Álvares de Azevedo: três notas de uma lira oitocentista

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160 anos depois de sua publicação, Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, continua a surpreender os leitores

É notória a força idealizante da segunda fase de nosso Romantismo, ambientado no início da segunda metade do século XIX. Álvares de Azevedo é considerado por boa parte da crítica o maior poeta da estética deste período, notadamente pelo ultrarromantismo amoroso e pelo anseio de morte de um eu-lírico desesperado. Em Lira dos Vinte Anos, livro póstumo, entre vários exemplos, a transcendência amorosa fica bastante caracterizada em "Amor" (Texto I):

Leitura do poema

A primeira estrofe é iniciada quase como uma apóstrofe, em que o amor é diretamente exclamado à amante. Sua construção se desenvolve em um conjunto de desejos-promessas, alicerçados pelos verbos "viver", "sofrer" e "suspirar". A vida, pois, liga-se ao sentimentalismo do eu-lírico que idealiza a condição de viver "de amor", num plano transcendental, o que o coloca em franca oposição à realidade, dela exilando-se, ratificando parte da áurea exacerbada da lírica amorosa alvaresiana.

Embora as escolhas lexicais de "sofrer" e "dor", do verso 3, pareçam contradizer o que então se enunciara, sugerindo um paradoxo, o verso seguinte dilui tal impressão, já que o sofrimento acaba por se transformar em prazer, pois "desmaia de paixão". Tal impressão confirmada pelos dois últimos versos, sobretudo pela ânsia de "suspirar", sensualmente, em "ardentes prantos" de uma amante pálida. A palidez é metonímia do marasmo e do tédio espiritual dos fins da primeira metade do século XIX.

Outro andamento

A segunda estrofe, toda marcada pela anáfora do verbo querer, mantém a unidade do poema regida pelo desejo-promessa, destacando-se neste, novamente, e agora no final de cada verso, os verbos no infinitivo "beber", "morrer", "sentir", "dormir", não como uma gradação, mas, notadamente, como a sucessão dionisíaca de um prazer onírico.

O "céu", como algo inatingível e puro, (elemento recorrente nessa estética) conjuga-se com a imagem projetada de uma mulher abstrata, com sua "cheirosa trança", retomada na estrofe seguinte como "anjo", "donzela", "alma", "coração", partes de um campo semântico-poético que assexualiza a amada, projetando-a ao patamar celeste, distante da concretude física. Tal encontro amoroso dar-se-ia na "morte", aqui idealizada como ambiente de fuga, lugar onde, livres de quaisquer outras impossibilidades mundanas, os amantes se complementariam no plano espiritual.

FIQUE POR DENTRO

Um breve retrato do artista e da obra

Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo (SP), a 12 de setembro de 1831. Autor de "Noites na Taverna", "Macário" e de copiosa produção poética, muito influenciada pela obra de Byron, morreu no Rio de Janeiro (RJ), a 25 de abril de 1852, quando aluno do quinto ano da Academia de Direito de São Paulo. Sua obra mais notável é Lira dos Vinte Anos (inicialmente planejada para ser publicada num projeto - As Três Liras - em conjunto com Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães). Alguns dizem que o autor teve uma vida boêmia e para outros, uma vida casta. Contudo, suas poesias mostram uma idéia fixa em sua própria morte, provavelmente por saber do estado de saúde em que se encontrava.

Trechos

TEXTO I

Amemos! quero de amor/Viver no teu coração!/Sofrer e amar essa dor/Que desmaia de paixão!/Na tu´alma, em teus encantos/E na tua palidez/E nos teus ardentes prantos/Suspirar de languidez!///Quero em teus lábios beber/Os teus amores do céu!/Quero em teu seio morrer/No enlevo do seio teu!/Quero viver d´esperança!/Quero tremer e sentir!/Na tua cheirosa trança/Quero sonhar e dormir!///Vem, anjo, minha donzela,/Minh´alma, meu coração.../Que noite! que noite bela!/Como é doce a viração!/E entre os suspiros do vento,/Da noite ao mole frescor,/Quero viver um momento,/Morrer contigo de amor!

Do Curso de Letras da Uece

TEÓFILO LEITE BEVILÁQUA
COLABORADOR*