Arte Cearense

Pintura de Mano Alencar

Sem Título

O artista plástico Mano Alencar, depois de percorrer o universo do desenho ou das pinturas que primavam pela definição dos traços de seres e coisas, passou, de maneira intensa, a penetrar no universo da abstração, tornando-se um dos mais importantes dessa corrente

Poemas de Martinho Rodrigues

A presença de meu pai

O Evangelho permanece aberto,

O paletó sobre a velha cadeira,

Seus óculos junto à penteadeira,

A minha mãe postada ali bem perto

Só o silêncio ecoa no deserto

Em que se transformou a casa inteira

Naquela manhã... Junto à cabeceira

Da cama a sua Bíblia. O mais certo

Dos acontecimentos sobreviera

Aos oitenta e seis anos de espera.

Hoje não mais se ouve a sua voz...

Mas, nos exemplos de austeridade,

Reconhecemos o muito que há de

Seu caráter em cada um de nós.

A quem merece amor!

Te amo, meu amor, te amor por

Seres quem és, e tenho muito mais

Porque te amar com um bem que se refaz

Na impossibilidade desse Amor.

Te amo assim, talvez, como um impostor:

Com esse Amor que em si me satisfaz.

Te amo, sim, com esse Amor-demais!

Que por demais mereces, meu amor.

Te amo, como não se ama a ninguém.

Sem se importar se me faz mal ou bem,

Sempre há de fazer bem o bem de amar.

Te amo, enfim, sem nunca ter-te amado,

Resignadamente-incomodado,

Amando um Amor que não me é dado amar.

Soneto do desencontro

Quando chegaste o dia estava lindo!...

Mas o tempo nos havi'enganado.

Não tínhamos futuro, nem passado,

Mesmo chorando, te abracei sorrindo.

Quando chegaste eu já estava indo.

Era tarde pra ouvir o teu chamado.

Na curva do caminho, desolado,

Senti a própria vida me fugindo.

Quando chegaste eu tinha as mãos vazias,

Tinhas do sol o brilho em teus cabelos

E minhas lágrimas em teu vestido.

Quando chegaste alegre não sabias

Que o tempo ignorou nossos apelos.

Não pôde o Amor cumprir o prometido.

Respondendo ao Arsênio

Arsênio - tem razão - meu bom amigo:

Tenho tempo, me falta a inspiração.

Algumas vezes tento, não consigo.

Culpar os meus clientes? - Isto, não!

São poucos - o bastante - e lhe digo:

Não podem ser desculpa. Mas, então,

Onde andará aquele enleio antigo

Que em outros tempos sempre tive à mão?

Você, que dela goza a intimidade,

Interceda por mim, eu pediria.

Se a destratei, lamento. Em verdade,

Se tenho cometido uma heresia,

Incompetência foi, não foi maldade.

Por mim, peça desculpas à Poesia.

Sobre o Autor

Martinho Rodrigues é médico, membro da Sobrames e autor de "Manhãs de Sábado".