Arte Cearense

Pintura de Audifax Rios

Sem título

Audifax Rios é, antes de tudo, um artista plural, uma vez que se dedica, além da pintura, em que inscreveu uma marca singularíssima, dispensando, portanto, a assinatura, à crônica e ao romance, ao conto, à ilustração, sendo participante ativo de nossa vida cultural

 

 

 

Poemas de Pe. Antônio Tomás

Desenganos

Muitas vezes sonhei nos tempos idos

Acalentando sonhos de ventura,

Então a voz da lira suave e pura

Era-me um gozo d'alma e dos sentidos.

Hoje, vejo meus sonhos convertidos

Num acervo de dor e de amargura

E percorro da vida a estrada escura

Recalcando no peito os meus gemidos...

E se tento cantar, como remédio

Minhas mágoas ao sombrio tédio

Que lentamente as forças me quebranta

Os sons que arranco à pobre lira agora

Mais parecem soluços de quem chora

Do que a doce toada de quem canta.

Voltando a casa

Passei um mês, um mês inteiro, fora

Do meu lar, sem ouvir meus passarinhos,

Sem ver o louro bando de amiguinhos

Que aí deixei! Cruel, longa demora!

Mas, afinal, eis-me de volta agora,

E na ânsia de ver os coitadinhos,

Que suspiram talvez por meus carinhos,

Fustigo o meu corcel, que o chão devora.

Avisto a casa além, dobro a tortura

Que dela me separa... Oh! que ventura

Eu sinto na alma ao ir-me aproximando!

Chego ao portal, puxo o ferrolho e entro,

E me recebem pela sala a dentro

Crianças rindo e pássaros cantando.

A morte do Jangadeiro

Ao sopro do terral abrindo a vela,

Na esteira azul das águas arrastada,

Segue veloz a intrépida jangada

Entre os uivos do mar que se encapela.

Prudente, o jangadeiro se acautela

Contra os mil acidentes da jornada;

Fazem-lhe, entanto, guerra encarniçada

O vento, a chuva, os raios, a procela.

Súbito, um raio o prostra e, furioso,

Da jangada o despeja n´água escura;

E, em brancos véus de espuma, o desditoso.

Envolve e traga a onda intumescida,

Dando-lhe, assim, mortalha e sepultura

O mesmo mar que o pão lhe dera em vida

Contraste

Quando partimos, no vigor dos anos,

Da vida pela estrada florescente,

As esperanças vão conosco à frente,

E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres e ufanos,

Vamos marchando, descuidosamente...

Eis que chega a velhice de repente,

Desfazendo as ilusões, matando enganos.

Então, nos enxergamos claramente

Quanto a existência é rápida e fugaz,

E vemos que sucede exatamente

O contrario dos tempos de rapaz:

- Os desenganos vão conosco a frente,

E as esperanças vão ficando atrás!

Sobre o autor

Pe. Antônio Tomás Padre (Acaraú 1868 - Fortaleza 1941) foi o primeiro Príncipe dos Poetas Cearenses