Arte Cearense

Pintura de Heloysa Juaçaba

Sem Título

A artista plástica Heloysa Juaçaba nasceu na Serra de Guaramiranga, tendo iniciado a sua carreira nos anos 50, na extinta Sociedade Cearense de Artes Plásticas (Scap). Uma das singularidades de sua expressão artística reside na delicadeza das formas e do jogo de cores

 

 

Poemas de Cláudio Martins

Lamento

Por que me queixo eu e me atormento

Por não sentir-me amado, amando tanto?...

Qual a razão de ser do desencanto

Que me transforma a vida em desalento?

Fazer-me uma exceção às vezes tento

E, cego e surdo, insisto na procura

Da irreal perfeição, uma aventura

Que mais e mais aumenta meu tormento.

Se a dúvida incomoda, o desalento,

Quem sabe, insegurança, me amargura,

Gerando a inquietude em que, sedento,

Vou-me engolfando. Porém, só tortura

Rende-me a busca vã, pois meu tormento

Persiste, recrudesce e não tem cura.

Confesso minha inveja

Confesso minha inveja ao que acredita

Numa vida futura, sem maldade,

Vida pura, escudada na bondade,

Imune às frustrações e à desdita.

Invejo o que aceita o sofrimento

Como fato normal ou provação,

Teste, mas necessário, condição

Para junto aos eleitos ter assento.

Sofrer, e fazer disso o instrumento

Da própria salvação, é desejável;

Portanto, sinto inveja e me lamento,

Pois que, em nada disso acreditando,

Acresço a desventura inelutável

Que esta descrença cruel vai agravando.

Esforço vão

Não sei como vencer esta descrença

A que meu desespero me condena.

Eu vejo em toda parte indiferença

Tal uma praga transmudada em pena.

Em meio a essa turbação imensa

Envido esforços por tornar serena

A luta a que me voto, luta intensa

Em prol duma vivência mais amena.

Esforço vão, eu sei. Infelizmente

O mundo me envolve na torrente

De egoísmos inimagináveis.

E ao intentar desse grilhão safar-me

Mais a descrença insiste em castigar-me

Tornando os desacertos infindáveis.

Soneto 24

Dizem que o amor é praga que só pega

Quando rogada com sabedoria,

Mas eu creio, nem acolheria

Falso conceito, que a razão renega.

A verdadeira praga em si carrega

O travo da maldade, nua e fria.

O amor tem tudo isso mas varia

Em pormenores que ninguém lhe nega.

A praga fere, amor fere e deleita,

A praga é sempre má, o amor enfeita

De cuidado e ciúme o que queremos.

Se nos pega uma praga, Deus ajuda,

Mas se pega o amor, ninguém se iluda:

Amando não importa se sofremos.

Sobre o autor

Foi membro da Academia Cearense de Letras. Dedicou-se, também, a ensaios jurídicos