Arte Cearense

Pintura de Belchior

Sem título

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, ou, simplesmente, Belchior, nasceu em (Sobral, aos 26 de outubro de 1946. Autor de clássicos da MPB como "Paralelas"; "Como nossos País"; dentre tantos, é dono de profunda cultura humanista e com intimidade com a pintura

Pintura de Jorge Tufic

 

O vinho do místico

Testemunhas de mim são as garrafas.
Louvo, ao secá-las, ao meu bom Khayyam.
Ao néctar místico lançam-se tarrafas,
E a pesca é boa quando a vida é sã.
Embriago-me de Deus toda manhã,
Verticalizo a dor como as girafas.
Alcanço a plenitude. Adoro Pã,
Danço longe do tédio e das estafas.
Meu turbante rebrilha. Posto em lótus,
Ultrapasso o Nirvana e tiro fotos
Da solidão mais cósmica do além.
Bebo com Deus a chuva que ele ama.
É sempre bom beber. O vinho é chama
Que se transmuda como lhe convém.

O Cristo de Saramago

A rede, sim, transluz-se e colhe o peixe.
A terra é sangue, inútil proteção
Ao cordeiro aflitivo - que se o deixe
Manumisso da horrível sagração.
A tempestade, o mar, o rubro feixe
Se azula em mim nos touros de um clarão...
Ventos, parai! Que o mundo não se queixe
Dessa fúria de Deus em minha mão.
Que são curas, milagres como o vinho,
Meus pássaros de areia, o gesto santo
No adiar-se a vida para mais caminho
Uma simples mulher curou-me, um dia,
Das chagas com suas lágrimas; e o quanto
Dera-me alívio à cruz donde eu pendia.
Soneto às borboletas
Sempre dou baixa aos dias na folhinha.
Porém, quanto mais risco, mais florescem,
Quer nos blocos seguintes, quer na minha
Janela aberta aos outros que amanhecem.
Não sei das vezes que a esse gesto eu vinha
Dando o meu tempo que as aranhas tecem;
Tantos dias iguais, seja à tardinha,
Seja às estrelas quando resplandecem.
Montões de calendários tomam conta
De algumas prateleiras que derramam
Velhos papéis inúteis, dessa monta.
Números, datas, portas e janelas,
Foram, decerto, árvores que inflamam
Para os céus borboletas amarelas.

Restinga's Bar

Sou tão frágil, meu bem, que um som, de leve
Pode ser-me fatal como o teu beijo:
Qualquer música brega, qualquer frase
Pode ser-me fatal. E, assim, não deve
A brisa andar tão próxima à tormenta,
Como não deve o ritmo da valsa
Transformar-se em punhais; a vida é breve
E aquilo que é demais logo arrebenta.
Sou tão frágil, meu bem, que nada pode
Separar-me de ti. Teu nome é um sonho
Que navega em meu sonho. Tenho pena
De tudo, algo me aflige e me sacode.
Desliga esse Gardel, bota um canário
Em vez do som, da voz que me condena.

Sobre o autor

Nascido no Acre, escolheu Fortaleza como sua cidade definitiva. É também ensaísta e ficcionista.