As personagens e suas representações

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Na tragédia deve haver tanto o nó ou complicação, quanto o desenlace. O nó seria os fatos que são alheios e inerentes ao assunto e vão desde o começo até o período em que ocorre algum fator de mudança afortunada ou desafortunada. Já o desenlace, que é o restante, vai desde essa mudança até o fim. Os aspectos que causam temor e compaixão devem contrariar a expectativa da plateia ou leitor para que se alcance a catarse. Por esse motivo, a tragédia trata geralmente de sofrimentos entre indivíduos que estão ligados de alguma maneira pela afeição.

Na obra Iracema, percebemos o nó da trama quando o autor apresenta o local em que a índia vive até o momento em que ela se apaixona pelo branco guerreiro. O desenlace se localiza desde o início dessa paixão até o fim da narrativa com a morte de Iracema. E é a partir desse sentimento que o sofrimento aparecerá em toda a obra, sendo esse um dos aspectos que a caracterizará como uma obra trágica. 

Da personagem

A tragédia é focada na ação do homem, afirma o filósofo da Arte Poética. Na obra de Alencar, Iracema é a personagem principal que realizará as ações da trama para vivenciar o amor por Martim. E, segundo Aristóteles, a imitação dessa ação é realizada através do melhoramento do caráter, que é uma característica da tragédia. Iracema será descrita como uma índia doce, amável, bela e pura. O autor de Iracema utilizará o pensamento do filósofo Rousseau sobre o “bom selvagem” e as ideias histórico-literárias que rondavam o século XIX para construir o seu pensamento a respeito do indígena: (Texto II)

É importante ressaltar que Iracema não será a única índia a ter o seu caráter melhorado. A maioria dos índios que aparecem na narrativa também possui esse comportamento “dócil”, com exceção de Irapuã que se mostrará rebelde ao saber que há um estrangeiro dentro da tribo tabajara. Mas, a rebeldia de Irapuã não é com relação ao branco colonizador, e sim ao ciúme que possui do amor que Iracema sente por Martim e também pelo fato de o guerreiro branco fazer parte da tribo inimiga, os potiguaras. Eis aí o melhoramento de caráter do nativo para o início da construção do brasileiro. 

Outro protagonista

Martim Soares, herói branco, também será marcado pelas características da tragédia. Alencar evitará comentar em sua obra sobre a catástrofe, principalmente cultural que a colonização europeia trouxe para os índios. Estes foram obrigados a se sujeitar a cultura do branco europeu - linguagem, vestimentas, religião, comida, trabalho etc. – após muitas guerras e mortes. Mas o autor descreve Martim apenas como o guerreiro branco que trouxe em seu sangue a coragem e o progresso para serem misturados às virtudes indígenas e formar o brasileiro.

A tragédia envolve a dor e a violência e, como foi citado anteriormente, imita a ação de homens “superiores”. Essa imitação extremamente próxima da verossimilhança sugere que os nomes das personagens assim como os acontecimentos sejam mantidos como realmente existiram, pois o possível é convincente e acaba por afastar as suspeitas do impossível. Mas, a tragédia pode vir composta por nomes reais ou fictícios, ou até mesmo desconhecidos, pois o relevante nessa arte mimética é a ação e a vida do homem, não o seu caráter e nem o seu nome. Assim: (Texto III) 

Considerações finais 

Conforme Aristóteles, na tragédia não é necessário o uso de nomes ou acontecimentos reais, pois o que importa na arte mimética são a ação e a vida do homem. Mas, escolher utilizar o que realmente existiu trará a persuasão ao público. Alencar pretendia através da lenda do Ceará, criar um sentimento de realidade dentro dos acontecimentos da narrativa a fim de explicar a construção da identidade do brasileiro. Assim, utiliza nomes, lugares e acontecimentos que existiram tornando a obra bastante convincente. Geralmente o gênero trágico imita assuntos sérios, uma ação importante. Sem ação não há tragédia. Segundo Aristóteles, ao se compor uma tragédia é conveniente que não se mostre pessoas de bem passando da felicidade à desgraça, pois, ao invés de causar temor ou compaixão, trará apenas uma impressão desagradável.

Não se deve também expor homens maus que no fim saem do crime e alcançam à ascensão; nem um homem perverso ou feliz se tornar desgraçado. Dessa forma, é, pois, necessário encontrar uma situação intermediária: (Texto IV) (F.R.O.R) 

Trechos

TEXTO II

seria absolutamente imprescindível ser justo diante índios. Antes de tudo, seria preciso tirar a “crosta grosseira” que os “cronistas” haviam implantado na pele do índio, livrando-o da visão preconceituosa que não conseguia enxergar a lógica do outro. (RAMOS, Francisco Régis Lopes. O fato e a fábula: o Ceará na escrita da história. – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2012.p.51)

TEXTO III

um argumento impossível que convença é melhor do que um possível que não convença; o próprio irracional, utilizado com aparência razoável de racional, torna-se aceitável. (Lígia Militz da Costa. A poética de Aristóteles – Mímese e verossimilhança. São Paulo, Ática1992., p.52)

TEXTO IV 

a do homem que, não se distinguindo por sua superioridade e justiça, não obstante é mau nem perverso, mas cai no infortúnio em consequência de qualquer falta. (ARISTÓTELES. A Arte Poética. São Paulo: Editora Martin Claret, 2010. p.52) 

SAIBA MAIS

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, AS, 1990.

COSTA, Lígia Militz da Costa. A poética de Aristóteles – Mímese e verossimilhança. São Paulo, Ática1992.

FREITAS, Maria Eurides Pitombeira de. As idéias de Alencar: um programa nacionalista. Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1986.