A terceira margem do rio: elos entre o conto e o filme

Os jogos intertextuais, isto é, o diálogo entre as obras de arte, é marca recorrente nos processos criativos

Ler

Comparando o filme ´´A Terceira Margem do Rio´´ de 1994, feito pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos, aos contos: ´´Sequência´´, ´´Fatalidade´´, ´´A Menina de Lá´´, e o conto homônimo ´´A Terceira Margem do Rio´´, de Guimarães Rosa, podemos observar inúmeras equivalências no quesito adaptação, bem como aspectos que diferem em ambas as obras. 

O enredo do filme inicia-se pelo conto que dá nome à obra, narrando a história de Jorge, que quando menino viu seu pai encomendar uma canoa, e sumir rio adentro sem oferecer nenhuma explicação. O menino, na tentativa de rever o pai novamente, passou a deixar comida para ele todos os dias, e esse hábito o acompanhou até a vida adulta. Como no conto, sua irmã também se casou e se mudou com o marido, porém um terceiro irmão que aparece no conto, não foi representado no filme. 

Feixes narrativos

Passando brevemente pelo conto ´´Sequência´´, Jorge persegue, a cavalo, uma vaca fugida do rebanho até chegar em uma propriedade antes por ele desconhecida. Possivelmente como uma forma de unir ´´A Terceira Margem do Rio´´, e ´´A Menina de Lá ´´, Jorge conhece uma linda moça chamada Alva, e ambos logo se casam, e em seguida nasce Maria, conhecida pelos familiares como Nhlnhlnha. A personalidade e os maneirismos da criança são igualmente bem representados na obra de Nelson Pereira dos Santos; no filme, porém, logo após a menina fazer chover a pedido dos pais e da avó, um grupo de homens armados carregando um preso buscam abrigo na propriedade de Jorge. O líder deles ao ver Alva sentada na varanda observando a chuva se enamora, porém logo em seguida descobre que ela é esposa do dono da casa.

O grupo acampa na beira do rio, e passa a amedrontar a família que, por fim, decide abandonar a propriedade e se hospedar na casa da família de Alva. Lá eles resolvem abandonar ambas as propriedades e ir morar com Rosário e o marido na cidade. 

Pouco é possível dizer sobre comparações entre a personagem de Rosário no conto e no filme, já que na obra escrita nada de muito relevante é revelado sobre sua personalidade, dando ao cineasta uma maior liberdade para moldá-la de acordo com o que pede o enredo. O mesmo pode ser dito pelo marido, que é apenas brevemente mencionado no conto, porém no filme funciona como uma espécie de instigador dos acontecimentos após a chegada da família na cidade. A chegada, entretanto, não é como eles esperavam pois a família logo encontra o mesmo grupo de homens do qual fugiam, e para sua infelicidade descobrem que eles formam uma espécie de milícia que atormenta e extorque os moradores da cidade. 

O insólito

Nhlnhlnha, que não entende as consequências da revelação de seus poderes, passa a usá-los para obter pequenos regalos, que ela em seguida divide com as crianças da vizinhança, porém a situação toma proporções muito maiores quando os demais moradores descobres suas habilidades. Pressionados por Rosário e o marido, que enxergar na criança uma possibilidade de mudar de vida, os pais concordam em deixá-la usar seus poderes para atender os pedidos daqueles que os procurassem, em troca de presentes. A menina passa a ser conhecida como santinha pelos moradores, e logo a notícia chama a atenção da mídia local e nacional. Uma verdadeira procissão se inicia até a porta da casa da santinha, onde um palanque foi montado para que a criança receba as pessoas em busca de milagres, porém Nhlnhlnha começa a recusar os presentes ofertados, e uma grande comoção se inicia. Se aproveitando da confusão o grupo de homens entra na casa e sequestram Alva. Jorge, que havia sido preso devido a uma armação do mandante do grupo, conta com a ajuda de um companheiro de cela para salvar a esposa. Trazendo agora um dos personagens do conto ´´Fatalidade´´, Jorge é levado pelo preso até a casa de um senhor famoso por sua precisão no manejo de armas de fogo, e ele decide então confrontar o grupo armado. Ao chegar na casa do grupo ele é recebido pelo líder, que aponta uma arma de calibre muito superior para ele.

Entretanto o senhor, que havia concordado em ajudar Jorge, se encontrava escondido e fuzilou o líder do grupo antes que ele pudesse atirar em Jorge, permitindo assim que ele resgatasse sua esposa. 

Considerações finais

Ao retornar, Nhlnhlnha, que já se encontrava enfraquecida depois de realizar tantos milagres, padece. Entristecida, toda a família chora, e a avó revela que a neta havia feito um último desejo de ter uma caixão cor de rosa, com pedrarias verdes, porém o pai não aceita, argumentando que isso seria ajudar a menina a morrer. Antes que a discussão continue, porém, o último desejo da criança é realizado e o caixão aparece diante deles na sala. A obra escrita termina com os familiares encarando o caixão; no filme, há o velório para a criança, reverenciada como uma verdadeira santa, e todos os romeiros lutam para tocar em seu caixão que é levado de forma coletiva. Por fim, o caixão levita diante de todos, e em seguida desaparece. 

FIQUE POR DENTRO

Nota acerca das relações de intertextualidade

Antônio Marchuschi, em “Produção textual, análise de gêneros e compreensão”(São Paulo: Parábola, 2010, p. 129-0), enfatiza que “ as relações entre um dado texto e os outros textos relevantes encontrados em experiências anteriores, com ou sem mediação. Há hoje um consenso quanto ao fato de se admitir que todos os textos comungam com outros textos, ou seja, não existem textos que não mantenham algum aspecto intertextual, pois nenhum texto se acha isolado e solitário. Pode-se dizer que a intertextualidade é uma propriedade constitutiva de qualquer texto e o conjunto das relações explícitas ou implícitas que um texto ou um grupo de textos determinado mantém com outros textos”.

Bruna Dantas*
Especial para o Ler

*Do Curso de Audiovisual da Unifor