Ao correr da pena

O escritor José de Alencar completaria hoje 180 anos. Autor de obras fundamentais para a literatura brasileira, o autor será lembrado em seminário promovido pelo Departamento de História da UFC

O Brasil tem que cara? No princípio eram índios, depois brancos colonizadores, que além da força bruta e de outra língua, trouxeram negros escravos. Da mistura, surgiram caboclos, mulatos, cafuzos e pardos. Hoje somos também nortistas e sulistas; urbanóides e matutos; descendentes, radicados, assentados: brasileiros, enfim.

Se com o tempo esse mosaico revelou alguma forma, foram necessárias mãos que ordenassem suas peças. Entre as mais notórias destacaram-se as do escritor cearense José de Alencar, que completaria hoje 180 anos. A efeméride é justa: afinal, de pena em punho, Alencar escreveu obras importantes como “O Guarani”, “Iracema”, “O Gaúcho”, “O Sertanejo” e várias outras que não apenas consolidaram a estética romântica no Brasil, mas, em última análise, contribuíram significativamente para a construção de uma identidade nacional.

Tomando para si a ambiciosa tarefa de desenhar um amplo panorama da realidade no Brasil, o escritor resgatou de forma pioneira temas e motivos locais, desde costumes da sociedade burguesa do Rio de Janeiro (onde morou boa parte da vida) até cenários e personagens indianistas e regionais, descritos com vocabulário e sintaxe típicos do país, em oposição ao estilo lusitano vigente na época.

Nascido em um sítio em Messejana, em 01 de maio de 1829, José Martiniano de Alencar foi fruto da união proibida entre seu pai homônimo (então padre e deputado pela província do Ceará) e a prima deste, Ana Josefina de Alencar - “por fragilidade humana´´, como o próprio declarou no testamento. Dos oito filhos, foi o primogênito, apelidado de Cazuza (que significa “moleque”). Depois dos primeiros anos da infância, mudou-se definitivamente com a família para o Rio de Janeiro, onde Alencar, o pai, assumiu posição no Senado. Em 1944, o jovem transfere-se para São Paulo, para cursar a Faculdade de Direito daquele Estado. Introvertido, mantinha-se alheio à rotina boêmia vivida pelos colegas do curso preparatório, entre eles um que também ficaria famoso: Álvares de Azevedo.

Tinha 17 anos incompletos quando matriculou-se na Faculdade, já ostentando a característica barba cerrada, que acentuava ainda mais seu semblante taciturno. Na Academia, conheceu clássicos da literatura mundial e seus autores, entre filósofos, poetas, romancistas e tratadistas da retórica e da política. Devora tudo com a avidez dos grandes, consolidando uma base de conhecimentos fundamental para sua trajetória literária - esta sempre conciliada com a prática jurídica, a qual nunca abandonou.

Em 1847 o pai Senador, muito doente, voltou ao Ceará, assistido pelo filho. Na ocasião, o jovem Alencar conheceu os primeiros sintomas da tuberculose, mazela que o acompanharia por 30 anos. O reencontro com a terra natal trouxe recordações de infância e fixou perenemente na memória do escritor a paisagem local. É esse cenário nordestino que aparece em um de seus romances mais importantes: Iracema. A estréia na literatura ocorreu pelas vias do jornalismo, quando se inicia como folhetinista no Correio Mercantil. Às crônicas seguiram-se suas primeiras obras: Cinco Minutos (1856) e A Viuvinha (1857) - ambos romances urbanos. Mas é com O Guarani , também lançado em 1857, que José de Alencar alcança notoriedade definitiva.

Ao passo que o índio Peri encarna o arquétipo do herói romântico - incorruptível, bom, belo e justo -, sua possível união amorosa com a jovem branca Cecília, sugerida ao final do livro, representa a miscigenação fundadora de toda a sociedade brasileira. Mas não é preciso ir tão longe para explicar o sucesso de público da obra. Antes de mais nada, trata-se de uma história de amor, permeada de aventura e transcorrida em cenário selvagem e exótico. Ao lado dos romances “Iracema” (a virgem dos lábios de mel que inspirou duas esculturas em Fortaleza) e “Ubirajara”, “O Guarani” responde pela inaugura da temática indianista na produção de Alencar.

Os romances alencarinos podem ser divididos ainda em outras três grandes temáticas: Urbano, que continuou sendo explorado em obras como “Lucíola”, “Senhora” e “Diva”; Histórico, no qual se encaixam trabalhos como “As Minas de Prata” e “A Guerra dos Mascates”; e Regionalista, com “O Gaúcho”, O Sertanejo” e outros. Escreveu ainda algumas peças de teatro. Simultaneamente à carreira literária, Alencar permaneceu atuante no jornalismo e, posteriormente, na política - áreas em que se destacou pela personalidade polêmica (nesta última, porém, do lado Conservador, ao contrário de seu pai).

Crítico implacável da censura e defensor ferrenho de uma cultura nacional, não poupou sequer Dom Pedro II. Em um episódio famoso, Alencar ataca duramente a abordagem à temática indianista feita no poema épico “A Confederação dos Tamoios”, de Gonçalves de Magalhães, que lança mão de um personagem índio para tecer loas à dinastia monárquica portuguesa. O lançamento do livro havia sido integralmente apoiado pelo Imperador, que por tabela não escapou às alfinetadas de Alencar.

A rixa perdurou durante toda a vida política de Alencar, iniciada em 1861 (quando foi eleito Deputado Geral pelo Ceará, reelegendo-se outras três vezes). Chegou ao cargo de Ministro da Justiça (1868) e só não foi Senador, no ano seguinte, porque teve o nome vetado por Pedro II. Na biografia “O Inimigo do Rei”, escrita pelo jornalista Lira Neto, uma passagem deixa clara a dimensão da querela. Por ocasião da morte de Alencar, em 1877, vítima de tuberculose, o monarca chega a soltar algumas palavras elogiosas ao talento do escritor, porém sem perder a provocação final: “mas ele era também um homenzinho bem malcriado!”.

Muito embora não haja maior atestado de credibilidade moral do que o insulto do próprio Imperador, mais certeiras foram as palavras do colega Machado de Assis, citando ima passagem de “Iracema”: “(...) a posteridade é aquela jandaia que não deixa o coqueiro, e que ao contrário da que emudeceu na novela, repete e repetirá o nome da linda tabajara e do seu imortal autor. Nem tudo passa sobre a terra”.