Matéria-1247600

Pintura de Descartes Gadelha

Lavadeira Retirante

O artista plástico Descartes Gadelha, nascido na cidade de Fortaleza, aos 18 de junho de 1943 é, sem sombra de dúvida, um dos mais criativos, inquietos e surpreendeste criadores de nossa contemporaneidade. Ainda que concentre mais a dedicação à pintura - ocasião em que palmilha diversos gêneros e caminhos estéticos -, na escultura também se apresenta grandioso, como, por exemplo, quando se lançou à empreitada de esculpir a saga de Canudos

Poemas de Francisco Carvalho

Verdade

Minha verdade é um punhado

de sonhos extraviados.

minha verdade são os mortos

que pelejam contra mim.

são as palavras e a marca

do seu reflexo no espelho.

minha verdade é este sangue

da noite desmoronada.

minha verdade é a memória

do meu remorso bastardo.

minha verdade é a incerteza

do tempo que nos rumina.

minha verdade é esta insônia

que me atravessa a retina

como uma flecha de areia

que abrisse a carne da rima.

minha verdade é esta negra

ronda do corpo e da alma

este saber que me iludo

e este cansaço de tudo.



Borboleta

Qual mensageiro da chuva,

a borboleta amarela

ou chega pelo telhado

ou entra pela janela.

Como se fosse uma nuvem

que anuncia as tempestades,

traz os aromas do inverno

dentro das asas molhadas.

Nas paredes, nos retratos

pousa o corpo de veludo.

Ali permanece imóvel

à espera dos ventos frios.

Só regressa quando chove

nas cabeceiras dos rios.



Poema da embriaguez

Bebem uns por desprazer,

astros, flor, vinho, absinto.

Bebem Deus para o esquecer.

Eu só bebo o que não sinto.

Outros bebem por desvelo,

solidões, o amor que dói.

Bebem Deus para esquecê-lo.

Eu só bebo o que não foi.

Outros bebem sal do mar,

azuis de ontem e de hoje.

Bebem Deus para o matar.

Eu só bebo o que me foge.

Alguns bebem céus e ventos,

som, memória, espera e gesso.

Bebem Deus e anjos imensos.

Eu só bebo o que me esqueço.



Escada do paraíso

Corpo feito de vagas

agitadas e búzios

sonolentos. Oh corpo

de mulher, entre medusas

e portulanos de areia.

Corpo seduzido pela

luminosidade dos cardumes

pelo movimento sinuoso

das marés. Oh corpo

de terracota e cristal.

Corpo aderido ao sexo

de Deus. Corpo nu

de gaivota em tarde azul

escada do paraíso.

Oh corpo varando a noite

E o dia em diagonal.

Corpo, oh corpo de lava

e lêvedo, fendido

pela cintura de um deus:

eu te celebro nesta

canção. Vertente e foz

dos pecados capitais.