A Presença do arcadismo no Brasil

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O Arcadismo, ao tematizar situações convencionais, não desenvolveu, a rigor, uma poética original, limitando-se, muitas vezes, à simples recorrência aos modelos e motivos da poesia greco-romana e renascentista: carpe diem; locus amoenus; aurea mediocritas; fugere urbem. Assim, ora reflete acerca da perecibilidade dos seres ante a inexorável passagem do texto; ora, sobre o espaço natural como ambiente propício à felicidade e ao prazer; ora, sobre o homem como a expressão de simplicidade; ora, sobre o desejo de fuga da cidade: (Texto III)

Leitura do poema

Percebe-se, nitidamente, o caráter moralizador desse poema. O eu lírico insiste em mostrar à pessoa amada a implacável passagem do tempo, o que implica a urgência do amor: "Sem que o possam deter, o tempo corre".

No arcadismo, o pastor de ovelhas é um homem de mentalidade mediana (aurea mediocritas) - o que não o impede de refletir sobre as coisas, uma vez que tudo o que sabe aprendeu com a natureza. Daí o eu lírico leva a amada a olhar a natureza com a precisão de seus exemplos: "Triste o velho cordeiro está deitado, / E o leve filho, sempre alegre, salta", fazendo com que ela depare em si mesma a força corrosiva das horas. Por isso, a conclusão da urgência em viver plenamente o dia. O espírito livre do arcadismo permite ao poeta alternar versos decassílabos e hexassílabos ao longo das estrofes.

A herança clássica

A leitura atenta do poema "As liras de Marília de Dirceu", de Tomás Antônio Gonzaga, faz com que o leitor constante um elemento curioso: a pastora Marília, ao longo da composição, carece de unidade de enfoque; por conta disso, não se consegue, por exemplo, delinear o seu tipo físico. Sendo ela a namorada juvenil, espelha a ideia que o poeta faz do Amor; por isso é que ele a desenha como um ser mitológico, configuradora do sentimento, à moda dos clássicos, consoante a seguinte passagem da Lira 53: (Texto IV)

O mundo campestre e pastoril, frequentemente expresso na poesia árcade, não resulta de um contato direto com a natureza, mas da transposição da Arcádia (a região grega do pastoreio), presente nos clássicos, para a contemporaneidade dos poetas do Arcadismo. Advém, assim, uma natureza convencional (campos verdejantes, riachos tranqüilos), contemplada à distância como se fosse um quadro. Porém, advindo da Europa, o arcadismo, inscrevendo-se no Brasil, obrigou-se, evidentemente, a adaptações e substanciais mudanças O poeta Tomás Antônio Gonzaga, por vezes deixa de contemplar a natureza como um simples cenário, colhendo as flores e as plantas de nossa terra: as palmeiras, os manacás. (Texto V)

Considerações finais

Num poema de Cláudio Manuel da Costa, em vez do contraponto da vida metrópole e no campo, canta tão somente o rio de sua terra: (Texto VI) Neste soneto, o eu lírico canta o rio de sua terra, e não os riachos de água cristalina que se veem nos poemas clássicos. O que o motivo é o desejo de que, com o passar do tempo, o rio de sua aldeia não seja esquecido. Ressalte-se, ainda, a seguinte advertência: sob as águas do rio de sua terra natal, está a riqueza do ouro - e este alimenta as ambições humanas. ( C. A. V. )

Trechos

TEXTO III

Ornemos nossas testas com flores; / E façamos de feno um breve leito, / Prendamo-nos, Marília, em laço estreito, / Gozemos do prazer de sãos amores. / Sobre as nossas cabeças, / Sem que o possam deter, o tempo corre; / E por nós o tempo, que se passa, / Também, Marília, morre. /// Com os anos, Marília, o gosto falta, / E se entorpece o corpo já cansado; / Triste o velho cordeiro está deitado, / E o leve filho, sempre alegre, salta. / A mesma formosura / É dote, que só goza a mocidade: / Rugam-se as faces, o cabelo alveja, / Mal chega a longa idade. /// Que havemos de esperar, Marília bela? / Que vão passando os florescentes dias? / As glórias, que vêm tarde, já vêm frias; / E pode, enfim, mudar-se a nossa estrela. / Ah! não, minha Marília, / Aproveite-se o tempo, antes que faça / O estrago de roubar ao corpo a força / E ao semblante a graça! (GONZAGA, Tomás Antonio de. A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Aguilar, 1996)

TEXTO IV

Os teus olhos espalham luz divina, / A quem a luz do Sol em vão se atreve: / Papoula, ou rosa delicada, e fina, / Te cobre as faces, que são cor de neve. / Os teus cabelos são uns fios d'ouro; / Teu lindo corpo bálsamos vapora. / Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora, / Para glória de Amor igual tesouro. / Graças, Marília bela, / Graças à minha Estrela! (GONZAGA, Tomás Antonio de. A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Aguilar, 1996.

TEXTO V

Para escapar da axfixiante artificialidade, os poetas de talento encontraram dois caminhos: ou superaram-na pela introspecção, anunciadora do Romantismo, ou pelo curso à indagação platonizante, a Camões. Num caso e noutro, projetavam um "eu" emergente contra as regras discricionárias quea imitação dos clássicos parecia conter. Rebeldia, do relativo contra o absoluto, semelhante à da Inconfidência Mineira em favor da República: dir-se-ia que a sublevação resultou do alargamento de um dinamismo próprio do "eu" para ultrapassar a couraça dos princípios clássicos. Os poetas mais valiosos dessa época foram aqueles que mais longe conduziram a sua rebelião interior, e buscaram conciliá-la com o racionalismo arcádico: no consórcio tenso entre a razão e o sentimento localiza-se a melhor poesia setecentista. (MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira - Vol. I - das origens ao romantismo. São Paulo:

Cultrix, 2001, p. 232)

TEXTO VI

/ Leia a posteridade, ó pátrio Rio, / Em meus versos teu nome celebrado; / Por que vejas uma hora despertado / O sono vil do esquecimento frio: /// Não vês nas tuas margens o sombrio, / Fresco assento de um álamo copado; / Não vês ninfa cantar, pastar o gado / Na tarde clara do calmoso estio. /// Turvo banhando as pálidas areias / Nas porções do riquíssimo tesouro / O vasto campo da ambição recreias. /// Que de seus raios o planeta louro / Enriquecendo o influxo em tuas veias, / Quanto em chamas fecunda, brota em ouro. (COSTA, Cláudio Manuel da. Obras poéticas. In: PROENÇA FILHO, Domício. (Org.) A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro:

Aguilar, 1996, p. 51)

SAIBA MAIS

BOSI, Alfredo. O ser o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977

PROENÇA FILHO, Domício. A linguagem literária. São Paulo: Ática, 2011

SOUZA, Roberto Acízelo. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, 2009