As vozes ambíguas e dissimuladas

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A citação de Corneille é o título do cap. VI terminando uma referência a Buffon, George Louis de Lecrerc, naturalista precursor da teoria da evolução e das pesquisas paleontológicas, conhecido pela clareza de exposição de ideias e regularidade de estilo. Por contiguidade é aludido correntemente a sentidos de racionalidade. Esta voz é dissimulada pela voz paródica do narrador em cogitando quais seriam as conclusões se aquele fosse um gavião. É uma estrutura pseudo-objetiva, onde a voz central é sub-repticiamente posta em dúvida pela analogia aparente desinteressada que desvela significado descentralizador em favor de discursos problematizadores da tradição positivista.

A fala de Tartufo, personagem de Molière cujo caráter fez com que o nome próprio passasse a comum com sentido de hipócrita: La Maison est à moi, c'est à vous d'em sortir (a casa é minha, cabe a você sair) é dialogizada preterindo a sanidade à loucura, muito embora é dada a fala à razão dirigindo-se contra a sandice: "não sei por que transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, - de um riso descompassado e idiota (p 31).

Uma leitura

Nesta frase de um riso descompassado e idiota uma expressão da frase anterior é retomada literalmente e especificada, numa pretensa manifestação contra qualquer ruído comunicativo que possa haver entre narrador e leitor. (Não se esqueça: estes ruídos essencialmente são utilizados estilisticamente por Machado: a vertigem e o ruído já são recursos estéticos da prosa machadiana). O campo semântico da palavra riso conota sentido de tônica alegre e leve. O narrador cônscio disso antecipa-se ao senso comum do presumido leitor e explica-lhe a natureza real do riso menos manifestação de regozijo e mais sintoma de desespero. Ficam claras aí várias vozes de narradores e leitores presentes no texto que são manipulados por um mega narrador que ora recorre a uma voz mais simpática, ora mais severa, ora pressupõe um leitor erudito, ora não, dentre os demais.

A presença do foco

São vozes ambíguas dissimuladas a todo instante em construções sintáticas híbridas como em : (Texto III)

A uma opinião ordinária sobre o comportamento comum a encontrar alguém desconhecido de perguntar quem seja e a outro de pasmar-se no mínimo diante de uma cena incrível, de uma imagem absurda, nas palavras do texto, acrescenta-se mais uma, esta voz paródica de ambas anteriores, nem acreditando uma nem outra. É a do narrador descrente e debochado aceitando o fantástico da cena ao passo que se tenta compreendê-la racionalizando-a iconoclasticamente.

Machado de Assis, ao comentar cada cena com uma frase, justificando, assim, alguma constatação sempre introduz uma voz pseudo-objetiva desconstruindo discursos anteriormente apresentados, explícitos ou conjecturados pelo contexto de cada ato de fala. Pode-se percebê-los por algumas reações discursivas dependendo de como se atualize o contexto de fala.

A importância da personagem Pandora, posto se aceite presença mitológica, requereria pensando em dado contexto discursivo de solenidade um ato ilocucionário de cortesia responsiva. Ou considerando a insanidade de tal acontecimento a indiferença ou o sentimento de desespero dado a autoconstatação da loucura seriam esperados. Lembre-se cada ato de fala respaldar-se por pontos de vistas correntes consagrados, portanto preestabelecidos socialmente. Segui-los é prerrogativa básica para o convívio social normativo. Outra reação que se cogitasse tentando racionalizar a cena seria da constatação de que o fato fosse apenas um delírio, por mais engenhoso que fosse (sabendo dever ser necessário estar são para perceber-se a alucinação). Assim o narrador agiria mais ou menos como autoanalista buscando equalizar seu estado clínico. No entanto quando age pacificamente, com deleite mesmo, sobre seu estado paradoxal contradiz cada uma das vozes tangentes contextuais, evidenciando outra voz discursiva: a metalinguística.

Ao fazer amiúde uso de recursos metadiscursivos de modo que traga a baila todo o tempo a voz do leitor o narrador das Memórias deixa entrever a situação ilusória a que se insere leitor na literatura: a ação discursiva do autor do livro de construção intencional do simulacro de realidade que o livro apresenta como e enquanto realidade.

Espaços e papéis sociais previamente demarcados no ato de fala da leitura de literatura são (des) reorganizados, afinal, de acordo com o texto

Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim (p 31).

Considerações finais

A prosa romanesca realista de Machado é um delírio, as Memórias Póstumas de Brás Cubas são um delírio. Um delírio porque o estilo dialógico do romance satírico, pluriestilístico, plurilíngue e plurivocal foge do estilo do romance monológico e conservador, causando reações dos cânones que lhe ressalvam a circulação e reconhecimento de cidade. O estilo dialógico segundo Bakhtin deve ao plurilinguismo social e ao crescimento em solo de vozes diferentes que o romance orquestra todos os seus temas, todo o seu mundo objetal, semântico, figurativo e expressivo. Por isso a verdadeira premissa da prosa romanesca está na estratificação interna da linguagem, na sua diversidade social de linguagens e na divergência de vozes individuais que, portanto, ela encerra (p 74).

Enfim metalinguagem discursiva é dos principais recursos dialógicos da prosa romanesca moderna. O narrador Machadiano não é moribundo em seu leito, ele é um narrador assumindo também uma voz de moribundo e todos os discursos a ele arrolados, para destronizá-los, dissimulando outras vozes marginais, inclusive a do narrador que, por vezes, discute sobre sua escrita e sobre sua literatura e dos diversos leitores que tomem o livro para ler.

O narrador do delírio é um narrador consciente de seus contexto e papel sociais e literários de problematizador da(s) linguagem(s) romanesca(s) sabendo, com efeito, que são outros os olhos do delírio/as vozes do narrador, este delirante da prosa moderna.

TRECHOS
 
TEXTOIII
Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidadede
delírio(p 29).
 
SAIBA MAIS 
 
ASSIS, Machado de.
Memórias Póstumas de BrásCubas.
São Paulo. 
FTD.1991
 
BAKHTIN, Mikhail.
Questões de literatura e de estética, a teoria do romance.
São Paulo: Hucitec 1988
 
GAUDREAULT, André e JOST, François.
A narrativa cinematográfica.
Brasília.UNB.2009