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Pintura de Fernando França

Sem titulo

O artista plástico Fernando França percorre caminhos os mais diversos, sempre em busca de novas linguagens, de novas possibilidades por que explorar o seu potencial como criador; desse modo, sua pintura está sempre em evolução, bem como surpreende pela maneira singular com que desenvolve suas temáticas. O artista também se dedica ao ensaio literário, tendo estudo a obra de Carlos Drummond

Poemas de Jorge Tufic

Registro no etéreo

Perdi minha agenda
com meus poemas de bar.
Em que mãos estarão
[ se desfazendo
aquelas folhas de
[ manuscritos ilegíveis?
E os endereços e telefones
[ anotados?
E as caricaturas de artistas
que viram meu nariz
dobrando a Via-Láctea?

Em que mãos andarão
[ as circunstâncias
do vivo e do morto,
do calendário vencido
e das frases incompletas?

As três porcas

Uma coisa me olha
[desde que nasci.
Outra coisa me suga.
E ainda sobra uma terceira
que, lenta e pacientemente,
vai desfolhando os meus dias
como quem toca um realejo.

A poesia incomoda

Como todo brilho
[ à contramão,
a poesia é a que mais
[ incomoda.
Mas o tantinho que a
[ poesia incomoda
nem se compara ao
[ que incomoda a poesia.
Pois tudo incomoda a poesia.
Qualquer mesmice
[ estratificada,
incomoda a poesia.
Os sinos incomodam
[ a poesia.
O anúncio de coisa nenhuma
incomoda a poesia.

A herança

Por baixo de meus chinelos
passa um gato.
Por baixo do gato
passa um muro.
Por baixo do muro
passa um cântaro
e uma cisterna.
Por baixo da cisterna
passa a chave de um cofre
vendido ao ferro-velho.

9

Quem já ouvira ou lera
sobre os pássaros da Rússia?

E as chuvas que alagam
os campos do Marajó?

No entanto
pássaros e chuvas
são móveis do espaço.

Passam, mas ficam.
Como a escrita revela
As fraturas do algoz.