A seca de 1877 e a identidade cearense

Dellano Rios

Nos últimos anos, a passagem da Comissão Científica imperial pelos estados do Nordeste tem despertado mais a atenção dos historiadores cearenses. Este ano, o Museu do Ceará deu início a uma série de publicações que põe em circulação documentos produzidos pela equipe científica que por aqui passou entre os anos de 1859 e 1861. O mais recente desta larva é ´A Seca no Ceará´, organizado por Kênia Rios, que será lançado hoje, às 18h30, no próprio Museu.

O despeito de uma certa variedade de cenários geográficos (serras, praias e manguezais, dentre outros), o retrato mais difundido do Ceará é o de uma terra seca sob o sol abrasante. A controversa imagem ainda é produzida e reproduzida, tanto pelos próprios “filhos da terra”, como por seus “detratores”, geralmente pessoas mal informadas.

O que poucos sabem é que esta imagem tem um momento certo de sua primeira aparição. É o que revela, entre outras coisas, o livro “A seca no Ceará: escritos de Guilherme Capanema e Raja Gabaglia”, organizado pela historiadora e professora do Departamento de História da UFC Kênia Sousa Rios. O livro compila três textos sobre a temática da seca, produzidos por membros da famosa Comissão Científica - que a mando do império percorreu as regiões mais “desconhecidas” do Brasil para um levantamento que incluía dados geológicos, botânicos, biológicos e antropológicos. São eles: “Ensaios sobre alguns melhoramentos tendentes à prosperidade da Província do Ceará” (1877), de Giacomo Raja Gabaglia; “Apontamentos sobre secas do Ceará” (1878) e “A seca do Norte” (1901), de Guilherme S. de Capanema.

O Ceará fazia parte do campo de interesse da equipe, que reunia pesquisadores brasileiros e estrangeiros, por dois motivos básicos: primeiro, como parte do plano do Império de conhecer melhor suas províncias do Norte (àquela época, não existia a divisão onde hoje figuramos como região Nordeste), que contavam com um histórico de revoltas e rebeliões, como a Confederação do Equador, a Cabanagem (PA) e a Sabinada (BA); segundo, porque havia suspeita que na província houvesse minas de ouro, que contribuiriam para o enriquecimento do país e seu nascente projeto de integração nacional.

“Nessa época, o Brasil começava a se preparar para uma discussão do que é o país”, explica Kênia Rios. Sem atender às expectativas quanto aos metais preciosos, o Ceará se viu incluído nesse projeto de integração a partir de calamidades como a seca de 1877. A severa estiagem chamou a atenção do país e do mundo para o problema da seca no Estado. “Esta seca mobilizou o Brasil inteiro para solucionar o problema do Ceará. Ali, cada província começava a ser vista como uma parte de um todo maior. E, se uma parte da nação estava ´doente´, todas as províncias tinham que se mobilizar. A seca colocou o Ceará como parte do corpo da pátria”, detalha a historiadora.

Segundo Kênia Rios, a seca de 1877 motivou a produção de mais textos científicos do que qualquer outra. Este interesse chegou até os centros de pesquisa europeus e o Estado acabou se vendo invadido por cientistas alemães, britânicos e de outras partes do mundo. Uma curiosidade: apesar da passagem da comissão pelo Ceará ter se dado na virada da década de 1850 para 1860, os documentos compilados no livro só foram publicados após 1877. Este dado dá uma dimensão do impacto do fenômeno da seca daquele ano sobre a comunidade científica.

“Por isso, até hoje nosso retrato é o da seca. Foi através dela que o Ceará se integrou ao projeto nacional”, conta Kênia Rios. Segundo a historiadora, “nossa memória nacional passa pela sacralização da água”. Sacralização de origem popular que fez os intelectuais verem que nossa verdadeira riqueza mineral era a água.

Tanto que, entre os debates que seguiram os trágicos eventos de 1877, se destacou aquele sobre as soluções técnicas para o problema da seca. “Falou-se em construção de poços, açudes e mesmo em canalização das águas do Rio São Francisco”, assinala Kênia Rios. Dentre as proposta, encontrava-se o aceleramento das obras do açude do Cedro, em Quixadá, cujas obras iniciaram em 1873 e só vieram a ser concluídas em 1906.

O fantasma daquela grave seca, alimentado pelas que a seguiram em outros anos, não conseguiu abandonar o Estado. Nem a sacralização da água. Prova disso é um dos itens mais curiosos da coleção do Museu do Ceará - uma ampola grande, contendo água da primeira sangria do Cedro, acontecida em 1924.

“A seca no Ceará faz parte da coleção do Museu do Ceará que pretende fazer vir a público documentos ainda pouco explorados produzidos pela Comissão Científica. A coleção foi inaugurada este ano com o lançamento de “Os ziguezague do Dr. Capanema: ciência, cultura e política no século XIX”, organizado e prefaciado por Sylvia Porto Alegre.

SERVIÇO: Lançamento do livro “A seca no Ceará: escritos de Guilherme Capanema e Raja Gabaglia”, organizado por Kênia Sousa Rios, às 18h30, no Museu do Ceará (Rua São Paulo, 51). Informações: 3101-2611