Arte Cearense

Pintura de T. Silva

Mãe da Seca

O artista plástico T.Silva desenvolve trabalhos em escultura, pintura, xilogravura. Fez, ao longo de seu percurso como criador, cursos de extensão artística com Descartes Gadelha, Sérvulo Esmeraldo, Jane Sanders. Já tive trabalhos reconhecidos pela crítica, sendo premiada no Salão de Abril e Unifor Plástica

Poemas de Virgílio Maia

Pesadelo

Se procuro dormir, ele me chega,

Reclamando momentos de pavor.

Perpassando meu sono ele carrega

A mim, ao sono, ao sonho, ao meu torpor.

Queda sem fim, que o poço é infinito;

Na vertigem da queda eis que me acordo,

Pois que inexiste, entre Morfeu e grito,

Ainda remotamente algum acordo.

Acordar. Acordar, mesmo sabendo

Que é a vida visagem que o destino

Estrema como quer, que é pesadelo.

Dormir, sonhar. Dormir, embora tendo,

Atando a vida ao sono, em paralelo,

A cada noite o mesmo desatino.

A lua na goiabeira

Ela surgiu, não plena, mas minguante,

Entre galhos da seca goiabeira.

Selênica subiu, se fez distante,

Repetindo no azul a clara esteira.

Lunar partiu, qual fora a derradeira,

Seguindo pelo céu, extravagante,

Deixando a goiabeira num instante

Desenfeitada e só a noite inteira.

Apenas luna, luna ela seguiu,

Se indo vã para os lados do poente,

Restando a só pergunta: por que a gente

Sempre lhe volta esperançado olhar,

Sem receber, sequer, simples olá,

Da lune, moon que chega e já partiu?

Itinerário de um verso

Ao poente da estrela derradeira

Ele se fez pipilo inaugural,

Refulgindo em feitio de graal

No verde da manhã, por brincadeira.

Com pétalas deitou-se, em tal maneira

Encantadas de noite e de luar,

Que quase se esqueceu de ir namorar

Morena namorada a tarde inteira.

Resvalou no poente cor de âmbar,

Sendo visto à noitinha lá no bar,

Entre doses de cana e pantomimas.

Depois, o fim: um sonetista alheio

Às dores da poesia pôs-lhe freio

De métrica, de estrofes e de rimas.

Paulo Afonso

A um só toque de mão o sol se faz

Na multidão de luzes acendidas.

Que enorme pirilampo e de onde o traz,

Por distâncias a fio percorridas,

Contadas só nas torres esquecidas

Nas desertas caatingas do jamais?

Da rija natureza posta audaz,

No forcejar das gotas que, colhidas

Uma após outra, na última nascente,

Se arrojam todas, rio, de repente,

Em turbilhão de espumas na turbina.

Da força d'água que morrendo gera

Uma outra força, elétrica morena,

Que gela e tange, aquece ou ilumina.

Sobre o autor

Poeta, cronista e pesquisador cultural. Membro da Academia Cearense de Letras.