A psicose: delírios, perdas e violência

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As estruturas clínicas, segundo Joel Dor, instauram-se em função dos amores edipianos, quando a criança se vê diante da função paterna, que apresenta a castração simbólica. Esta é percebida pela criança quando uma figura de pai, presente no discurso materno como objeto de seu desejo, o destitui de ser o único objeto da mãe. Esses desdobramentos edípicos serão decisivos na estruturação, derivando deles a maneira pela qual o indivíduo vai se relacionar com o mundo. Diante da angústia da castração, criam-se mecanismos de defesa e, irreversivelmente, estrutura-se como neurótico, perverso ou psicótico.

A partir de seu mecanismo de abolição, na psicose não há dúvidas, e sim certezas com raízes em uma rejeição completa das experiências traumáticas, sendo a primeira delas a castração simbólica (função paterna). Decorre disso delírios e alucinações. A maioria das características vistas como sintomas da psicose são muitas vezes uma tentativa de reconstrução da realidade abolida.

Esquizofrenia e paranóia

No filme, encontramos exemplos de duas das formas de apresentação da psicose: a esquizofrenia e a paranoia. Ressalta-se que o diagnóstico de uma estrutura serve somente à condução do tratamento em análise, mediante a escuta do analisando. Nosso objetivo não é diagnosticar os personagens, mas apontar uma lógica semelhante a das estruturas clínicas.

Jack é o protagonista com histórico de descontrole, violência e alcoolismo. No decorrer do filme, percebe-se a formação de um delírio paranóico nele que culmina com a tentativa de assassinato de sua família. Sua vida anterior contém incidentes breves de perda de contato com a realidade e discurso persecutório. No hotel, a sensação de mudança no mundo ao seu redor, sendo ele a causa, evidencia os anúncios de um surto posterior na trama. Adiante, um processo delirante procura dar sentido ao que aí foi rejeitado.

O eu e a realidade

Freud trata a perda da realidade na psicose como o primeiro passo para uma tentativa de reparação, na qual o Eu seria afastado da realidade. Em Jack vemos isso em sua improdutividade, variação de humor e na própria paranoia. Dessa forma, nota-se um momento de virada, quando o hotel passa a ser seu aliado e sua família, perseguidora. Ressaltamos que esses momentos, "pré e pós surto", ilustram no sujeito psicótico a possibilidade de permanecer estável por muitos anos e de se restabelecer. Contudo, percebe-se que Jack mantinha uma estabilidade precária, ameaçada em diversas situações em que ele se encontrava na posição de agente da Lei (professor; pai). Na psicose não há uma ordem simbólica internalizada, e se um terceiro se impõe (o hotel), resta ao psicótico a experiência de algo que não pode ser simbolizado.

Em seu delírio, Jack possui uma missão relacionada ao hotel, e sua família o atrapalha. Nota-se uma significação cristalizada, uma certeza de que o hotel precisa dele. Através do delírio, Jack constrói um saber sobre o mundo para conseguir se relacionar com ele, e assim sabe do problema da situação (sua família) e como resolvê-lo. A agressividade do ato é uma tentativa de cessar algo que se impõe de maneira ameaçadora (a ordem do hotel). Ressaltamos que a violência do personagem está mais relacionada ao gênero de terror do que à sua estruturação psicótica - historicamente, a psicose é associada à loucura, o que ainda evoca muitos preconceitos.

Já Danny, cinco anos de idade, é o filho e coprotagonista do filme. Ele acredita poder ouvir os pensamentos alheios e prever o futuro através de um amigo, que viveria dentro dele e falaria pelo seu dedo, chamado Tony. Quando tinha quatro anos, seu pai, ao chegar a casa alcoolizado, o vê sobre papéis importantes,e desloca seu ombro ao puxá-lo violentamente. Esse fato permeia as relações dos personagens, já que a sua mãe demonstra nunca mais voltar a confiar os cuidados de Danny a Jack.

Wendy superprotege o filho, tirando-o da convivência do pai. Podemos ver um tipo de relação na qual a mãe toma o filho como objeto de gozo, parte de seu próprio corpo, mantendo-o alienado. Não existe um endereçamento a um terceiro que impeça o incesto e mediatize as relações do sujeito com o mundo. Assim, os impedimentos da realidade à satisfação dos desejos são rejeitados. É algo que Freud chama de "percepção sem consequências", onde, mesmo que haja a interdição, ela não terá estatuto de signo.

Considerações finais

Isso afeta a relação de Danny com a lei. As proibições que se mostram para ele são tomadas de forma traumática (não ir ao quarto 237). Danny alucina que está sendo chamado ao quarto por fantasma e quando finalmente adentra o lugar, entra em colapso e aparece depois com manchas no corpo. Podemos ver aqui que tais eventos não foram simbolizados, e apareceram posteriormente: no real do corpo da criança, e na única palavra que repete: redrum.

Redrum é um exemplo de palavra-valise, comum na esquizofrenia. São palavras que comportam todos os significados em um só significante: redrum, o sangue vermelho que escorre, o quarto que não deve entrar, a bebida de seu pai. A palavra imposta a Danny só se fecha num significado quando sua mãe a vê no espelho e reconhece murder, assassinato. As palavras, nessa estrutura, estão submetidas ao processo primário, e a ecolalia de Danny ilustra o "inconsciente a céu aberto" de que fala Jacques Lacan.

SAIBA MAIS

KING, Stephen. O iluminado. Tradução de Betty Ramos de Albuquerque; Ilustrações de Henry Steadman.
Rio de Janeiro: Objetiva, 1977
LEADER, Darian. O que é loucura? Delírio e sanidade na vida cotidiana.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2013
ZIZEK, Slavoj. Como ler Lacan.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2010