Aldir Blanc: a música sinuosa das palavras

Ler

Numa edição de luxo, fotografias, partituras, manuscritos e documentação traçam um perfil do artista

O compositor Aldir Blanc é dono de um discurso singularíssimo. A ele pertencem imagens intrigantes que deram mais força a inúmeras melodias, em especial as compostos por João Bosco. Quem não se lembra de passagens como: "Ah, como é difícil tornar-se herói / só quem tentou sabe como dói / vencer satã só com orações" (Agnus sei); "Tá lá o corpo estendido no chão / em vez de rosto uma foto de um gol / em vez de reza uma praga de alguém / e um silêncio servindo de amém" (De frente pro crime); "Sentindo um frio em minh´alma / te convidei pra dançar / a tua voz me acalmava / são dois pra lá, dois pra cá" (Dois pra lá, dois pra cá); "Cristas de incêndio crispadas / cristas de fogo de espadas, / cristas de luz suicida, / lúcidas de sangue futuro. Cristas crismadas em rubro / não rubro rosa assustada / de rosa estufa, canteiro" (Galos de briga), dentre tantas outras, sob melodia do compositor João Bosco.

Detalhe da capa do livro "Aldir Blanc: resposta ao tempo", de Luiz Fernando Vianna. Trata-se de uma obra indispensável a quem admira composições refinadas e compreende a música como um dos instrumentos de análise da vida e do tempo

O espaço

Versátil, Aldir Blanc é também cronista de excelência. Neste gênero, a infância, vivida em Vila Isabel, ganha relevo. Frequentemente, (lembra-nos o autor) Aldir Blanc recupera paisagens da infância, transfiguradas em quintais, goiabeiras, recolhe personagens fortes, com as quais conviveu, ou, consoante os ditames da literatura, inventa outras, que, por conta do processo mágico da criação, passam também a ser protagonistas de sua realidade: "Já na infância, Aldir era um leitor voraz.

O avô Antônio lhe dava, semanalmente, gibis de todos os tipos. Depois, passou para livrinhos de bolso, vendidos em bancas de jornal. Já Vó Noêmia lhe deu todo o Monteiro Lobato e romances de capa e espada, da editora Vecchi, famosos na época" (p.25). Tais fontes foram, sem dúvida, muito importantes para a construção do imaginário do artista, de tal sorte que, de quando em vez, esses elementos entram, mesmo que fragmentados, no discurso.

Um retrato

Com um estilo leve, em tom de conversa - mas sem perder a elegância do estilo -, Luiz Fernando Vianna vai construindo os passos de Aldir Blanc: a infância, os amigos, os estudos, a descoberta da música, os encontros e desencontros com parceiros, até mesmo a experiência com o paraíso e a queda. Um dos capítulos mais reveladores do espírito do compositor, o 10, intitulado "Querelas do Brasil", aponta o compromisso do compositor com o que sempre entendeu como legítimo: "Aldir permanece combativo no início da década de 2010 e, em consequência, sofre contestações. Seus artigos e suas entrevistas defendendo a manutenção dos direitos autorais dos criadores soam, em tempos de ´informação livre´ na internet, como tentativa de coibir um fluxo que parece imune a regras" (p.98).

Neste capítulo, com propriedade, o autor toca numa questão delicado em tempos de hoje: o reconhecimento dos direitos autorais, sua legitimidade, em confronto com a liberdade com que as informações circulam nos meios virtuais. Como se vê, questões de relevo fazem parte das preocupações desse artista que, com seu talento inquestionável, deu um depoimento consistente de seu tempo, em seus valores os mais diversos.

Considerações finais

A leitura de "Aldir Blanc - resposta ao tempo" não só descortina a grandeza desse artista, mas, e sobretudo, tece um painel do nosso próprio país, uma vez que as letras do compositor são um testemunho vivo de muitas décadas em que vivenciamos momentos os mais diversos: a ditatura militar, a obscuridade da censura, a luta pela democracia, a arte como instrumento para a transformação social, política e econômica. Por fim, os versos de "O bêbado e o equilibrista" - alegoria dos tempos de chumbo: "Meu Brasil / que sonha com a volta do irmão de Henfil / com tanta gente que partiu / num rabo de foguete (p. 225) Este livro pode ser visto como o espelho do ser e do tempo.

Comente: ler@diariodonordeste.com.br

LIVRO
Aldir Blanc: Resposta ao Tempo
Luiz Fernando Vianna
CASA DA PALAVRA
2013, 312 Páginas
R$ 55,00

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR