Arte Cearense

Pintura de José Fernandes

Casario

Natural de Fortaleza, transpõe para a sua arte o sol e as cores fortes desta cidade. Começou pintando figuras humanas, depois paisagens, com uma tendência ao impressionismo e busca de harmonia com a natureza - uma verdadeira festa ao olhar do contemplador

 


Poemas de Quintino Cunha

A piracema

Aqui é um lago, feito de água clara;

Visualmente negro se mostrando;

Calmo que sobre si passa uma igara,

Como no espaço um passarinho voando.

Sol, das dez da manhã. O amor compara

Este quadro à virtude. Um vento brando...

Mas lá fora no rio. Ele aqui para,

O lago, a mata e o Céu quietos deixando.

Do anivelado espelho d'água, apenas

Manchado levemente por pequenas

Nódoas que lhe colorem, nódoas cérulas,

Aos bandos, as sardinhas vão surgindo,

Frágeis, cambiantes, rápidas fugindo,

Como travessas conchas madrepérolas.

Rui Morto

Celebração complexa e o primeiro

Dos grandes homens nacionais em tudo.

Continente a viver do conteúdo

De si mesmo, na Pátria e no estrangeiro.

De virtudes, um másculo pioneiro;

Da nossa Liberdade, eterno escudo;

Deram-lhe tudo, menos sobretudo,

A direção do povo brasileiro!

Vivo, não fora a tanto necessário...

Morto, é tão grande, é tão extraordinário,

Que encontra, em cada Estrela, um cemitério!

De onde passo a ilagir, um tanto aflito:

Ou o Rui foi menos do que se tem dito,

Ou este nosso Brasil é um caso sério...


Vista ignota

Há um ruído infernal, dentro do leito

Do rio. A lontra rosna. A capivara

Espavorida esconde-se no estreito

De um paraná, que a enchente ali formara.

O jacaré, levando tudo de eito,

Foge, estrugindo horrivelmente; e, para

Mais aumentar o grande ruído feito,

O rio inteiro se convulsionara...

E, enquanto em medo tudo se alvorota,

Nesta paisagem visualmente ignota,

Mas facilmente do índio percebida,

Uma anta firme, calma que arrebata,

Corta o fundo das éguas, distraída,

Como se fosse andando pela mata!...


Nublado

O Sol quis ver a terra hoje. A invernia

Só uma nuvem formou no firmamento;

Queria vê-la, ao menos um momento,

Mas mesmo esse momento não podia:

Porque o sombrio, o torvo, o pardacento

Dessa nuvem ao Sol não permitia

Ver uma flor, sequer. Passou-se um dia

Quase que num perfeito enlutamento.

Quis ver a Terra, mas a tarde veio,

Depois a noute, que o ocultou no meio

Dos seus escuros e tristonhos folhos!

Maria, eu sou direito esse sol-posto:

Há dias em que a nuvem de um desgosto

Não quer que eu veja a terra dos teus olhos! ...
 

Sobre o autor

Quintino Cunha (1875/1943), além de poeta, consagrou-se como repentista de humor fino