Álvares de Azevedo: a poética do tédio

O Mal-do-Século ou Ultrarromantismo tem na poesia de Álvares de Azevedo o seu maior representante

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Nos anos seguintes ao amadurecimento da tradição literária nacionalista, a poesia brasileira começa, no que chamamos de segunda geração romântica, a se enviesar por terrenos de extremo subjetivismo, tomando como principais eixos temáticos: amor e morte, dúvida e ironia, entusiasmo e tédio. Os poetas desse período conduziram ao extremo a concepção romântica de exacerbação da sentimentalidade, levada, muitas vezes, a fantasias mórbidas e, quase sempre, à autocomiseração. Entre as características de suas poesias estão o egocentrismo, pessimismo, melancolia, desejo de evasão, intimismo, desilusão adolescente, tédio, satanismo, erotismo difuso e obsessivo e negativismo boêmio. Essa combinação de sentimentos foi denominada "mal-do-século.

Os léxicos

Outros termos utilizados para se referirem à segunda geração romântica é "ultrarromantismo" e "byronismo". O primeiro se deve ao fato de essa geração do romantismo ter levado ao extremo (e, por vezes, até ao ridículo) os ideais de subjetividade, individualismo e idealismo preconizados pelo Romantismo. O segundo termo se deve ao fato de os poetas da segunda geração romântica adotarem um estilo de vida inspirado na vida e na obra do poeta inglês Lord Byron (a saber: vida boêmia, voltada para o vício e os prazeres da bebida, do fumo e do sexo). O byronismo é caracterizado pelo narcisismo, egocentrismo, pessimismo e angústia, consoante a leitura do poema "lembrança de morrer", de Álvares de Azevedo: (Texto I)

Imagens recorrentes

Álvares de Azevedo foi o escritor mais bem dotado da segunda geração romântica. A melancolia e a presença constante da morte são temas que percorrem toda sua poesia. O poema acima, um dos mais conhecidos e citados, é um exemplo disso. O crítico Alfredo Bosi (História concisa da literatura brasileira) fornece-nos um apanhado léxico da obra do jovem Álvares que retrata esse estado depressivo da existência: "pálpebra demente, matéria impura, noite lutulenta, longo pesadelo, pálidas crenças, desespero pálido, enganosas melodias, fúnebre clarão, tênebras impuras, astro nublado, água impura, boca maldita, negros devaneios, deserto lodaçal, tremendal sem fundo, tábuas imundas, leito pavoroso, face macilenta, anjo macilento". Todo esse negativismo e pessimisto que assola a alma do poeta, tomado de contradições e medos adolescentes, só terá para ele solução na morte, com a qual se cessariam todas as suas angústias: "A dor no peito emudecera ao menos/ Se eu morresse amanhã" (Se eu morresse amanhã). Para Bosi, bem como para a maioria da crítica, alguns dos mais belos versos de Álvares de Azevedo "são versos para a morte", como estes do poema a seguir "Virgem morta": (Texto II)

A fuga do real

Outra tendência temática do poeta é a que se refere a uma atmosfera de sonhos e evasão. Relacionando-a à temática romântica do amor idealizado, temos o contraste entre o sonhar o amor, a bela virgem (única esperança e motivo que o mantém vivo) e a não realização desse amor. Vale ressaltar que o tema do amor e o retrato da amada são quase sempre tratados por Álvares de Azevedo com especial erotismo, que se desenvolve num paradoxo típico do amor idealizado: o medo de amar impede-o de amar. Diante da frustração de não viver o amor profundamente desejado, a juventude configura-se para o poeta como uma fase, contraditoriamente, sem viço, sem cor. Traços de satanismo também se encontram na vasta e diversificada obra desse tão jovem poeta (Álvares de Azevedo morreu de tuberculose aos 21 anos). São exemplos dessa vertente os contos macabros de A Noite na Taverna e alguns versos febris de O Conde Lopo e do Poema do Frade.

Considerações finais

Mas algo bastante curioso e particularizante da obra de Álvares de Azevedo é que ela parece estar fundamentada em um projeto literário baseado na contradição. Esse dado fica bastante evidente na principal obra do poeta: Lira dos Vinte anos. A primeira e terceira parte dessa obra revelam um Álvares de Azevedo casto, sentimental, idealista. Mas, a segunda parte, surpreendentemente, revela-nos traços mais irreverentes, irônicos, com tendências mais liberais. É na segunda parte da Lira, ainda, que vemos desenvolver um verso mais solto, mais prosaico, e, até mesmo, uma espécie de autoironia, por conter versos de crítica jocosa ao amor romântico (ex.: O Poeta Morimbundo; É Ela, É Ela, É Ela; Namoro a cavalo). Tais características levaram alguns críticos a considerar que Álvares de Azevedo já apresentava, em sua obra, traços precursores do modernismo.

Por fim, à curta duração da vida do poeta contrapõe-se a intensidade de sua produção literária, produção esta que nos legou alguns dos mais belos versos escritos em língua portuguesa.

Trechos

TEXTO I

Quando em meu peito rebentar-se a fibra, / Que o espírito enlaça à dor vivente, / Não derramem por mim nem uma lágrima / Em pálpebra demente. /// E nem desfolhem na matéria impura / A flor do vale que adormece ao vento: / Não quero que uma nota de alegria / Se cale por meu triste passamento. /// Eu deixo a vida como deixa o tédio / Do deserto, o poento caminheiro / - Como as horas de um longo pesadelo / Que se desfaz ao dobre de um sineiro; /// Como o desterro de minh'alma errante, / Onde o fogo insensato a consumia: / Só levo uma saudade - é desses tempos / Que amorosa ilusão embelecia. /// Se uma lágrima as pálpebras me inunda, / Se um suspiro nos seios treme ainda, / É pela virgem que sonhei... Que nunca / Aos lábios me encostou a face linda! /// Só tu à mocidade sonhadora / Do pálido poeta destes flores... Se viveu, foi por ti! e de esperança / De na vida gozar dos teus amores. /// Descansem o meu leito solitário / Na floresta dos homens esquecida, / À sombra de uma cruz, e escrevam nela: / Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

TEXTO II

Qu'esperanças, meu Deus! E o mundo agora / Se inunda em tanto sol no céu da tarde! / Acorda, coração! Mas no meu peito / Lábio de morte...

SAIBA MAIS

DERRIDA, Jacques. A escrita e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 1971

MOISÉS, Massaud. A criação literária - poesia. São Paulo: Cultrix, 1995

SYPHER, Wylie. Do rococó ao cubismo. São Paulo: Perspectiva, 1980

Rita lígia sampaio
Especial para o ler*
Do Curso de Letras da Uece