Arte Cearense

Pintura de Aderson Medeiros

Sem Título

Aderson Tavares Medeiros dedica-se à pintura, à escultura, bem como ao ensino sobre as artes plásticas. Em 1972, foi destacado com o primeiro prêmio na Bienal Nacional de São Paulo. Sua singularidade reside num busca permanente de novas temáticas e formas de expressão


Poemas de Dimas Carvalho

 XXXV

Latifúndio da Noite, onde me vejo

Como um espelho quebrado, bipartido;

Sou como um rio imenso, dividido

Entre o passado e o que pra mim prevejo.

Sou o que não tive, o que desejo

E o que nunca jamais será cumprido;

Minha vida terá acontecido

Além da Porta antiga que prevejo.

Latifúndio da Noite, onde perdi

O que na vida nunca consegui

E onde espero a aurora inalcançada;

Sou as águas do rio preterido

E sou também a treva, o esquecido

Portão de vento que me leva ao Nada.

XXXVII

Ó melopéia chã, flauta de aldeia

Que incendeia ao barco o remo e a vela;

Ó cantiga ancestral feita de areia

Em que a vida volta e se desvela.

Ò melopéia mais arcaica, aquela

Que não tem curso ou norte ou rumo ou peia,

Que parece pintada em aquarela

E sobre o vento vão uiva e vagueia.

Ó música esquecida entre os espelhos

Das catedrais imensas preteridas

Nas quais perdi a vida de joelhos;

Ó cantigas de bruma que ficaram

Nas ruas da infância adormecid

E que os sóis de outrora sepultaram.

Xxxvi

Mudo todos os dias; vou mudando

À medida em que o tempo, transcorrendo,

Concomitantemente vai fazendo

E desfazendo o meu onde, e quando.

Se mudo, e se vou me transformando

Num outro ser, que vai em mim nascendo,

É porque continuamente vou morrendo,

Qual semente no solo penetrando.

Eu mudo todo dia e, ao mudar

Num outro ser, metamorfoseando

Vou o antigo ser que ainda estou sendo.

Sou e não sou perene transformar,

Pois permaneço de algum modo tendo

Dentro de mim tudo o que foi passando.

XXXVIII

Havia um Rei, um Rei que foi traído

E que ora jaz no exílio, um Rei deposto;

Num combate cruel no mês de agosto

O exército real foi destruído.

Havia um Rei, e totalmente oposto

Ao Império que tem submetido

A Terra toda, e o Mar tem poluído

Onde sua pata negra ele tem posto.

E eu tombei, tal qual o Rei vencido;

E eu tombei, como tomba um corpo morto

E como se nada houvesse acontecido

O mundo continuou com o seu bramido:

Meu navio adernou; dentro do Porto,

Nas águas afundei, sem um gemido.

Sobre o autor

Dimas Carvalho é natural de Acaraú. Mestre do verso livre e do metrificado. Cultiva também a ficção