático, elemento-chave de sua originalidade

Sobre o autor

Dimas Carvalho, natural do Acaraú, é também ficionista e ensaísta. Professor universitário.

Poemas de Dimas Carvalho

XXXIX

Nesse Rio navego e a viagem

É feita toda de assombro e espanto;

É vertigem voraz, na paisagem

Entrevista no meio do meu canto.

A noite cai... Me cobre com seu manto,

Debaixo dele vou para a outra margem

Em que celebro este mistério santo,

Perdido em meio à sombra e à voragem.

Entre a noite que passa, um Rio flui.

Nele mergulho, navego, me debato

E naufrago, e me afundo, e renuncio

À tudo aquilo que no dia fui.

Sou uma pedra que cai; no fundo bato

E me esqueço e me perco nesse Rio.

XLI

Comove-me, Camões, pensar em ti,

Em teu grande destino malogrado

De marinheiro, de herói, soldado,

De outras misérias que também vivi.

Espelho meu, não no talento, e sim

Nas mil tribulações que me assolaram;

Demasiados erros sobejaram

E foi por isso que fiquei assim...

Fui, como tu, um nômade guerreiro:

Meus navios sem rumo naufragaram

Num Oriente ao oriente do Oriente...

E também como tu, sob o arqueiro

Cruel, meus anos tristes se passaram,

Sem esquecer daquele Amor ardente.

XL

Que sono mais cruel. De cinza e rocha,

Este que agora sobre mim desaba;

Parece vir do fim do mundo e acaba,

Como a última flor que desabrocha.

E tudo isto aconteceu por sorte

(Ou por azar, não sei...) Sei que o acaso

Foi quem me fez assim, soturno, raso

Equilíbrio sutil de vida e morte.

O acaso foi o deus que comandou

A minha toda, e eis porquê

Este sono fatal me acompanhou

Por toda a estrada afora, percorrida

Entre a noite fechada que me lê

E aquela aurora desaparecida.

XLII

Eu sou o que sonhei num amanhã distante

E o que de tanto ter sonhado adormeci.

Eu sou o que pensei pensar do que não vi:

Somente imaginei num verso delirante.

Eu sou o amanhecer da noite coruscante

Aonde aconteceu, quando eu me aconteci,

A inútil redundância inútil que vivi

Das esperas sem fim de que me fiz amante.

Eu sou o amanhecer, eterno Mar sem porto

Do Inferno em que desci, como desceu o Dante,

Da noite sem final em que um canto flui;

Ó jovens do porvir para quem já sou morto,

A mágoa de sorrir num riso soluçante

Foi o único som da música que fui.