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Pintura de Vlamir de Sousa

Sem título

Vlamir de Sousa - descendente de uma família de artistas, Vlamir é desenhista, pintor, escultor e restaurador. O que mais surpreende, em termos de construção de uma obra, pouco importa o gênero em que se enquadre, é, antes de tudo, a capacidade do artista em relê cenas do cotidiano, para, por sobre elas, repousar um modo singular de colher as manifestações do que funde passado e presente

Poemas de Cláudio Neves

I

O sorriso do morto é sempre outro,
uma vez cínico, outra sem razão,
e cada vez que torno a ele não
sei se desdenha ou me toma por louco.

O sorriso do morto no retrato
é mais que ele me sorrir na estante,
e mais exato quanto mais distante
do que sorria quando do meu lado.

Sorri tal como foi fotografado,
na idade que quiseram que ficasse,
de terno cinza e gravata impecável.

Lembro-lhe a boca inerte e tão mutável
na longa noite em que talvez testasse
o sortilégio então recém-herdado.

II

Amor, um gesto, uma palavra
não detém seu curso, suas águas.
Não se sabe se nasceu, se ali já estava
à espreita, afeito àquele canto da sala.

Amor, nem gesto nem palavra:
teus olhos e eu saber que me faltavam,
tua sombra e a minha na foto de viagem
e a súbita noção de liberdade.

Amor, a lenda diz: seus olhos se detinham,
ocultos na penumbra, sobre a amada,
vigiando-lhe o sono, as curvas eriçadas.

Amor, a intuição de curva em todo espaço,
esse hiato, esse espanto debruçado
sobre uma ideia sequer começada.

III

O agora é agora, como sempre, nossa roupa,
única, embora pareça emprestada,
nem sabemos de quem, mas ora larga,
ou ora não combina com a gravata.

O agora é agora, mais que roupa, nossa casa,
embora alheia à náusea e à posição
que temos quanto encolhidos no chão
esperando que passe a trovoada.

O agora é sempre e, como sempre, nada:
linha de louco que um menino inventa
e a diz de fogo, e que nos tolda a dança.

Linha de espuma, que, conforme avança,
suga a distância ou a ele se acrescenta
como a tarde à noite, a aurora à madrugada.

IV

Mera e moral cigarra de uma tarde,
de um verão que ouço ainda e me deserda
como a um filho, por causa da nora
louca e loquaz, e talvez infiel.

Som inespacial, por isso obsidente,
indecifrável contraponto ou sobra
de um céu profundo, de uma trepadeira
gretando um muro para sempre ela.

Cigarra fútil, lembrança acessória
se comparada aos mortos que a ouviram
ou se metáfora do pensamento.

Mera e moral aquela tarde e tudo nela,
como se agora e eu de quando eu era
tão imortal quanto a lembrança dela.