As narrativas e o jogo das imaginações

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Na imensa massa de textos que lhes servem para os estudos linguísticos, os irmãos Grimm redescobrem o mundo maravilhoso da fantasia e dos mitos que, desde sempre, seduziu a imaginação humana. Selecionam uma centena deles e, despojando-se da erudição com que haviam sido tratados, começam a publicá-los sob o título "Contos de fadas para crianças e adultos". Resultou que, das centenas de narrativas publicadas, apenas uma ou duas dezenas divulgaram-se, transformadas em literatura infantil, obviamente "expurgadas" de trechos menos recomendáveis, tendo-se em vista o público a que se destinavam.

Tanto em Grimm como em Perrault predomina a atmosfera de leveza, bom humor ou alegria, que neutraliza os dramas ou medos existentes na raiz de todos os contos. Daí essa literatura entender-se tão bem com o espírito das crianças (COELHO, 1991).

Um marco

Como já havia sido estudado por Lichtenstein (2007, p.16), as modernas versões dos contos de fada, que encantaram tanto nossos antepassados quanto as crianças de hoje, datam do século XIX. São tributárias da criação da família nuclear e da invenção da infância tal como a conhecemos hoje. Isto está relacionado: a progressiva exclusão dos pequenos do mundo do trabalho, na medida em que a Revolução Industrial criou espaços de produção separados do espaço familiar (o segundo era característico das organizações do trabalho artesanal e campesino); os ideais iluministas e os novos códigos civis trazidos pelas revoluções burguesas passaram a reconhecer as crianças como sujeitos, com direito tanto a proteções legais específicas quanto ao reconhecimento de uma subjetividade diferenciada da dos adultos. Azevedo (1999) afirma que, ao distinguir adultos e crianças como dois mundos diferentes, temos uma literatura infantil. E, ao pensar nos dois dentro de um único universo, teremos outra Literatura Infantil, bem mais complexa.

A trama

Os contos trazem conflitos semelhantes ao que vivemos e permeiam diversas gerações. Eles trabalham com o conteúdo humano, com aquilo que, muitas vezes, fica apenas nas entrelinhas. Desta forma, o conto de fadas irá mostrar às crianças, de uma maneira subjetiva e até objetivamente, em alguns pontos, que a vida trará algumas dificuldades. A luta e a descoberta não acontecem da noite para o dia. O herói ou a heroína passam por diversas provas e essas devem ser realizadas por eles mesmos até que possam "viver felizes para sempre". O resgate da magia da leitura nos contos de fada não será a solução dos problemas mundiais, no entanto, como eles atuam também no inconsciente, podem ajudar muito às crianças a eliminar e/ou entender os conflitos pelos quais está passando no momento em que entra em contato com a leitura ou a escuta dessas histórias.

Essas identificações que as crianças fazem com os contos são facilitadas pela não especificidade de tempo e local. A identificação com os personagens é facilitada pela ausência de nome próprio. Normalmente, o nome é relacionado às características físicas, como por exemplo, Branca de Neve e Cinderela ou Gata Borralheira (o nome origina de cinders, que significa borralho), um dos únicos nomes próprios que aparece é João - frequente em muitas histórias - e Maria). Nos contos, a idade das princesas, reis, rainhas, bruxas, príncipes, etc. Não é definida, sendo possível transitar por todos os personagens em momentos diferentes de nossa vida.

Das personagens

No conto, há o personagem malvado, que geralmente é nominado e aparece sob a descrição da madrasta da "Branca de Neve", a bruxa da casa de chocolates de "João e Maria" e o gigante que mora nas nuvens na história "João e o pé de feijão".

Nos contos, os personagens não têm dualidade: ou são bons ou são maus - da mesma maneira que a criança pensa: a mãe má não pode ser a mãe boa. Até porque o conto não deve ser só feito de imagens boas, pois não deve ser uma fuga para as crianças se esconderem em um mundo de faz de conta, mas expressar as passagens de medo, angústia, vingança como um meio da criança simbolizar seus próprios conflitos.

O enredo dos contos de fada também reproduz as histórias de vida das crianças, pois nele o herói sai de casa, passa por privações, enfrenta perigos e conhece a maldade, triunfando no final da história. Na vida, a criança passa por estas modificações: precisa sair de casa. Desligar-se dos pais, ir para escola, fazer amigos, saber evitar situações de risco, explorar o mundo a sua volta.

Considerações finais

Interessante como esses contos nunca "saem de moda". As crianças de anos atrás se divertiam tanto quanto as crianças de hoje em dia, ao ler cada uma dessas histórias que pouco mudam. A verdade é que as histórias dos contos de fadas independem do local de origem, passam em lugar e épocas inexistentes ("em um país muito longe", "numa floresta encantada", "há muitos e muitos anos"...). Esta é uma das razões da fácil migração e entendimento em várias culturas e por várias idades, já que os contos tratam de conflitos que permeiam toda a base humana universal, ou seja, os contos são atemporais. Por fim, Bettelheim (2004) esclarece que, enquanto diverte a criança, o conto de fadas a esclarece sobre si mesma e favorece o desenvolvimento de sua personalidade. Oferece significado em tantos níveis diferentes e enriquece a existência da criança de tantos modos, que nenhum livro pode fazer justiça à multidão. A diversidade de contribuições que esses contos dão à vida da criança é inúmera. (M. D. F. )

SAIBA MAIS

AZEVEDO, Ricardo. Literatura Infantil: origens, visões da infância e certos traços populares. Belo Horizonte: Dimensão, 2001.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo:

Paz e Terra, 2002.

COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. São Paulo: Ática, 1987.