Antropologia visual

Dedicados a levar a fotografia de casamento para longe do registro óbvio, fotógrafos debatem as possibilidades artísticas do gênero

A Livraria Cultura de Fortaleza inicia, hoje, a partir das 19 horas, o projeto "Fotografia em debate", realizado em parceria com a Mandacaru Foto Clube. E, para estrear esses encontros que acontecerão uma vez por mês, na unidade do Shopping Varanda Mall, a temática escolhida foi "Fotografia de Casamento".

Para discutir a pauta, dois convidados de peso: o fotógrafo Paulo Figueiredo, que, desde 2007, decidiu abandonar o mercado imobiliário e investir no, também, aquecido mercado das festas de casamento, e Janine Mapurunga, fotógrafa nascida em Viçosa do Ceará, radicada nos Estados Unidos há 14 anos, e que está voltando ao Brasil para dar continuidade ao trabalho de registro de casamentos desenvolvido na Califórnia.

É um mercado em franca expansão, no qual há diversos profissionais oferecendo serviços diferenciados, tanto no estilo quanto nos preços cobrados. "Hoje tenho uma empresa de fotografia de casamento, onde trabalho com minha mulher, Suzana Figueiredo, mas também dispomos de equipe de vídeo, onde, dependendo da exigência do casal em registrar detalhes, colocamos até quatro câmeras captando tudo", diz Paulo Figueiredo.

E Janine acrescenta: "Tudo lá (nos Estados Unidos) chega primeiro. Muitas coisas que estão começando aqui no Brasil, já estão completamente fora de moda lá, como, por exemplo, essa história do ´trash the dress´, ou ´sujar o vestido´, onde a sugestão é levar os noivos para tomarem banhos de cachoeiras, rolarem na lama, enfim. Foi uma moda e não pegou lá, há prejuízos, desconfortos e o resultado quase sempre é questionável", garante Janine.

Paulo Figueiredo concorda, embora ressalte que, se o cliente quiser, certamente será atendido em seus desejos. "Já fiz ensaio ´trash the dress´ pós-casamento; fomos às serras daqui do Ceará, mas é raro acontecer. Acredito que isso se deva, principalmente, porque a maioria dos vestidos de noivas aqui são de locação", acrescenta.

Tradição x Modernidade

Longe já se vai o tempo em que as fotografias de casamento primavam por aquelas poses tradicionais, das alianças no buquê, o beijinho da noiva com o pé levantado, a pose entre as flores, o corte do bolo ou os braços entrelaçados com um oferecendo champagne ao outro.

Hoje em dia, o que está em voga, são ensaios que, algumas vezes, têm início até um mês antes do casamento, tudo incrementado pela parafernália tecnológica que permite, com certa facilidade, edição de documentários, produção de livros de fotografias (com direito a capa dura e papel couché), pôsteres, banners, e até o uso da linguagem fotojornalística, que privilegia detalhes e flagrantes tanto da cerimônia de casamento em si, quanto da festa que a sucede.

"Trabalho com essas linguagens há muitos anos, e essa experiência mostra que o trabalho lá fora é bem diferente do daqui. Primeiramente, porque a Califórnia é referência de novidade para o mundo inteiro. O que vai acontecer, acontece primeiro lá. Acho que isso dá uma visão mais ampla. Depois, porque desenvolvo um trabalho de ´fotografia documentária´. Chego muito próximo de meus clientes, pergunto sobre a vida deles, os costumes", enfatiza Janine.

E completa, revelando um detalhe interessante: "nos Estados Unidos, os casamentos são celebrações familiares, logo, permitem registros mais intimistas. No Brasil, não, os casamentos são grandes eventos sociais, daí o resultado é um pouco diferente. Mas a essência é a mesma, porque buscamos a beleza da arte que existe nos instantes especiais. Aquele momento, único, pessoal, mas peculiar para cada povo, religião ou país. Cabe ao fotógrafo ter sensibilidade e captar o instante mágico. Acho que estou chegando para ensinar e aprender muitas coisas", destaca Janine, que estudou antropologia cultural no País do Tio Sam, e foi professora do Sacramento City College - aliás, a primeira mulher a lecionar fotografia na instituição norte-americana.

Apesar de ressaltar não ser especialista no assunto, o fotógrafo Tiago Santana elogiou o trabalho que profissionais cearenses estão desenvolvendo na área e declarou que, em termos de qualidade, elaboração e padrão, não vê diferença entre os fotógrafos do Ceará, de São Paulo, ou de fora do Brasil. "Sinto falta mesmo é de mais ousadia, de romper com o formalismo. Muito profissionais ainda estão muito ligados à técnica, e o resultado é que os álbuns ficam todos meio iguais", acrescentou.

Questionado se a fotografia de casamento pode ser considerada uma categoria de arte, Tiago Santana responde com outra pergunta. "E o que é arte? Uma foto 3x4, ou de uma pessoa morta no IML pode ser arte, só depende do conceito, do contexto, da estética em que está enquadrada. Muitos álbuns de casamentos hoje viram verdadeiros ensaios. Tenho um casal de amigos em São Paulo que, recentemente, foi contratado para fazer fotos de um casamento, mas os noivos queriam o ensaio em Paris! E eles foram todos. Minha opinião é que, já que vai gastar, pelo menos gaste com um trabalho que tenha diferencial, que saia do lugar comum", orienta Tiago Santana.

MAIS INFORMAÇÕES

Projeto Fotografia em Debate, com o tema "Fotografia de Casamento", com palestras de Janine Mapurunga e Paulo Figueiredo, hoje, 22/02, às 19h, no auditório da Livraria Cultura, no Shopping Varanda Mall (Avenida Dom Luís, 1010, Meireles). Grátis. Contato: (85) 4008.0800

NATERCIA ROCHA
REPÓRTER