Brincadeira de roda

Sucesso nacional na abertura da novela das oito, Gonzaguinha tem sua vida e sua obra revistas em DVD do programa Ensaio, da TV Cultura

Gravado em 1990, cerca de um ano antes de sua morte, no abril seguinte, o programa Ensaio, dirigido por Fernando Faro, nos reaproxima do cantor e compositor que está no ar atualmente com “E Vamos à Luta”, um daqueles sambas com que Gonzaguinha costumava despertar a atenção dos brasileiros para seu potencial. Apesar de percorrer seus maiores sucessos, o tema da abertura de “Duas Caras” não comparece. O que pode ser até interessante, em favor de outras criações deste carioca, filho de Luiz Gonzaga - morto no ano anterior e que na próxima quinta-feira completaria 95 anos.

Com direito a letras, o DVD - primeiro registro audiovisual digital oficial de Gonzaguinha - contempla outras belas músicas deste cantor que costumava provocar grandes emoções, como ao começar o programa com “Sangrando”, a capela, quase como uma oração: “Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda/Que palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando/Coração na boca, peito aberto, vou sangrando/São as lutas desta vida que eu estou cantando”... Então, vamos à luta, com o singular Gonzaguinha de corpo e alma, como sempre. De cara limpa, sem fazer “força pra cantar”, o “moleque” Luiz Gonzaga Jr parece flertar com um certo orgulho de estar naquele já célebre programa por onde tantos mitos da música brasileira apresentaram seus sucessos e até desvelaram alguns de seus segredos. “Como se fora brincadeira de roda”, brinca no final da jornada, lembrando a letra de “Redescobrir”, que continua: “memória”... Contextualização bem adequada ao programa de Faro, que reforça a recente biografia dupla lançada pela jornalista Regina Echeverria, “Gonzagão e Gonzaguinha - uma história brasileira”.

Do São Carlos, da Odaléia

Gonzaguinha se deixa levar pela emoção e a inteligência que lhe eram peculiares e canta apenas quatro canções nos primeiros 20 minutos do DVD. Um dos motivos descrevemos abaixo, ao responder a primeira questão de Faro sobre suas origens no São Carlos, bairro do Estácio. E também sua declaração final, já após outros tantos sucessos e antes de decretar, ao subir dos créditos: “Começaria Tudo Outra Vez”.

“Morro de São Carlos. Morro de São Carlos. Infância, construção da gente, muita gente. Jamelão, Libertad Lamarque. Cinema, Lupicínio, Noel Rosa, Ismael Silva, Pafúncio. Pafúncio quase ninguém conhece, ou melhor, só quem é da boca. Porque Pafúncio vendia peixe na subida do Morro. Vendia caranguejo, o que dava. E ficava lá, escrevendo, vinha um papel escrito. Eu era menino, nunca entendi direito. Só vim entender anos depois que realmente Pafúncio era um dos compositores mais considerados. E era um barato. Aí, aprendi o que já estava ali na minha frente o tempo todo. Logo eu, filho de Luiz Gonzaga e da Odaléia”.

Odaléia Guedes dos Santos, “cantora e compositora de músicas românticas, igual a seu filho”. Que continua: “uma pessoa voluntariosa, teimosa, uma pessoa moleque, no sentido que eu sou... Porque acreditava nas coisas e ia fundo nas coisas. Tão fundo que morreu cedo, de tuberculose”. E ainda: “E ela morre, mas me deixa nas mãos de duas pessoas fabulosas, meus padrinhos, Dona Dina e Henrique Xavier Pinheiro, o Baiano do Violão, por isso toco violão e não sanfona”. Ainda sobre os pais adotivos (na infância, Gonzagão estava sempre ausente, como descreve Echeverria): “Eles me ensinaram a ter paciência para chegar onde a gente quer. E me ensinaram a não deixar nunca de sonhar com as coisas e a acreditar nas pessoas. E eu acredito nas coisas e nas pessoas”.

A música para Odaléia, ele prefere só cantar o trecho: “minha menina, te amo”. Prefere cantar só essa parte porque “é mais relax” para ele. Diz que foi um dos dez mais vaiados do país com “Trem”, com que vencera o II Festival Univeristário. Canta apenas alguns versos. Antes ele havia falado ainda dos “bons elementos” no internato onde vivera (segundo Echeverria, talvez responsável pela sua primeira tuberculose). E ainda dos bons amigos, como Ivan Lins e Aldir Blanc, feitos na casa de seu “terceiro pai”, Aluízio Porto Carrero. Turma com que formou o MAU - Movimento Artístico Universitário. “Pra nossa proteção, pra que nos fortalecêssemos, já que não tinha muito espaço. Acabamos desembocando no programa Som Livre Exportação, da Globo. Depois, as pessoas seguiram cada um seu caminho”.

Parando o trem

Ele interrompe “O Trem” de vez para dizer que ela já continha a sua marca, a ironia. “Sou uma pessoa irônica, um grande gozador”. Diz que a música era complexa, não era lá muito popular em 69. E lembra do “gorila” que o vaiava ensandecido, o que o faz compartilhar com o pianista Luizinho Eça a sua impressão da loucura a seu redor. “Parei e fiquei olhando, e o Luizinho me dizendo para cantar. Sempre fui assim, meio calmo”, diz, interrompendo também sua imagem do “cantor-rancor”.

De seu primeiro disco, de 73, leva a emblemática faixa-título, “Comportamento Geral”. Fala de um show censurado à época. “Eles não queriam, mas a gente fazia. Como faria hoje, ‘se preciso fosse, meu amor’. E na verdade, continuo fazendo. Porque a gente continua lutando no dia-a-dia por uma qualidade melhor de vida, por um relacionamento melhor entre as pessoas, para acabar com esses desequilíbrios sociais”. Com a direção da câmera apontada para o seu olho, fala que vai continuar batalhando, como driblava a censura, “com muita calma e paciência”.

HENRIQUE NUNES
Repórter

Alegrias da vida

Gonzaguinha não perde a balada. Sem intervalo, fala que o segundo LP tinha uma capa pesada, uma quitanda abarrotada de frutas, correspondendo ao clima político. Na véspera do show de lançamento em São Paulo, na casa de Walter Franco, após umas andadas de velocípede, descobriu-se novamente com tuberculose, sendo obrigado a voltar ao Rio, dirigindo sua Variant. E aí, acompanhado por Fubá (triângulo) e Nenê (zabumba), entoa seu baião “Galope”, a tal quarta música do primeiro quarto do programa. E essa ele leva toda, com sua garra habitual.

Emenda improvisando uns versos e umas prosas, antes de “Com a Perna no Mundo”. Um samba de zabumba, prato e faca. E o emocionado guerreiro menino prossegue feliz: “É”, com sua “alegria de moleque” e no mesmo compasso de liberdade estética e “calor no coração”. Na mesma batida de um coração, “O que é o que é”, com uma alegria espontânea, rara, naquele programa tão sério, fazendo uma escola de samba, de vida, com o corpo do violão.

Fala da música da novela “Feijão Maravilha”, doutra sobre um certo “Trem da Alegria” e comenta sobre o samba-canção da Odaléia, antes de levar seu “Ponto de Interrogação”, unindo a tradição da levada com a modernidade de sua visão de mundo. No mesmo tom dramático, só no violão, “Grito de Alerta”, com um jeito de cantar além das notas, para quem sabe que suas músicas já são devidamente conhecidas.

E daí para o dedilhado de “Diga lá, coração” e logo “Espere por mim, morena” e “Explode coração”, um hino de um artista em pleno regozijo com sua criação. E do coração emerge, na seqüência, “Lindo Lago do Amor”, como se estivesse no seu quarto de adolescente, tirando suas primeiras canções.

Terno, Lua e despedida

Gonzaguinha lembra do pai, mas sem tristeza, explicando como o Lua praticamente criou a zabumba e o triângulo, no processo de elaboração do baião. Devidamente acompanhado de seu “terno”, com ele no “suingue miúdo” do seu violão, obviamente, “enrolando todo mundo três dias, o cameraman e o público de casa”, antes de atacar, então, de “Baião”, “Qui nem Jiló”, “Mangaratiba”, “Respeita Januário”, da lavra de Gonzagão e Humberto Teixeira. No meio, na voz do pai, fala das brigas de Humberto e Zé Dantas (pernambucano autor de “Riacho do Navio”, “A Volta da Asa Branca” e muitos outros sucessos do Lua).

Lembra ainda que o vate de Exu conhecia tudo quanto era motorista de caminhão pelas estradas que passou, sabendo seu destino e sua mercadoria só pelas placas dos veículos. “Qui nem Jiló” chega já só no violão, como emoção legítima. A ponto de juntá-la com alguns versos de “Lindo Lago do Amor”, novamente lembrada. Lembra que Gonzaga era dançarino “campeão” de Boogie Woogie (“Vira-e-Mexe’ é o maior jazz”) e, com genialidade, improvisa um tom jazzy, folk, para “Mangaratiba” e um blues para “Respeita Januário”, com uns aboios, uns apitos de trem que nem o “Luí”, nem o Willie Nelson fariam. Já “Vida de Viajante” vem à capela, só o refrão.

“É isso aí, muita estrada feita, muita estrada por fazer. Muitas coisas acontecendo, muitas coisas por acontecer. O negócio é o seguinte: Nasci no Morro de São Carlos, filho do Gonzagão e Odaléia, músicos, cantores, intérpretes. Filho de Dina, portuguesa que quando cantava perdia a voz. Filho de Henrique Xavier Pinehiro, Baiano do Violão. Meu violão está aqui. Faço samba porque sou do Morro de São Carlos. Faço baião porque sou do Morro de São Carlos. Carioca, adoro a minha terra. Rio de Janeiro é muito bonito, tenho muita saudade dos amigos e das pessoas, queridos companheiros. Louvo a todos eles e agradeço muito. Moro em Belo Horizonte, estou lá, tranqüilo e trabalho no sertão. Trabalho com as coisas e sonhos de meu pai. E feliz daquele que pode fazer isso. Felizmente, tenho sido muito ajudado pelos amigos de meu pai. E meu pai me deixou uma herança que não é para qualquer um. Ou melhor, é até para qualquer um. Muito crédito. Felizmente, eu tenho muito crédito. Por isso fica fácil, muito fácil de trabalhar e levar pra frente. Levar pra frente como tá gravado lá atraz, quando eu cantei ‘Vida de Viajante’ em 79. Deixa que elevo pra frente. Porque a alegria faz parte dessa herança. E meu caminho é esse, minha vida é andar por esse país. Da minha parte, todo mundo já sabe: ‘Começaria tudo outra vez/se preciso fosse”... Quanta chama.