Ciberespaço: vivo e sem limites

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O prefixo "ciber" se refere ao suporte digital; o termo ciberespaço foi utilizado pela primeira vez pelo escritor William Gibson (LEVY, 2000) em seu romance Neuromante, em 1984, para se referir ao universo das redes digitais, o palco dos conflitos mundiais, a nova fronteira econômica e cultural.

O ciberespaço se define "como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores" (LEVY, 2000, p. 85). Uma das funções principais do ciberespaço é o aceso a diversos recursos de outro computador, fazendo com que não seja necessário ter um computador potente, mas um que encontre outro computador que esteja com o cálculo disponível, e que seja possível acessar a memória dele mesmo que seja a distância. Por exemplo, uma pessoa que está no Ceará pode ter acesso aos documentos diplomáticos norte-americanos através do site sueco Wikileaks3, mesmo que tais documentos estejam em Washington, capital dos Estados Unidos, pois eles foram disponíveis de forma pública, ou seja, qualquer pessoa pode acessá-lo, independentemente da localidade do seu suporte físico.

Das funções

Além de olhar, é possível navegar, escutar, e até mesmo editar arquivos que estejam em uma memória distante, sendo possível que uma comunidade inteira utilize, assim, uma telememória para se comunicar, compartilhando dados independentemente de sua localização física. Exemplo disto é o projeto #DoePalavras, onde pessoas de qualquer lugar do mundo podem contribuir escrevendo mensagens de apoio para pacientes com câncer do Instituto Mário Penna. Tais mensagens vão sendo atualizadas automaticamente no site e sendo disponíveis para todos os pacientes através de monitores espalhados pelos corredores do hospital:

Outra função importante do ciberespaço é a transferência de dados, ou upload, que é a transferência de um arquivo do computador para a Internet5, sem que ele desapareça da memória do computador. O arquivo só poderá ser acessado caso o usuário permita; a pessoa pode, por exemplo, upar6 um e-book7 na Internet e deixá-lo com acesso público, permitindo que todos tenham acesso a ele, e que a distribuição aconteça de forma rápida. Ou exigir que as pessoas tenham uma senha, ou paguem uma taxa parao acesso.

O elemento-chave

A troca de mensagens é talvez a função mais importante do ciberespaço, cada pessoa pode ter inúmeros correios eletrônicos, numa espécie de caixa-postal, que são identificados por um endereço, onde cada usuário pode receber ou enviar mensagens multimoldais para qualquer usuário que também possua, assim, um correio eletrônico

Um grupo de pessoas também pode se comunicar através de conferência eletrônica, que é um dispositivo que permite que vários usuários debatam sobre um mesmo tema organizado em tópicos e subtópicos. As mensagens são direcionadas ao grupo, mas também podem ser direcionadas a um membro, que são encontrados não pelos seus nomes, mas pelos seus interesses em comum. Os participantes do grupo utilizam um novo estilo de escrita e interação.

Newsgroups

As conferências específicas da Internet são chamadas de newsgroups ou news, normalmente a comunicação do grupo não é gravada, mas quando se é integrado um sistema de pesquisa e indexação, tudo que é postado é incorporado a um banco de dados que está sendo atualizado constantemente por diversas pessoas se confrontando entre si. O que se torna confuso é diferenciar os tais bancos de dados dessas conferencias, com os documentos disponíveis on-line, pois eles não possuem o mesmo dinamismo das conferencias. Um exemplo disso é o site Wikipedia, caracterizado como uma enciclopédia viva, qualquer usuário pode editar os tópicos fazendo com que eles sejam dinâmicos e sempre atualizados, diferente de documentos disponíveis on-line, que perdem esse dinamismo, e constante atualização, mas se tornam mais confiáveis.

O ensino em grupo também permite que ocorra uma discussão coletiva e o acesso a bases de hiperdocumentos e simuladores. Um exemplo é o site Live Mocha10, onde o usuário pode fazer um curso de algum idioma de forma on-line, tendo acesso a simuladores, exercícios, e textos. A organização do trabalho também explora ao máximo os recursos de hiperdocumentos compartilhados, conferências eletrônicas, acesso, assim, a distância de arquivos.

A Internet é facilmente comparada a uma "biblioteca-discoteca ilustrada" (LÉVY, 2000, p. 91), com facilidade de acesso, em tempo real, interativo, participativo, impertinente e lúdico. Um verdadeiro acervo que cresce a cada segundo, que contém tudo que se possa imaginar, ou no mínimo uma referência, e que deve ser atualizado constantemente.

Das buscas

Existem duas atitudes bem perceptíveis sobre a busca na Internet. A primeira é a "caçada", onde procuramos algo especifico; a segunda é a "pilhagem", onde buscamos algo vago e que qualquer coisa pode chamar a nossa atenção, "derivamos de site em site, de link em link, recolhendo aqui e ali coisas de nossos interesses" (LÉVY, 2000, p. 85).

Os softwares aplicativos são programas que permitem prestar funções especificas aos usuários, fazendo com que o ciberespaço, além de ser um espaço virtual de comunicação, também trabalhe cada vez mais independentemente de seu suporte. No geral tais aplicativos são ligados ao processamento de dados, o que os diferencia de software do sistema operacional.

Detalhes

Todos os textos, imagens, sons, programas e afins estão disponíveis em um mundo virtual imenso e infinito, inacabado, a que todos têm acesso e está em constante transformação. Um computador, quando está ligado ao ciberespaço é apenas um nó, uma parte da rede, pois ele pode recorrer à memória e a capacidade de qualquer outro computador independentemente de sua localidade, encoraja um estilo de relacionamento quase independente dos lugares, horários e planejamento. O que ninguém previa é que essa rede de computadores causaria um movimento de virtualização da informação e da comunicação, modificando a vida social do homem.

O atual e o virtual

Tudo o que não é acessível ao ser humano, que tenha a ausência da existência, que exista apenas em potência e não em ato, se chama virtual, pois ele pretende se resolver na sua atualização por meio de alguma forma de exibição, antes da concretização. Seu uso é para significar a não concretização, uma dimensão importante da realidade; por enquanto a realidade significa a efetivação da matéria, a sua presença é tangível.

O atual é algo que está acontecendo no presente; o virtual é algo que pode acontecer, ele pertence a uma ilusão, um desejo de uma atualização, mas não significa que ele irá se atualizar de fato, ou da forma que foi imaginado.

Acredita-se, então que algo só pode ser real ou virtual, mas o virtual não se opõe ao real, e sim ao atual: as primeiras páginas de um livro é seu real, a ideia do livro finalizado é seu virtual, mas o livro pronto não é seu atual, já que ele ainda não existe; mas o atual nunca é completamente predeterminado pelo virtual.

O atual é o possível, o estático, é o já construído. O virtual possui uma tendência a se transformar exatamente em sua futura atualização, pois uma entidade já carrega e produz a sua virtualização, o que é essencial para ela. A atualização, então, é a solução de um problema, é a criação de uma configuração dinâmica pré-definida de força e de finalidade.

Do virtual

A virtualização é o contrário do atual. A virtualização é uma mutação de identidade, um deslocamento do seu eixo para um campo problemático. Para virtualizar uma entidade, é necessário a digitalização da informação: "a digitalização é o fundamento técnico da virtualidade" (LÉVY, 2000, p.46). O que foi digitalizado está situado em algum lugar de um determinado suporte, porém se encontra virtualmente presente em cada lugar da rede que está sendo solicitado.

Os membros de uma comunidade podem se reunir através dos mesmos interesses, sem ser necessário que todos estejam juntos em um lugar geográfico específico para promover seus debates, pois todos os membros móveis estarão reunidos em um lugar virtual, fazendo referência à cultura nômade, onde as interações sociais acontecem com o mínimo de inércia, utilizando um "sistema que permite o acesso compartilhado e a distância a documentos, fontes de informação, ou espaços de trabalho que nos aproximam progressivamente da comunicação por um mundo virtual" (LÉVY, 2000, p.81).

Uma das principais características do virtual é o desprendimento do aqui e agora; os seus elementos são desterritorializados, ficam independentes de um lugar geográfico ou de um tempo de calendário e relógio, mas não em sua totalidade; de algum modo, não se sabe onde e quando, mas o virtual tem um local e tempo específicos. Não podemos esquecer que necessita de um suporte físico para ser acessado. Um hiperdocumento, por exemplo, pode ser acessado em qualquer lugar, a qualquer hora, ocupando diversos espaços de uma única vez, mas isso só é possível, pois ele se encontra em sua forma virtual, e não física.

Considerações finais

Temos que considerar uma quantidade de tipos de espacialidade e duração para cada forma de vida, pois cada uma inventa seu mundo e, com esse mundo, um tempo e um espaço específico.

Existem vários sistemas que se recobrem, se deformam e se conectam; as durações se opõem, se interferem, e se respondem, cada sistema possui um ritmo, uma velocidade, uma qualidade.

A virtualização faz com que a narrativa clássica seja submetida a transmissões atuais sem um lugar geográfico específico, com uma continuidade de ação com uma duração descontinua. O clássico é apoiado em definições, determinações, exclusões, inclusões e terceiros excluídos.

Outra característica da virtualização é o efeito Moebius, que é a passagem do interior ao exterior, e vice-versa. O mesmo acontece com o privado e o público, próprio e o comum, objetivo e o subjetivo, autor e o leitor, entre tantos outros antônimos. Não há limites, os lugares e o tempo se misturam, as fronteiras que são nítidas no real, dão lugar a fractalização das repartições no virtual. A virtualização, além de afetar a comunicação e a informação, afeta também os corpos, a economia e a inteligência. (N.F.L.)

SAIBA MAIS

CASTELLS, Manuel. A Era da informação: economia, sociedade e cultura. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999

DIZARD JUNIOR, Wilson. A nova mídia: A comunicação de massa na era da informação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 2000.

___________, O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 2009.