Matéria-1242720

Pintura de Antônio Bandeira

Sem título

Antônio Bandeira nasceu na cidade de Fortaleza aos 26 de maio de 1922 e faleceu em Paris, 6 de outubro de 1967. Notabilizou-se como pintor e desenhista, sendo, hoje, um dos mais valorizados pintores brasileiros, uma vez que suas obras estão presentes nas maiores coleções particulares e nos mais renomados museus do Brasil, da Europa e dos Estados Unidos.

Poemas de Jáder de Carvalho

Galo

Galo do meu sertão,

relógio sonoro das madrugadas,

ontem, não cantaste no meu terreiro.

Por quê?

Doente? Esquecido? Ou acasalado?

Eu nunca te disse que o teu canto

é a hora exata do nosso aconchego:

o meu e o dela?

Tua voz se mistura aos nossos

[ cochilos cautelosos.

E é certo que ela e eu despertamos

[ ao mesmo instante.

De olhos ainda com sono,

Ana me vê pelo olfato

e, às vezes, o caminho nasce

[ da minha pergunta:

- Não sabes mais o rumo da nossa rede?

Ontem, ó galo, não cantaste.

Os teus ponteiros de ouro, ó meu relógio,

não se moveram à véspera do amanhecer.

Mas nós te perdoamos.

Também deves ter, como nós,

hora marcada para o coração.

O circo chegou

O circo chegou.

Foi logo armado na Praça da Matriz

da cidadezinha do sertão.

Escolheram-se os meninos

que seguiriam o palhaço na rua:

- Hoje tem espetáculo?

- Tem, sim senhor.

E também:

- É ladrão de mulher?

- É!

Todos nós, meninos,

éramos marcados com tinta, na testa,

para a entrada de graça no espetáculo.

Padre Antonio Tomaz,

poeta cearense de poucos e grandes sonetos,

disse, num deles, a respeito de um palhaço:

"Enquanto o lábio trêmulo gargalha,

dentro do peito o coração soluça".

Hoje, quem soluça sou eu,

com saudade da infância e do circo.

Chove, chuva!

Chove, chuva! Chove, chuva!

Chove, molha o algodoal.

Vem molhar, bem molhadinhos,

minha cansada fazenda,

meu ardente coração!

A água desce do serrote.

A água espuma no riacho.

A água esturra nos lajedos.

A água se enrosca no açude,

depois de apagar estrelas,

depois de banhar meu rastro

no terreiro da Maria.

E eu falo em nome da terra:

- Bastião, convida a Zefa!

Zefa, apaga a lamparina,

fecha logo a camarinha:

cabem dois na mesma rede...

A seca levou irmãos.

Paraná chamou vaqueiros,

lavrados e vadios.

E o velho rio do Norte,

quer chova, quer faça sol,

hipnotiza de longe:

ah, jiboia dos seiscentos!

A terra, Zefa, não pode,

não deve ficar sozinha.

Bastião, a terra é ótima,

talvez a melhor do mundo:

- É bom não perder a chuva!

- É bom plantar um menino!

Trova

Meu olhar é um lampião,

vertendo, em luz dolorida,

toda uma velha paixão

na esquina da tua vida.