Aves do arribação: o discurso ficcional de Antônio Sales

Há cem anos, Antônio Sales lançou a primeira edição do romance "Aves de Arribação" - uma obra sincrética

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Trata-se, antes de tudo, "Aves de arribação", de um romance de costumes, cujo narrador se comporta como um observador espontaneamente realista, que lança o olhar por sobre as minúcias de um cotidiano de uma cidadezinha do interior do Ceará - Ipuçaba -, expoente da "vida besta". Ao contrário dos ficcionistas contemporâneos ao autor, Antônio Sales não alicerça sua preocupação narrativa em retratar o drama da seca; desse modo, nada de "chão, rude, áspero mais de pedregulhos. Um que outro bode ou cabra nas escarpas"; então, o que se vê é uma natureza prodigiosa, a fornecer ora o alimento (o queijo, o leite, as frutas, e tudo o mais que se extrai das fazendas ou se adquire nas feiras-livres); ora a sombra fresca da copa das árvores, onde se estende a conversa dos homens importantes da cidadezinha ( o vigário, o coletor, o chefe-político ou, simplesmente, o povo humilde); ora a copa dessas mesmas árvores, e estas servem de abrigo aos tangerinos ou tão somente passantes.

Os traços estéticos

A marca naturalista, ainda que não comporte os exageros tão caros aos seguidores da estética, como Júlio Ribeiro e Aluízio Azevedo, faz-se presente ao longo do romance. Como traço recorrente dos escritores do Realismo-Naturalismo, enumeram-se referências a grandes escritores que contribuíram, com a transgressão de seus textos, para a decomposição do pensamento romântico: Maupassant, Zola, Prevost. A linguagem se equilibra entre a norma culta e reprodução de expressões da fala coloquial - mas, como já afirmou, poucas são as distorções fonéticas - estas só surgem quando absolutamente necessárias.

As personagens constituem tipos e se comportam consoante sua posição social, bem como expressam seu lugar de origem. O caráter de Belinha, por exemplo, uma verdadeira anti-heroína, professora virgem que resvala para os braços de Alípio, um Dom Juan à semelhança de Basílio (Eça de Queiroz) enquadra, com perfeição, na doutrina de Taine: antes dela, a mãe, tangida "pelas fatalidades do destino comum a todas as mulheres de sua família, as quais, sem exceção de uma só, se havia desencaminhado" dera o exemplo, transmitindo-lhe o "mau sangue que lhe corria nas veias". Desse modo, Belinha é um joguete do destino, pois pertencia, por nascimento, pelo sangue, pela raça, talvez pela expressão dos olhos, pelo corte da boca, pelo contorno das formas a essa espécie de mulheres predestinadas, "que correm para a perdição sobre trilhas inevitáveis". Aliás, um dos traços recorrentes ao longo da obra manifesta-se na decomposição moral.

Aspectos gerais

No plano geral, as lutas políticas, incluindo a crítica à falta de indústria e à "inaptidão dos brasileiros para a higiene, para o conforto, para a elegância, enfim, para a conformação com as exigências imperiosas da vida urbana", servem de pano de fundo, conferindo à narrativa uma intencionalidade crítica.

Tudo o mais gravita em torno dos namoros entre adolescentes matutos, desembocando no casamento, ainda que este seja tecido pelo interesse ou pela conveniência; à exceção de Florzinha, prometida ao promotor, mas este - ave de arribação - foge para a cidade grande com a amante - a professora. O lugarejo é envolvido por um clima dominado por valores românticos, apenas quebrados pela picardia a envolver Alípio e Bilinha. A narrativa se prolonga sem que, a rigor, imponha-se verdadeiramente um conflito; diferentemente dos contemporâneos, o autor não se sustenta numa tese, tampouco tem a intenção de transformar o quadro social. Banhado por um tom marcadamente impressionista, tende ao poético natural, mesmo se o cenário é o da seca - mas esta é apenas lembrada, em breve lembrança: (Texto I)

Por conta de sua arquitetura, Aves de arribação prenuncia o romance nordestino dos anos 30 do modernismo.

Fique por dentro

Aspectos do autor e de sua escritura

Antônio Sales nasceu em Paracuru, em 1868, e morreu em Fortaleza, em 1940. Aos 16 anos veio para Fortaleza, onde foi caixeiro em casas comerciais, ocupando o lazer com leituras, convertendo-se num autodidata. Publicou no jornal "A Quinzena" - órgão do Clube Literário -, (deste faziam parte Oliveira Paiva, Farias Brito e Juvenal Galeno) seu primeiro soneto. Estreou, em livro, em 1890, com "Versos diversos" - "Trovas do Norte";); História ("O babaquara"), teatro ("O Matapau") e memórias ("Retratos e lembranças"). Foi membro da Academia Cearense de Letras e um dos fundadores da Padaria Espiritual, em 1892, tendo sido responsável pela escritura do Manifesto desta agremiação cultural.

Trechos

Texto I

A flora sucumbira de todo aos golpes da canícula. No céu, ermo e flamejante, apenas se divisavam ao cair das tardes as nuvens pressagas das pombas mensageiras da seca. Ao longo dos caminhos que traziam à cidade, raras folhas verdes davam um sinal de vida da terra, sucumbida à hipnose do sol. O rio já não corria sob a grande ponte vermelha, e mostrava o acolchoado dos seus bancos de areia grossa cravejada de malacachetas fulgurantes. Bocas invisíveis e insaciáveis haviam sugado a linfa azul das lagoas transformadas em extensões côncavas de argila gretada e cinzenta. Somente a floração do céu ganhara em abundância e esplendor. Noites fantasticamente estreladas se arqueavam sobre o sertão, que ofegava como uma alimária tombada de estafamento.

Carlos Augusto Viana
Editor*