A poética de Ivan Junqueira

A poesia de Ivan Junqueira, múltipla e singular, é um permanente convite a reflexões

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O espaço existencial da urbs, "quadro social inspirador do lirismo de Bandeira, de Mário de Andrade ou Murilo Mendes", é, também, imagem recorrente em Ivan Junqueira. Mas a configuração da cidade grande, enquanto espaço natural da vida contemporânea, não implica a pintura de sua expressão arquitetônica, paisagística ou até mesmo humana; antes, porém, tais elementos surgem por inferências, inscrevem-se por insinuações, são, a rigor, manifestações tácitas. Veja-se, desse modo, como a atmosfera de desencanto provoca inércia espiritual em "Poema nascido entre as cinzas": (Texto I)

Leitura do poema

Esse poema, por exemplo, está envolvido por uma atmosfera de carnaval; no entanto, sendo um "pálido carnaval feito de ver", há de realizar-se como uma experiência anímica. Exatamente por isso, o eu lírico, ao contrário do de Manuel Bandeira em "Bacanal", ("Quero beber! Cantar asneiras / no esto brutal das bebedeiras / que tudo emborca e faz em caco... / Evoé Baco!") não busca prazer por entre os mascarados, tampouco tem sua alma laçada pelas "serpentinas dos amores, / cobras de lívidos venenos...". Assim, mais se aproxima de uma interiorização no meio da multidão, tão comum ao gauche drummodiano, expressa, com aguda sensibilidade, pelo poeta mineiro em "O homem e seu carnaval", onde, não obstante os referenciais externos, "O pandeiro bate / é dentro do peito / mas ninguém percebe".

A ideia da internalização do eu já se anuncia a partir do primeiro verso: " Não, não chamemos ninguém", em que se inscreve, em verdade, um monólogo, uma vez que a primeira pessoa do plural é, simplesmente, um disfarce da primeira do singular, numa espécie de "viagem metafísica e carnal, / com uma dualidade de eu para mim...". À solidão do eu alia-se o mergulho no silêncio, enquanto sinal de indiferença ao mundo externo, inutilmente vivenciado pelos outros: "Essa algazarra, esse zunzum / de nada valerão agora", pois "o que há pouco era vertigem / em pó se desmanchou", isto é, insinua-se a quarta-feira de cinzas, apontando a efemeridade das ilusões. O eu lírico, pois, recusa-se a deixar-se envolver por essa atmosfera narcotizante; assim, o seu carnaval é tão-somente um "pálido carnaval de ver".

O eu dissolvido

Aliás, a sensação de um mundo que se decompõe, reforçando, então, a consciência da perda, bem como o próprio aniquilamento do ser, é nota comum em Ivan Junqueira, conforme esse fragmento de "Em tempo de agonia" (Texto II)

Através do recurso da estilística da repetição de "em tempo de agonia" e dos jogos anafóricos, instala-se uma circularidade, encerrando a constatação de que tudo retorna ao mesmo lugar, num acentuado fatalismo. A condição humana, portanto, é o centro das preocupações discursivas de Ivan Junqueira. Consciente de que o poema não se realiza apenas com a simples coleta de estados anímicos, porém a partir do momento em que vence os limites da pura singularidade, ou lírico, falando em si mesmo, fala, deveras, do próprio homem - metonímia da sociedade: (Texto III)

Daí a concepção de que uma obra lírica, embora havendo sua gênese no individual, pode, perfeitamente, ser a expressão do que seja mais geral e mais elevado nas crenças, representações e relações humanas. O eu comporta em si a metonímia do haver.

FIQUE POR DENTRO

Notas sobre o autor e sua obra

Ivan Junqueira nasceu na cidade do Rio de Janeiro aos 3 de novembro de 1934 e faleceu nesta mesma cidade aos 3 de julho de 2014. Dedicou-se à poesia, ao ensaio e a traduções de autores como Baudelaire e T. S. Eliot. Seu discurso literário prima, antes de tudo, por uma incansável busca pela perfeição formal, com especial destaque para o emprego de rimas toantes. É autor de "Os mortos"; "A rainha arcaica"; "Cinco movimentos e um soneto"; "A sagração dos ossos"; e "O outro lado". Sexto ocupante da Cadeira nº 37, eleito em 30 de março de 2000, na sucessão de João Cabral de Melo Neto e recebido em 7 de julho de 2000 pelo Acadêmico Eduardo Portella.

Trechos

TEXTO I

Não, não chamemos ninguém. / Tampouco façamos barulho. / Essa algazarra, esse zunzun / de nada valerão agora: / o que há pouco era vertigem / em pó se desmanchou. / Fiquemos, pois, imóveis. / E observemos ali, na penumbra, / onde meigamente um todo se dissipa, / as dádivas esquecidas pelo tempo. / São poucas: um fragmento / cloroformizado de aurora, um trecho / agonizante de magia, um afago / de suor evaporado. / Guardemos as dádivas / e, no abismo que desabrocha / - rosa da madrugada - / em nossa carne deserta, sepultemos / a espessa, sobterrânea nostalgia / deste pálido carnaval feito de ver.

TEXTO II

Em tempo de agonia / vem chorando minha poesia / que nem tímida oração / em tempo de agonia / vem a sombra da tristeza / inundar a solidão / em tempo de agonia / vem a noite / vem o dia / vem o seio maquilado / da mulher que não amei / e tudo vem / e tudo vai / em tempo de agonia (p.31)

TEXTO III

Expressão do sujeito e de sua imediatez, o lirismo só se realiza através do paradoxo que lhe é próprio: é no meio da mais profunda individualização que a universalidade do poema se afirma, bastando para tanto que a subjetividade lírica, voltada para si mesma, concretize na linguagem, na forma estética, a particularidade das vivências expressas. ( LAFETÁ. 1986. P. 65)

Carlos Augusto Viana
Editor